Folha volante, de 1660
DOM FRANCISCO MANOEL DE MELLO
Romance picaresco, intitulado «Debuxo de Pena,»
Que em portuguez a retrate
Me rogou Dona Breitís;
Porque tem nojo das côres
Dos poetas de Madril.
Eil-a vae, escutae, vede,
Pois logo vereis se ouvís;
Que se não vae para vêr,
Vae, ao menos, para ouvir.
O cabello é pino de ouro
Tanto mais que o Potosy,
Que ao pino do meio dia
Faz cada dia o sol crís.
Apodara-lhe eu a testa
A um pedaço de marfil;
Mas ella diz d'esse apodo
Que m'o deixa para mim.
Os olhos são dois soldados
Da fronteira ou do Brazil;
A quem amor por valentes
Deu o habito de Aviz.
Trez meninas tem travessas
Com as duas que lhe vi,{[150]}
Pois brincando ella com ellas
São trez meninas, emfim.
Porque são arcos de flores,
Me jurou Maria Gil,
Lhe comprára para a dança
As sobrancelhas sutís.
Pestanas tem, não queimadas
Por lhe não servir assi,
Para uns olhos tão dormidos
As pestanas são dormir.
Ambas as faces parecem
De obra de agulha gentil,
Bainha de ambas as faces
Em lenço feito em Cochim.
Não falemos no do meio
Ramalhete de jasmins,
Que segundo é lindo, e cheira
É ramalhete ou nariz.
O carão limpo e luzente
Uma pessa é do sitim,
Não picado, que picado
É só quem tal carão vir.
O rostro livro é de caixa
Cujas partidas gentís
Não viu o Infante Dom Pedro
Emquanto andou por ahi.
As orelhas fogem ás dores
Porque as não querem sentir,
Orelhas de mercador
Vendendo mais dor assim.
A boca d'esta fidalga,
Se não vem como se diz
A pedir de boca, é boca
Que nunca vem a pedir.
Que pouco direi dos dentes.
Bem que muito dizer quiz;{[151]}
Mas cada dente tem dente
Contra a musa mais subtil.
Se tomal-a pelo beiço
Quer o cravo e o rubi,
Ella pelo o beiço toma
Mil cravos e mil rubis.
Sem falta a moça não come
Outro pão, que de ambar gris,
Segundo vem perfumados
Seus nãos, quanto mais seus sins.
Na garganta me deu susto
Quando fui e quando vim;
Porque co'alma na garganta
Sempre a verá quem a vir.
O talho de muito inteiro
É feito tão sobre si,
Que tal me depare Deos
No meu feito o meu juiz.
Conforme que prende e mata
Com olhar e com sorrir,
A senhora traz no gesto,
Um algoz e um beleguim.
Se trez foram como duas
Que são duas flores de liz,
Lhe tomára as mãos por armas
De França o mesmo Delphim.
Ouvi que lhe pediu Venus
Para pôr nos seus jardins
Os pés, que postos em terra
Prendem quaes pés de jasmins.
Quando pisa, o cravo cheiro,
D'onde já disse Merlim,
Que pés que assim pisam cravo
São pés mãos de almofariz.
Senhora Breitís, agora
Comvosco vos conferí;{[152]}
Que se este retrato é pouco
Far-vos-hei d'estes cem mil;
Porque só pinto o que vejo,
Não lanço adiante o gis,
Senão, dae-me mais que vêr
Que eu vos darei mais que rir.
Quando empunhando o rifão
Faça crêr, como eu o crí,
Que a Breitís sempre é das moças
Qual das aves a perdiz.
Obras metricas, t. II, p. 219. Edição de 1665.
M. QUINTANA DE VASCONCELLOS
Romance da Claridea ao som da harpa da Torre
Todas as vezes que canto
Por aliviar minha pena,
Segue o pensamente a voz
Té chegar á causa d'ella.
Lá entre mil alegrias,
Que a memoria representa,
Tão triste me considero,
Que me converto em tristeza.
Ser alivio de um mal grande
Qualquer gosto, ninguem creia,
Que augmente ao contrario ás forças
Uma debil resistencia.
Rouba o tempo ao mesmo tempo,
A musica o animo alegra,
E é tão querida de amor,
Que amando o mais rudo adestra.
Tema do seu doce effeito{[153]}
Prodigiosas experiencias,
Nas aves de que é seguida,
Nos animaes que deleita.
Eu só me afflijo cantando,
E todo o bem me atormenta,
Que perder vida e memoria
São os remedios da auzencia.
Tem por mór mal o da morte
Nossa fragil natureza;
Mas, maior mal ha na vida
Se ha memorias, o soffrel-a.
Aqui só n'esta prizão,
E em meu cuidado mais preza,
Estam tão longe de mim,
Que nada sei de mim mesma.
Lagrimas me tem comsigo
Quando a suspirar-me leva,
Do que fui tenho saudade,
E de ser quem sou me pesa.
Viver co'a dôr que padeço
Deve ser ventura alheia,
Inda que dão desventuras
Forças da nossa fraqueza.
Mas quem desespera auzente
Do bem que amando deseja,
Já não tem dor que sentir,
E embalde outra morte espera.