A Imperatriz, senhor,
Está tão amortecida
De grande paixão e dôr,
Que não tem pulso nem côr,
Nem nenhum sinal de vida.
Nenhum remedio lhe vemos;
Está n'esse padecer,
Sem lhe podermos valer:
E segundo n'ella cremos
Mui pouco hade viver.
Imperador:
Eu muito me maravilho
De sua gram discrição;
Mais sinto sua paixão,
Que a morte de meu filho...
Não te quero mais dizer,
Quero-a ir consolar,
Pois tanto lhe faz mister.
Não sei porque é enojar,
Por se justiça fazer.
(Aqui se vae o Imperador, e virá Reinaldos com o Algoz, o qual traz a cabeça de Dom Carloto)
Reinaldos:
Já agora, senhor Marquez,
Vos podeis chamar vingado,
Porque assás é castigado{[104]}
O que tanto mal vos fez,
Pois que morreu degolado.
Fazei por vos alegrar,
Dae graças ao redemptor,
Pois assim vos quiz vingar,
Sem nenhum de nós p'rigar,
E com mais vosso valor.
Folha volante de 1665.
Historia da Imperatriz Porcina, mulher do Imperador Lodonio de Roma.
No tempo do Imperador,
Que Lodonio se dizia,
Que a grã cidade de Roma,
E seu Imperio regia,
Casado com a Imperatriz
Que Porcina nome havia,
Por suas muitas virtudes,
Formosura, e valia
Como princeza que era
Filha do grão rei da Hungria:
Tinha este Imperador
Comsigo em companhia
Um irmão por nome Albano
Que elle muito queria,
Em rasão do parentesco,
O melhor que ser podia.
Este nobre Imperador
Bem dois annos estaria
Com sua amada mulher,
Sem haver filho, nem filha,
Certamente mui contente
Pois Deos assim o queria,{[105]}
E d'isso era servido,
Por muitos bens que fazia:
As viuvas amparava,
E os pobres soccorria.
As orfãs todas casava,
Quantas na cidade havia.
As obras de misericordia
Com grã vontade cumpria,
Por amor de Jesus Christo,
E da sagrada Maria.
Tinha este Imperador
Promettido em romaria,
Visitar a terra santa,
Que Jerusalem se dizia;
E ver os santos logares,
Todos os que n'ella havia,
Nos quaes havia de estar
Um anno que assim cumpria.
Antes de sua partida
Quiz fazer o que devia,
Deixou por govornadores
A sua nobre Porcina,
E tambem a seu irmão,
Que o povo assim o pedia.
Como isto foi acceitado,
O povo ajuntar fazia:
Manifestou-lhe a partida,
Que escusar-se não podia,
Dizendo—que obedecessem,
Sem curar de mais porfia,
A sua amada mulher,
Que em seu logar ficaria,
E tambem a seu irmão,
Pois tinha tanta valia.
Todo o povo está contente
Do que o Imperador queria,{[106]}
E acabando de comer,
A horas do meio dia,
Entrou em o aposento
Onde a Imperatriz dormia,
Viu-a estar muito chorosa,
Apartada de alegria.
Como quem adivinhava
O mal, que ella não sabia,
Com o rosto dissimulado,
Encobrindo o que sentia,
Disse-lhe d'esta maneira,
Com pena que padecia:—Minha amada companheira,
Minha doce companhia,
Lume de meus claros olhos,
Espelho em que eu me via;
Porque estaes assim chorosa
Com tão sobeja agonia?
Porque de ver-vos assim,
A alma se me saía?
Mas se vós quereis, senhora,
Deixarei a romaria,
Mandarei outrem por mim,
Pois não se escusa esta via.Respondendo a Imperatriz
D'esta maneira dizia:«Não olheis vós, meu senhor,
A fraqueza, que em mim havia,
Porque eu como mulher
Nunca deixar-vos queria;
Nem estar de vós apartada
Só um momento de um dia.
Mas o que vós promettestes{[107]}
Outrem cumprir não podia,
Que seria grão peccado,
Que Deos muito extranharia.
Por tanto, Nosso Senhor
Seja sempre em vossa guia,
Que eu vos encommendarei
A elle e a santa Maria.Despediu-se o Imperador
Sem cuidar de mais porfia,
Abraçando a Imperatriz
Que mil lagrimas vertia,
Pois no coração lhe deu
Que mui tarde o veria.
E depois d'elle partido
Para a sua romaria,
Esta tão nobre senhora
Quiz fazer o que devia
No governo do Imperio,
Com Albano em companhia,
Que seu marido Lodonio
Nenhuma mingua fazia.
Como este Albano era
Cheio de toda a falsia,
Amava a Imperatriz
Já de muito tempo havia;
Morria por seus amores
Que todo se desfazia,
Pela sua honestidade
D'ella não a requeria;
Que como agora tivesse
Tempo para o que queria,
Determina entrar com ella,
Pois que fazel-o podia,
Que, como governador,
Ella não extranharia.{[108]}
Em estas coisas pensando
Está até o outro dia.
Ás horas que a Imperatriz
De sua cama se erguia,
Estava quasi despida,
Porque a ninguem temia:
Como viu entrar o cunhado
Toda se estremecia.
Porque sua honestidade
Tal cousa não requeria:
Como dentro entrou com ella
Mui contente em demazia,
Foi-lhe a beijar as mãos,
O que d'antes não fazia.
A Imperatriz tão casta,
Assombrada em demazia,
Cobriu-se com um roupão
De ouro e de pedraria;
Com rosto mui vergonhoso
Encobrindo o que sentia,
Levantou-se logo em pé
Descalça na pedra fria,
Assombrada e mui turbada
Espera o que lhe dizia.
Disse-lhe o traidor cunhado,
Sem olhar o que devia:—«Perdoae-me, alta Princeza,
Minha grande ousadia,
Que d'onde ha força de amor
Não póde haver cortezia.
Muitos dias ha, senhora,
Claro espelho e luz do dia,
Que desejo descobrir-vos
O que encobrir não podia;
Que por vosso grande amor{[109]}
Triste estou sem alegria,
Se vós me não daes remedio,
Sem nenhum eu ficaria.
Por tanto se vós quereis,
Grão prazer receberia
De vos casardes commigo,
Sem cuidar de mais porfia,
Levantemo-nos c'o Imperio,
Pois que fazer-se podia,
Sendo nós Governadores
Ninguem nol-o tolheria.
Se vós, senhora, temeis
Pelo que o povo diria,
Eu irei matar meu irmão
Estando na romaria.
Far-lhe-hei dar tal peçonha,
Que morra antes de um dia.Foi-lhe a Imperatriz á mão
Do mais que dizer queria,
E abrazada toda em mágoa
D'esta sorte respondia:«Por certo, falso cunhado,
Vós tendes grande ousadia,
Vosso grande atrevimento
Grão castigo merecia:
Em que viva me queimassem,
Nunca tal consentiria,
Porque a fé e lealdade
Que a meu marido devia,
Em que me dessem mil mortes
Eu nunca a quebrantaria!
Tirae-vos diante de mim,
Traidor cheio de falsia.»{[110]}Vendo-a elle tão irada,
A grande pressa saía
Da camara, onde estava
Que assim se despedia.
Temendo que aos seus brados
Muita gente acudiria;
Determinou entrar de noite
Na camara onde dormia,
E que com tapar-lhe a bocca,
Seu desejo cumpriria.
Descobrindo isto a um pagem
Que fiel lhe parecia,
Porque o acompanhasse
Na traição que commettia,
Pareceu-lhe a este pagem,
Que mui culpado seria,
Se ali se deshonrasse
Pessoa de tal valia;
Determinou de dizer-lhe,
Antes que chegasse o dia,
Porque não viesse a effeito
O que elle fazer queria.
Como a Imperatriz o soube,
Com grã pressa em demazia,
O mandou logo prender
Na casa d'onde dormia;
Mandou-o pôr era uma torre,
Que dentro do paço havia.Depois que o Imperador
Acabou sua romaria,
Cumprindo sua promessa
Como a tal senhor cumpria,
Determinou de tornar-se
Com muita grande alegria;
Porque esperava de vêr{[111]}
A quem tanto lhe queria.
Mandou diante um correio
Em que a saber lhe fazia,
Como seria com ella
Antes do oitavo dia;
Com a qual a Imperatriz
Foi alegre em demazia:
Fel-o a saber á cidade,
Porque assim fazer devia,
Para fazer grandes festas
A quem tanto merecia.
Foi-se direita á prizão
Onde o cunhado jazia,
Disse-lhe:«Senhor cunhado
Não tenhaes tal fantazia,
Porque já vem vosso irmão,
Tomemos grande alegria;
Eu vos perdôo o passado,
Pois que ninguem o sabia;
Recebei o Imperador
Com toda a cavallaria,
E levareis um vestido
De ouro e argenteria,
Que está feito para vós,
Que é de muita valia.Tirou-o da prizão fóra,
Foi com elle em companhia,
Porque ninguem conhecesse
O mal que feito havia.
Cuidava o falso cunhado
Em como se vingaria
De quem lhe fez tal pezar,
Pois já tel-a não podia.{[112]}
Foi-se receber o irmão
Pela pósta ao outro dia,
Vestido todo de dó
Que o cavallo lhe cobria;
Chegando onde elle estava,
Vestido assim como ia,
Fez-lhe grande acatamento,
Fingindo mais que sohia;
Quando viu o Imperador
Certo não o conhecia,
Mas depois de o conhecer,
Mui turbado lhe dizia:—Dizei-me por Deos, irmão,
Por que assim o dó trazia,
Como está a Imperatriz,
Minha fiel companhia?
Dizei-me se é viva ou morta?
Tirae-me d'esta agonia,
Que meu triste coração
Grão sobresalto sentia.Respondeu o falso irmão
Com mui grande ousadia:—«Eu vos direi a verdade
Pela fé que vos devia,
E por que sois meu irmão,
A quem mentir não podia.
Depois que d'aqui partistes
Para ir á romaria,
Deixastes a Imperatriz,
E eu com ella em companhia,
Para governar o Imperio
De Roma e sua senhoria.
Prouvera a Deos fôra eu{[113]}
Sepultado em terra fria,
Antes de ficar com ella,
Pois tal traição commettia.
Estando, senhor, dormindo
Fóra de tão grã falsia,
Entrou de noite commigo
Na camara onde dormia,
E chegando á minha cama
D'esta sorte me dizia:
«Que por mim perdida andava
Já de muito tempo havia,
Que casasse eu com ella,
Sem cuidar de mais porfia:
E que logo Imperador
N'essas horas me faria,
E quando vós viesses,
Que ella vos mataria
Com muito forte peçonha,
Que não vivesses um dia.»
E porque não consenti,
Disse que eu a accommettia,
E fez-me logo prender,
O que ella merecia.
Até agora preso estive
Com muito grande agonia.
Esta é, senhor, a verdade,
Que de mim saber querias.Quando o nobre Imperador
Tam maldita nova ouvia
D'aquella que tanto amava
Mais que a vida, em que vivia,
Caiu do cavallo em terra,
Uma hora se amortecia,
Fizeram-n'o tornar em si,
Com lhe deitar agua fria;{[114]}
Cobriu-se logo de dó
Com o que o irmão trazia;
Todo o amor que lhe tivera,
Em odio se convertia.
Sem mais falar com ninguem,
Que a tristeza lh'o tolhia,
Determinou dar-lhe a morte,
Que ella tam mal merecia.
De noite secretamente,
O mais quieto que podia,
Entrou dentro da cidade,
Á meia noite seria;
Mandou tres homens dos seus
Sem outra mais companhia,
Que matassem a Imperatriz
Antes que viesse o dia,
N'uma floresta cerrada
Por onde gente não ia,
E vestida a enterrassem,
Porque assim fazer cumpria;
E se isto não fizessem,
A vida lhes custaria.
Mandou-lh'a logo entregar
C'o vestido que trazia,
Para receber aquelle
Que tão mal a recebia.
Vendo-se ella assim levar,
Suspeitando o que seria,
Como discreta, que era,
Cheia de sabedoria,
Levantou o rosto ao céo,
D'esta maneira dizia:«Encommendo a Deos minh'alma
E á virgem santa Maria,
Porque me criou de nada,{[115]}
Por sua bondade pia.
Lembrae-vos, Senhor, de mim,
Pois sem culpa padecia,
Não olheis os meus peceados,
Nem o mal, que merecia;
Mas vossa misericordia,
Que todo o mundo cobria.
Eu perdôo a meu cunhado
Todo o mal que fazia,
E tambem a meu marido,
Porque enganado vivia.»Os homens que a levavam
Onde padecer havia,
Viram sua formosura
Co'a lua, que então saía,
Disseram uns aos outros:==Mal empregada seria
A morte a esta senhora,
Pois que tem tanta valia;
Gozemos primeiro d'ella
Que a coma a terra fria.N'isto se determinaram,
Sem cuidar de mais porfia.Respondeu a Imperatriz:
(Bem vereis o que diria.)«Fazei o que vos mandaram,
Não cureis de fantazia;
Deixae a minha limpeza
Para quem a merecia,
Que se tocasses em mim,
A vida vos custaria.»{[116]}Não cuidaram os algozes
No que a senhora dizia,
Antes remetteram a ella
Com muito grande ousadia.
A innocente cordeira,
Vendo que a gente a despia,
Começou a dar taes gritos,
Que a floresta retinia;
E como ainda era noite
Em grande parte se ouvia.
Acertou de ouvil-a um Conde
Que muita gente trazia,
Que vinha de Jerusalem,
Onde muita gente ía.
Quiz Deos que aquella noite
Por ali fizesse via,
Para livrar a Princeza
Da pena que padecia.
Como taes gritos ouviu
Do cavallo se descia,
E com muita grande pressa
Na floresta se mettia;
Seguiram-no seus criados,
Cada um como podia,
Ao som dos tristes gritos
A gente toda o seguia;
Foram dar n'aquella parte,
Onde a coitada gemia,
Que com mui grande fraqueza
A força lhe fallecia,
E se um pouco mais tarda
Sua honra se perdia.
O Conde mui piedoso,
Que Clitaneo se dizia,
Vendo tão grande maldade,
Com grã pressa em demazia,{[117]}
Disse: Matae, meus criados,
Quem tal traição commettia.
Todos foram logo mortos
Antes d'uma ave-maria;
E a Imperatriz ficou livre,
Porque mal não merecia.
Deu-lhe a Imperatriz as graças
Do bem que feito lhe havia;
Quando isto aconteceu,
Já era mui claro dia.
E o Conde tão assombrado,
Que quasi emmudecia
De ver sua formosura
Mais que todas quantas via,
Logo suspeitou que era
Senhora de grã valia,
Assim por seu parecer,
Como pelo que vestia.
Disse-lhe d'esta maneira
Com mui grande cortezia:«Não me negueis vós, senhora,
Isto que agora diria,
Porque não queria errar
Contra vossa senhoria:
Vós sois de alta linhagem,
Isto eu o juraria;
Se vós me dizeis quem sois,
Grã prazer receberia;
Quem vos trouxe a este logar
Com tão falsa companhia?
Dizei-me toda a verdade
Sem cuidar de mais porfia.Respondeu a Imperatriz,
Porque encobrir se queria:{[118]}«Eu sou mal afortunada,
Que não sei porque nascia,
Por um falso testemunho
Perdi minha grã valia;
Não vos posso mais dizer,
Porque escusado seria:
Senão, quero vos rogar
Por Deos e santa Maria,
Me quereis levar comvosco
O que eu não merecia;
Servir-vos-hei como escrava,
Sempre de noite e dia.Foi o Conde mui contente
De fazer o que dizia;
Deu-lhe uma cavalgadura
De muitas que ali trazia.
Chegaram á pousada
Com muito grande alegria,
Onde foi bem recebido
De sua mulher Sophia;
Contou-lhe o que passou
Em a sua romaria;
Tambem lhe apresentou
A senhora que trazia;
Contou-lhe como a achara,
Que nada não lhe mentia.
Beijou-lhe a Princeza as mãos
Inda que ella não queria,
Tomou-lhe mui grande amor
A Condessa em demazia,
Que não comia sem ella,
Com ella folgava e ria;
Mais que sua irmã carnal,
Era o que lhe queria,
Até o menino de teta,{[119]}
Que pouco maior seria,
Lh'o deu á Imperatriz,
E sempre com ella dormia.Tinha o Conde um irmão,
Que Nathão por nome havia,
O qual por esta senhora
Graves penas padecia:
Não tinha nenhum prazer
O dia que a não via.
Determinou descobrir-lhe
Como por ella morria;
E um dia, tendo logar,
Quando a Condessa dormia,
Disse-lhe d'esta maneira
Com grande dor que sentia:—Mui resplandecente aurora,
Claro sol do meio dia
Que fez o Eterno Pintor,
Que todas as coisas cria.
Minha alma por vós padece,
Minha vida se perdia;
Por isso me deu o amor
Esta tão grande ousadia,
Que ousasse a descobrir
O que o coração sentia.
O que vós tendes roubado
É liberdade e alegria;
Essas crystalinas mãos
De aljofar e pedraria
Me deixae beijar, senhora,
Pois que tem tanta valia.
Não consintaes que padeça,
Quem a vida só queria,{[120]}
Para vos poder servir,
Como ella merecia.Querendo-lhe a mão tomar,
A Imperatriz se desvia,
Em ira toda abrazada,
Resposta lhe não dizia:«Senão olhara, senhor,
O mal que n'isto faria,
Eu manifestara ás gentes
Vossa louca ousadia.
Tirae-vos diante de mim,
Não cureis de mais porfia,
Ou dil-o-hei á Condessa,
Minha senhora Sophia,
E tambem ao senhor Conde,
Que de mim tanto se fia.Sem curar de mais palavras,
Na camara se recolhia,
Queixando-se da fortuna,
Porque tanto a perseguia.
Ficou tão triste Nathão,
Quanto dizer não podia,
Por tão áspera resposta
Como d'ella ouvido havia.
Todo o amor que lhe tivera,
Em tedio se convertia;
Determina de vingar-se
Por qualquer maneira ou via.
Como a noite foi cerrada,
Que já ceado se havia,
O Conde e a Condessa
E toda a mais companhia,
Cada um em seu aposento{[121]}
A dormir se recolhia,
E tambem a Imperatriz
Á cama d'onde dormia;
Levava comsigo o menino,
Como d'antes o fazia.
Deixou a candeia acceza,
Como de costume havia.
Assim como se deitou
Logo se adormecia,
Com o menino nos braços,
Porque muito lhe queria.
Estava o falso espreitando
Como a cordeira dormia,
Cançada de muitos choros,
Que de continuo fazia,
Lembrando-lhe seu marido,
E o bem que d'elle perdia;
E que sendo Imperatriz
De tanto estado e valia,
Agora como escrava
De uma vassalla se via,
E que de um seu irmão
Tanta affronta recebia.
Como viu este malvado,
Que o somno a embebia,
Tirou a porta do couce,
Com um engenho que trazia,
E foi-se direito á cama,
Onde o sobrinho dormia,
Degollou-o c'um cutéllo
Mui agudo em demazia.
Depois que o teve morto,
Que com pé nem mão bolia,
Deixou o cutéllo nas mãos
Da innocente que dormia,
E saíu cerrando a porta,{[122]}
Melhor que elle podia.
Era o sangue de tal sorte
Que do menino corria,
Que o corpo da Imperatriz,
Olhos e mãos lhe enchia;
Como o tinha nos braços,
Toda de sangue a cobria;
Entrando-lhe pela bocca,
Acordar logo a fazia.
Vendo na mão o cutéllo,
E o menino que jazia,
Começou com grandes gritos
A publicar o mal que via,
Dizendo; «Acudi depressa
Minha senhora Sophia,
Que mataram vosso filho
Minha doce companhia.»
Ás vozes que ella dava,
A Condessa se erguia,
Que ainda estava na cama,
Porque era antes do dia,
E seu marido com ella
Mui triste em demazia.
Vendo o filho como estava,
Em terra logo caía,
Estava tal como morta,
Que com pé nem mão bolia.
Á coitada da Imperatriz
A alma se lhe saía,
Não podia suspeitar
Quem tanto mal lhe fazia;
E ainda que suspeitasse,
Pouco lh'aproveitaria.
E n'isto chegou o irmão,
Que de prazer não cabia,
Porque tanto se vingara{[123]}
De quem tanto a offendia.
Disse o irmão a Clitaneo,
Chorando, demais seria:—Quem matou o meu sobrinho,
Grande castigo merecia.
Mandae-m'a vós queimar logo,
Sem curar de mais porfia;
Porque ali tem o cutelo
Com que fez tão grã falsia.Estas palavras dizendo,
A Condessa em si volvia,
Levantando-se em pé,
Com o grande pezar que havia,
Viu estar a Imperatriz,
Que finada parecia,
Seu rosto maravilhoso
Feito côr de pedra fria;
Seus olhos fontes de lagrimas
Com o chorar que fazia;
Tinha o coração cerrado,
Falar a ninguem podia,
Ainda que perguntavam,
A ninguém não respondia.
Estava como pasmada
Com estas coisas que via.
A Condessa piedosa,
Com o bem que lhe queria,
Não podia esta senhora
Crer que tal ella faria;
Mas o malvado cunhado
A todos os induzia,
Que lhe dessem logo a morte
Que ella tão bem merecia;
E se matar a mandava,{[124]}
Que elle mesmo a mataria,
Por matar a seu sobrinho,
Que tanto bem lhe queria.
Chorando singularmente
Mostrando que se doía;
E para mais a commover
O cutélo lhe trazia,
Todo coberto de sangue
Do innocente que morria.
A pomba sem fél chorava
A tudo quanto ali via,
Não querendo desculpar-se
Porque crida não seria,
E não por temor da morte,
Que d'ella não se temia;
Mas antes continuamente
A Deos sempre a pedia,
Que quem vive sempre triste
A morte lhe é alegria.
E mais ella, que estava
Com tão sobeja agonia:
Acordou fazer-se muda,
Pois falar-lhe não valia.
A quanto lhe perguntavam
Vendo que não respondia,
Cuidando então a Condessa,
Que culpada não seria,
E que matára seu filho
Alguem que mal lhe queria;
E que ella ora com pezar
De tal sorte emmudecia,
E dizendo a seu marido
Isto que cuidado havia,
Parecia-lhe bem ao Conde
O que a Condessa dizia,
Por não dar tão cruel morte{[125]}
A quem tão bem a servia.Foi determinado então,
Desterral-a sem porfia,
E n'uma Ilha lançal-a,
Que dentro do mar jazia
Quarenta leguas de terra,
Onde gente não havia;
E que ali de fome e sêde
Sua culpa pagaria,
E comida de animaes,
D'isto não escaparia.Como a noite foi chegada
Ás horas que anoitecia,
Manda que seja levada
Por dois homens de valia,
Com ella duas mulheres,
Para ir em companhia,
Para que fosse guardada
Sua honra, como devia.
Em um navio veleiro
A Imperatriz se mettia,
Com lagrimas dos seus olhos
Da terra se despedia.
Chegaram á dita Ilha
Á noite do outro dia,
A Princeza deixam em terra
Com grã choro em demazia.
Tornaram-se com o navio,
Porque assim fazer cumpria.Quando a nobre Imperatriz
Em tal logar só se via,
N'uma Ilha tão deserta,
Onde ninguem não vivia,{[126]}
Senão bravos animaes,
De que ella manjar seria,
Chorando lagrimas tristes,
D'esta maneira dizia:«Ó meu nobre Imperador,
Meu bem e minha alegria,
Que pouca é vossa lembrança
De quem tanto vos queria!
Que pouco tempo durou
Vossa doce companhia?
Sempre cuidei de vos ver
Algum tempo ou algum dia;
Agora por meus peccados
Jámais nunca vos veria.
Deos perdôe a vosso irmão,
E a Virgem santa Maria,
Que eu lhe perdôo aqui
Todo o mal, que me fazia.
Oh senhor, e só meu pae,
Principe e rei de Hungria,
Quão triste vida será
A vossa sem alegria,
Em ouvindo tão má fama,
Que em Roma de mim corria?
Mais sinto vosso pezar,
Que minha grande agonia;
Pois morrerei uma vez
Vós morrereis cada dia.
A vossa deshonra sinto,
Que a morte não a temia,
Porque mais hade temer,
Quem tão sem culpa morria.Estas palavras dizendo,
Mui grande ruido ouvia,
Tão terrivel e espantoso,{[127]}
Que soffrer-se não podia;
Ouvindo isto a senhora
A força lhe fallecia;
Como era delicada
Em terra logo caía.
Estes eram animaes
De muitos que ali havia,
Que tanto que a sentiram,
Com grã pressa em demazia
Correram para a comerem,
Cada um qual mais podia.
Antes que a ella chegassem
Um resplendor apparecia.
Estiveram todos quedos,
Nenhum ali se movia,
Com temor de uma senhora,
De quem o inferno tremia;
Pois vinha com magestade
A Virgem santa Maria,
Para guardar a limpeza
De quem a ella recorria.
Chegando com grande amor,
Onde a Imperatriz jazia,
Disse-lhe d'esta maneira
Com suave melodia:«Minha Porcina, não temas,
Que nenhum mal te viria;
Eu sou a Madre de Deos;
A quem serves cada dia,
Que te venho soccorrer
Em tão extrema agonia;
Não temas nenhum perigo
Princeza nobre e mui pia,
Porque Deos será comtigo
Sempre de noite e de dia,{[128]}
Por muitos bens que fizeste,
De que elle se servia.
D'esta herva colherás,
Que n'este logar nascia,
Sem levar outra mistura
Mais que sómente agua fria,
Na qual cozida será
Quanto te parecia:
E um unguento farás
De grande preço e valia,
Com o qual darás saude
A quem a mister havia,
Em nome do Redemptor,
Rei de toda a monarchia.»E estas palavras dizendo
A Virgem ao céo subia,
Os animaes que ali estavam
Nenhum mais apparecia.
A Imperatriz ficou
Mui alegre em demazia,
E dando a Deos as graças,
E á sagrada Maria,
Colheu d'aquella herva tanta,
Quanta mister lhe fazia.
Acabando de colher,
Um navio á vela via,
Capiando-lhe com a mão,
A gente á terra sahia,
Mui espantados em vêl-a
Perguntaram que queria,
Ou quem a trouxe ali,
Onde ninguem não vivia.
Respondendo a Imperatriz,
D'esta maneira dizia:{[129]}«Que vindo com seu marido
Para Roma sua via,
A grã tormenta do mar
Ali lançado os havia,
E a Nau foi dar á costa
Com a gente que trazia,
E que ella escapara
Sem outra mais companhia:
Quero-vos rogar, irmãos,
Por Deos, e por cortezia,
Me leveis á terra firme,
Que bem vol-o pagaria.Todos foram mui contentes,
Sem curar de mais porfia.
Como foi posta em terra
Com mui grande alegria,
Foi-se direita ao Castello,
Que Alberto se dizia,
Pelo nome do Senhor,
Que sempre n'elle vivia,
O qual tinha sua mulher,
A quem elle muito queria,
Doente de sangue fluxo,
Que grã pena padecia.
Não lhe davam cura os Mestres
Que grande pezar sentia,
A Imperatriz piedosa,
Licença ao marido pedia,
Para curar a mulher,
Que tanto mister havia:
E assim logo entrou dentro
Adonde a mulher jazia,
Untou-lhe todo o seu corpo
Com unguento que trazia,
Pela vontade de Deos{[130]}
A saude recebia.
Levantou-se logo em pé,
O que d'antes não fazia,
Muito rija e muito inteira,
E com grande melhoria,
Clamando por seu marido,
O qual logo lhe acudia:
Disse-lhe como era sã,
Do gram mal que padecia,
Abraçando a Imperatriz,
Tão leda, que não cabia,
Tomou-lhe tão grande amor
Como a razão o pedia.
Muita gente a vinha vêr,
Espantada do que via;
Que fosse sã tão depressa
Quem tanto mal padecia.
Olhava a Imperatriz
A quem tal bem lhe fazia,
Mui espantados de a vêr
Tão formosa em demasia,
Sarar tal enfermidade
Com sua sabedoria.
Elles a isto assistindo,
Um cego apparecia,
E chegando ao Castello,
Que já dito vos havia,
Quiz elle pedir esmola
Assim como antes sohia.
Vendo-o a Imperatriz,
Movida com a obra pia,
Curou-o em nome do Padre,
Que todas as coisas cria,
Do filho e do Espirito Santo,
Que d'entre ambos procedia;
A Santissima Trindade{[131]}
Saude lhe concedia.
Como o cego se viu são,
Com grã prazer que sentia,
Pôz-se ante ella de joelhos,
Dando vozes de alegria.
Levantou-o a Imperatriz,
Que tal coisa não queria,«Irmão, dae graças a Deos,
(Mui humilde lhe dizia),
Que só vos deu a saude
Com a sua sabedoria,
E a infinita bondade,
Que terra e mar enchia.A fama destes milagres,
Pela terra se estendia;
A Clitaneo os contaram,
E a sua mulher Sophia,
Os quaes foram mui alegres
Pelo que agora diria.
Natão aquelle malvado,
Que arriba se dizia,
Que matou a seu sobrinho,
Do que não se arrependia,
Que offendendo tanto aquella
Que nenhum mal merecia,
Depois de ser desterrada
Antes de passar um dia,
Veiu a fazer-se gafo,
Que nenhum remedio havia,
Senão pagar com a morte
No inferno o que devia.
Era tal sua doença,{[132]}
Que tudo aborrecia,
E ninguem chegava a elle
Tão fortemente fedia.
Acordou pois Clitaneo
(Porque muito lhe doía)
De logo o levar comsigo,
Adonde Alberto vivia.
Pois que era seu parente,
Grande amigo em demasia,
Disse tambem a mulher,
Que com elle ir queria.
Metteram-no em umas andas
Aonde só ir podia.
Partiram todos de casa
Quando a luz apparecia,
Chegaram ao dito Castello
Á meia noite seria,
No qual o parente Alberto
Mui alegre os recebia.
Ao tempo que ali chegaram,
A Imperatriz dormia,
E não a poderam ver,
Até que foi bem de dia;
Como foi pela manhã,
A recebel-o saía,
Com aquelle acatamento,
Que a humildade devia;
Todos logo a receberam
Com mui grande cortezia,
E quiz nosso Senhor Deos
Que ninguem a conhecia,
O Conde e a Condessa,
Nem a sua companhia.
Todos eram espantados
Do primor, que n'ella havia,
Contou Clitaneo então{[133]}
A causa que os trazia,
Pela doença do irmão,
Que tal tormento sentia.
Dizendo:—Pois Deos lhe dera
Tal graça e tal valia,
Que lh'o quizesse curar
Como aos outros fazia,
Que se por paga o houvesse
Quanto quizesse daria.Respondeu a Imperatriz
Mui contente do que via,
Para se manifestar
Como sem culpa vivia;
Que fosse onde elle estava,
Porque ella ver o queria.
Foram com ella as senhoras
Por lhes fazer companhia,
Tambem todos os senhores,
Para ver o que fazia.
Chegando onde elle estava
Tão fortemente fedia,
Que não podia soffrel-o
Toda a gente que ali ía,
A Imperatriz piedosa,
Com a humildade que havia,
Chegando á sua cama,
D'esta sorte lhe dizia:«Meu irmão, salve-o Deos,
Que todas as coisas cria;
E vos salve vossa alma,
E ao corpo dê melhoria.
Vós, irmão, quereis ser são?
(Disse-lhe elle que queria.)
Haveis-vos de confessar
Sem cuidar de mais porfia,{[134]}
Diante d'estes senhores,
Porque assim fazer cumpria:
E se vos não confessaes,
Saude vos não daria
Christo nosso eterno Deos,
Porque d'isto se servia,
Que digaes publicamente
O que a consciencia sentia.Confessou-se logo á hora
Do tudo quanto sabia,
Mas o que mais relevava,
Calava, que não dizia.
Disse-lhe a Imperatriz,
Como quem o entendia:«Se tudo não confessaes,
Eu curar-vos não podia,
Porque um grave peccado
Que a Deos muito offendia,
Convem que satisfaçaes
A honra que se perdia
D'aquella, que vós sabeis
Quão innocente vivia.Como isto ouviu Natão,
Mui fortemente gemia,
Dava tão grandes suspiros
Que a alma se lhe sahia,
Como quem do que fizera
Muito se arrependia.
Disse-lhe então o irmão,
Vendo que tanto temia:—Como tão grande peccado,
Tendes vós na fantazia,{[135]}
Que o não quereis confessar
Pois que tanto vos cumpria,
Por haverdes a saude
De quem dar-vol-a podia?Respondeu logo Natão:
—Senhor, não tenho ousadia,
Se vós me não perdoaes,
E vossa mulher Sophia.Disse elle, era contente,
E ella, que lhe aprazia.
Ouvindo isto Natão,
Pois tal fazer não podia,
Chorando lagrimas tristes
Com mui grave agonia
Contou logo todo o caso,
De sua grande falsia:
Como matára o sobrinho
Na camara onde dormia,
Porque ella não quizera,
Fazer o que elle pedia;
E de como a commettera,
E o que ella respondia;
Contou tudo sem deixar
Nada, que assim lhe cumpria.Como isto ouviu a Condessa
Em terra se amortecia,
E seu marido Clitaneo
O mesmo tambem fazia.
Depois que tornou em si
A Condessa assim dizia:—«Oh malvado! quem cuidara{[136]}
Tua grande hypocrisia,
Porque te déra o castigo,
Que tal traição merecia!
A amiga maior perdi
Que ninguem nunca perdia,
Minha fiel companheira,
Que a mim tanto me queria.
Não me peza de meu filho,
Em que a carne o requeria,
Porque como pequenino
Mui pouca mingua fazia;
Mas a vós, minha senhora.
Que eu matei com ousadia,
Tenho tão grande pezar,
Que a alma se me saía;
Eu não posso perdoar
Aquillo que não sabia;
E se eu lhe dei perdão,
Em muito me arrependia,
Nem meu senhor e marido
Perdoar-lhe tal devia;
Porque, sendo seu irmão,
Lhe fez tão grande falsia.A prudente Imperatriz
Muitas coisas lhe dizia,
Porém nada aproveitava,
Que tanto a aborrecia.
Até que esta senhora
A todos se descobria,
Dizendo que ella era
Por quem tanto se doía.
Ouvindo isto a Condessa,
Pelo que em ella via
No resplandor do seu rosto,
E na fala a conhecia,{[137]}
Porque Deos lhe abriu os olhos
De sua sabedoria:
Foi-se c'os braços abertos,
Que parecia sandia,
Aos seus da Imperatriz,
Que outra vez se esmorecia,
Porque tambem isto faz
A mui sobeja alegria.
E seu marido Clitaneo
De contente não cabia,
Perdoára a seu irmão,
Porque ella lh'o pedia;
E logo quiz dar saude
A quem lh'a não merecia,
Untando-lhe todo o corpo,
E as chagas que n'elle havia,
E tambem a sua bocca
D'onde máo cheiro sahia.
Em nome de Jesus Christo,
Saude lhe concedia,
Mais são, e mais esforçado
Do que antes ser podia.
Como isto viu Natão,
Mui contente em demazia,
Foi-se a fazer penitencia,
Onde mais não parecia.
Toda a gente que ali estava,
Tanta honra lhe fazia;
Como se todos souberam
Sua grande senhoria.
Nunca d'ella se apartava
A sua amiga Sophia,
Tambem a mulher de Alberto,
Que em extremo lhe queria.
Vinham de todas as partes
Ali enfermos cada dia,{[138]}
Aos quaes ella curava,
Sem nenhuma fantazia,
E a todos dava saude,
Porque Deos o permittia.Como a fama era ligeira,
Por todo o mundo corria,
Disse-se ao Imperador
Que em Roma residia,
O qual foi mui contente,
Quando taes cousas ouvia,
Porque tinha seu irmão,
De que acima dito havia;
Doente em cama, mui gafo,
Que já viver não podia,
Mui peior do que Natão,
Porque em taes casas fedia;
Sua carne tão malvada
De bichos já se comia;
Ninguem o podia ver,
Porque logo adoecia,
Que tanto era o fedor,
Que de seu corpo saía.
Como lhe certificassem
Ser de mui grande valia,
Um Duque manda por ella,
De quem muito se confia,
Dizendo que lh'a trouxesse
Antes do terceiro dia,
Porque não viesse a morte
A quem tanto lhe doía.
Vendo o Duque seu mandado
A grã pressa se partia,
Chegando ao dito Castello
Clitaneo o conhecia:
Logo o foi a receber{[139]}
Com mui grande cortezia,
Fazendo-lhe aquella honra,
Que tal senhor merecia.
Como tão pouca detença
O Duque fazer cumpria,
Perguntou pela senhora,
Que tantas coisas fazia.
Como lhe fosse mostrada,
Grande espanto recebia,
De ver sua formosura
Mais que todas quanto via,
Lembrando-lhe a havia visto,
Mas aonde lhe esquecia,
Muito fóra de cuidar,
Que a Imperatriz seria.
