Já, senhor, se ha confessado,
E fez actos de christão;
Morre com tal contricção,
Que eu estou maravilhado
De sua gram discrição.
Muito não pode tardar,
Segundo n'elle senti:
Acabei de lhe falar,
Porque lhe quero resar
Os psalmos de el-rei David.
Valdevinos:
Não tomeis, tio, pezar,
Que me parto de vos ver{[78]}
Para nunca mais tornar;
Pois Deos me manda chamar
E não posso mais fazer.
Torno-vos a encommendar
Minha esposa e minha mãe,
Que as queiraes consolar,
E ambas as amparar,
Pois que não tem outro pae.
Oração de Valdevinos:
Em as tuas mãos, Senhor,
Encommendo meu espirito;
Pois que és Salvador meu,
Meu Deos, e meu Redemptor,
Não me falte favor teu;
Pois, Senhor, me redemiste,
Como Deos, que és de verdade,
Senhor de toda a piedade,
Lembra-te d'esta alma triste
Cheia de toda a maldade.
Salve, Senhora benigna,
Madre de misericordia,
Paz de nossa gram discordia,
Dos peccadores mesinha;
Vida doce e concordia,
Spes nostra, a ti invocamos,
Salva-nos da escura treva.
A ti, Senhora, chamamos
Desterrados filhos de Eva;
A ti, Virgem, suspiramos
A ti gemendo e chorando
Em aqueste lagrimoso
Valle sem nenhum repouso,
Sempre Virgem, a ti chamamos,
Que és nosso prazer e gôso.{[79]}
Ora pois, nossa advogada,
Amparo da christandade,
Volve os olhos de piedade
A mim, Virgem consagrada,
Pois que és nossa liberdade.
Dá-me, Senhora, virtude
Contra todos meus imigos,
Pois que és a nossa saúde,
Eu te rogo, que me ajudes
Nos temores e perigos;
Roga tu por mim, Senhora,
Oh santa madre de Deos,
A quem minha alma adora,
Pois és rainha dos céos,
E dos anjos superiora.
(Aqui expira Valdevinos)
Marquez:
Oh triste velho coitado!
Oh cãs cheias de tristura!
Oh doloroso cuidado!
Oh cuidado sem ventura,
Sem ventura desterrado!
Quebrem-se minhas entranhas
Rompa-se meu coração
Com minha tribulação.
Chorem todas as campanhas
Minha grande perdição;
Escura-se o sol com dó,
Caiam estrellas do céo,
As trevas de Faraó
Venham já sobre mim só,
Pois minha luz se perdeu
Na luz de mui claro dia;
Claridade, sem clareza,
Minha doce companhia,{[80]}
Onde está vossa alegria,
Que me deixa tal tristeza?
Oh velhice desastrada,
Sem gloria e sem prazer,
Para que me deixaes ser,
Pois que sendo, não sou nada,
Nem desejo de viver?
Porque não vens, padecer,
Porque não vindes, tormentos?
Para que são soffrimentos,
A quem os não quer já ter,
Nem busca contentamentos?
Para que quero rasão
Para que quero prudencia,
Nem saber, nem discrição?
Para que é paciencia,
Pois perdi consolação?
Pagem:
Oh meu senhor muito amado,
Porque vos tornastes pó!
Porque me deixastes só
Em este mundo coitado
Com tanta tristeza e dó?
Leváreis-me em companhia,
Pois sempre vos tive, vivo.
Oh minha grande alegria,
Porque me deixaes captivo,
Mettido em tanta agonia?
Meu senhor, minha alegria
Dizei, porque nos deixaes
Com tanta pena notoria!
Lembrae-vos, tende memoria,
De quantos desamparaes.
Oh sem ventura Burlor!
De quem serás amparado,
De quem terás o favor{[81]}
Que tinhas do teu senhor,
Pois que já te ha faltado?