Rogae a Deos Padre honrado,
Que me queira dar paciencia,
Que o perdão é escusado,
Porque vossa diligencia
Vos não deixa ser culpado.

Ermitão:

O filho de Deos enviado
Vos mande consolação!
E pois que aqui sou chegado
Quero ouvir de confissão
Este ferido e angustiado.
Coisa é mui natural{[74]}
A morte a toda a pessoa,
A todo o mundo em geral,
Pois que a nenhum perdôa,
Não a tenhamos por mais.
Porque o peccado de Adão,
Foi tão fero e de tal sorte,
Que não só por perdição.
Mas Deos, que é salvação,
Quiz tambem receber morte.
E por tanto, filho meu,
Não se deve de espantar,
Da morte que Deos lhe deu,
Pois que em provimento seu,
Lh'a deu o para salvar.
Lembre-lhe sua paixão:
Veja este mundo coitado,
E não o engode o malvado,
Que não dá por galardão
Senão tristeza e cuidado.
Em quanto, filho, tem vida,
Chame a Madre do Deos,
Aquella que foi nascida,
Sem peccado concebida,
E coroada nos céos.
Esta foi santificada,
E visitada dos Anjos;
E em corpo e alma levada
Á gloria, onde exaltada
Lá está sobre os archanjos.
Assim, que ao Redemptor,
E a esta Virgem sem par
Se hade, filho, encommendar,
Depois que os santos fôr
Sua vontade chamar.
As mãos levante aos céos,
Faça confissão geral,{[75]}
Confessando-se a Deos,
E á Virgem celestial,
E a todos os santos seus.

Marquez:

Oh bonancia aborrecida,
Oh desastrada fortuna!
De prazeres gram tribuna!
Porque não desamparaes
A quem sois tam importuna?
Tristeza, desconfiança,
Porque não desesperaes
A quem não tem confiança?
Contae-me, pagem Burlor,
O caso como passou,
Quem foi aquelle traidor
Que matou vosso senhor,
Ou porque causa o matou.

Pagem:

Seria mui mal contado
Se a sua gram Senhoria
Não contasse o que é passado.
Eu sei certo que faria,
O que não é esperado
Contra quem me deu estado,
E ha feito tantas mercês,
Que nunca meu pae me fez,
Que é meu senhor amado,
E mais vós, senhor Marquez.
Estando pois em Paris,
O filho do Imperador,
Mandou chamar meu senhor
Nos paços da Imperatriz;
Falaram muitos a sabor,
O que falaram não sei,
Senão que logo n'essa hora
Sem fazerem mais demora,{[76]}
Com quatro detraz de si
Foram da cidade fóra,
Armados secretamente,
Segundo depois ouvi.
Partimos todos d'aí.
E Dom Carloto presente,
Tambem armado outrosi.
E tanto que aqui chegaram,
N'este valle de pezar
Todos juntos se apearam,
E fizeram-me ficar
Com os cavallos que deixaram.
E logo todos entraram
Em este esquivo logar,
Onde meu senhor mataram;
E depois de o matar,
Nos cavallos se tornaram;
Como eu os vi tornar,
Sentindo muito tal dôr,
Temendo de lhe falar,
Não usei de perguntar
Onde estava meu senhor.
Vendo-os assim caminhar,
Porque nenhum me falava,
Quiz a meu senhor buscar,
Porque o coração me dava
Sobresaltos de pezar.
Não o podia topar,
Porque a grande espessura
E a noite medrosa, escura
Me fazia não o achar:
Do que tinha gram tristura.
Buscando-o com gram paixão,
N'aquelle logar remoto
O achei d'esta feição.
Disse como á traição{[77]}
O matára Dom Carloto.
Perguntei porque rasão?
Triste, cheio de agonias,
Disse-me com afflicção:
«Vae-me buscar confissão,
Já se acabaram meus dias.»
Como taes novas ouvi,
Com grande tribulação
E pezar de vêl-o assi,
Me parti logo d'aqui
A buscar esse Ermitão.
Isto é, senhor, o que sei
D'este caso desastrado,
Quanto me ha perguntado,
Outra cousa não direi
Mais do que lhe hei contado.

Marquez:

Quando sua magestade
Justiça me não fizer
Com toda a rigoridade,
Á força de meu poder
Cumprirei minha vontade.

Ermitão: