VOLTAS

A talha leva pedrada,
Pucarinho de feição,
Saia de côr de limão,
Beatilha suqueixada:
Cantando de madrugada,
Pisa as flores na verdura,
Vae fermosa e não segura.
Leva na mão a rodilha,
Feita de sua toalha,
Com uma sustenta a talha,
Ergue com outra a fraldilha:
Mostra os pés por maravilha,
Que a neve deixam escura;
Vae fermosa e não segura.
As flores, por onde passa,
Se o pé lhe acerta de pôr,
Ficam de inveja sem côr,
E de vergonha com graça.
Qualquer pegada que faça
Faz florescer a verdura;
Vae fermosa e não segura.
Não na vêr o sol lhe val,
Por não ter novo inimigo;{[57]}
Mas ella corre perigo,
Se na fonte se vê tal.
Descuidada d'este mal
Se vae vêr na fonte pura,
Vae formosa e não segura.

Obras compl. Ecl. X, p. 651.


Cantiga

Antes que o sol se levante,
Vae Violante a vêr o gado;
Mas não vê sol levantado
Quem vê primeiro a Violante.

VOLTAS

He tanta a graça que tem
Com uma touca mal envolta,
Manga da camisa solta,
Faixa pregada ao desdem;
Que se o sol a vir diante,
Quando vae munir o gado,
Ficará como enleado
Ante os olhos de Violante.
Descalsa ás vezes se atreve
Ir em mangas de camisa;
Se entre as ervas neve pisa
Não se julga qual é neve;
Duvída o que está diante,
Quando a vê munir o gado,
Se é tudo leite amassado,
Se tudo as mãos de Violante.
Se acaso o braço levanta,
Porque a beatilha encolhe,{[58]}
De qualquer parte que a olhe
Leva a alma na garganta.
E inda que o sol se alevante
A dar graça e luz ao prado,
Já Violante lh'a tem dado,
Que o sol tomou de Violante.

Idem, p. 653.