A mui nobre Imperatriz,
Que mui bem o conhecia,
Seu rosto maravilhoso
D'elle sempre escondia,
De que causa se assombram
Porque a todos se encobria.
O Duque sem mais deter-se,
Sua vinda lhe dizia,
Contando-lhe como Albano
Cruel pena padecia;
E que o Imperador
Lhe rogava e lhe pedia
Que logo o fosse curar,
Pois tanto mister o havia,
E que se o désse são,
Que elle lhe promettia,
Fazel-a tão grã senhora,
Como ella bem veria.
Foi a Imperatriz contente,
Sem cuidar de mais porfia,
Determinou ir com ella{[140]}
A sua amada Sophia;
Tambem a mulher de Albano
Disse que não ficaria,
Assim que ambos os maridos
Lhe fizeram companhia,
Porque tambem desejavam
De ir a Roma em romaria.
Partiram com tanta pressa,
Que chegando ao outro dia
Á grã cidade de Roma,
Quando o sol claro saía,
Era tanta pelas ruas
A gente que a seguia,
Que quando chegaram ao paço
Caber n'elle não podia.
O Imperador Lodonio
Tão alegre a recebia,
Que todos se assombravam
De sua grande alegria.
Foi ella beijar-lhe a mão,
Mas elle o não consentia;
Ia c'o rosto coberto,
Que pouco lhe apparecia.
Como ella se viu diante
De quem mais que a si queria,
Não podia ter-se em pé,
Do grão prazer, que sentia.
O Imperador fez honra
A todos quantos trazia,
Maiormente a Clitaneo,
Por sua grande valia;
Sentou-os todos á mesa,
Com todos juntos comia.
Em quanto durou o comer,
Os seus olhos não desvia
De sua amada mulher,{[141]}
Que elle reconhecia;
Mas o coração lhe dava
Sobresaltos de alegria.
A prudente Imperatriz
O mesmo tambem fazia.
Acabando de comer
A seu marido dizia:«Clarissimo Imperador,
Rei de toda a monarchia,
A quem devem sujeição
Todos os que a terra cria;
Eu, como serva menor
De quantos no mundo havia,
Conhecendo o grão pesar
Que tendes em demasia,
Pela doença do irmão,
Que tanto mal padecia,
Venho aqui para o curar
Como quem em Deos confia,
Como elle lhe dará saude
Por sua clemencia pia;
Portanto eu quero vel-o
Se o Senhor m'o concedia.O benigno Imperador
Muito lh'o agradecia;
Foram postos muitos cheiros
Na cama d'onde dormia,
Porque de outra maneira
Ninguem lá entrar queria.
Foram todos juntamente,
Que ninguem ficar queria,
Á camara onde estava
Quem tanto mal padecia.
Tinha tão grandes tormentos{[142]}
Que a alma se lhe saía.
A humilde Imperatriz,
Por fazer o que devia,
A rogos do seu irmão,
A quem tanto amor havia,
Chegando-se á sua cama,
Salvando-o como sohia,
A fazer que o curava,
Como quem seu mal sentia:
Albano lhe torna graças,
Muito alegre em demasia,
Disse-lhe a Imperatriz
Com mui grande cortezia;«Convém de se confessar
Logo vossa senhoria,
Diante do Imperador,
E esta nobre companhia,
De todos os seus peccados,
Que contra Deos commettia,
Se um só ficar por dizer,
Saral-o não me atrevia.Respondeu logo Albano,
Como quem já se temia:
Que elle os seus peccados
Ao Sacerdote os diria,
E que de outra maneira
Confessar-se não podia.«Será logo por demais,
(A Imperatriz dizia,)
Minha vinda a este logar,
Pois nada aproveitaria.{[143]}
O Imperador agastado,
A seu irmão respondia:—Quem agora vos curasse,
Tam grã milagre fazia,
Como resurgir um morto,
Que já come a terra fria;
E pois por tal vos contamos,
Porque vos falta ousadia
De dizer vossos peccados
Ante esta tal companhia?
Dizei-nos, por Deos, irmão,
Não cuideis de mais porfia,
Se vós não confessaes,
Grã pezar receberia.Disse-lhe então Albano,
Que pois isto elle queria,
Que logo lhe perdoasse
Um grã mal, que feito havia;
O qual era de tal sorte
Que perdão não merecia,
E se lhe não perdoava,
Que não se confessaria.
Respondeu-lhe o Imperador
Que mil lhe perdoaria,
E pois era seu irmão,
Porque d'elle se temia?
Respondeu então Albano,
Com grã pezar, que sentia:==Bem sei que sereis lembrado
D'aquelle tam triste dia,
Quando d'aqui vós partistes
Para ir á romaria?
Por Governador deixastes,{[144]}
Como a razão pedia,
A mim e á Imperatriz,
Que eu matei com grã falsia.Contou-lhe todo o successo,
Porque nada lhe mentia.
Ouvindo o Imperador
Bem vereis o que diria:—Piedoso Jesus Christo,
Eterna sabedoria,
Tam altos são teus mysterios,
Que ninguem os entendia:
Quem cuidara que um irmão
Tão grã traição me faria?
Eu fui mui pouco discreto,
Pois fiz o que não devia,
Sem primeiro me informar
De quem o caso sabia.
Oh minha amada mulher,
Claro sol, e luz do dia,
Minha saborosa lembrança,
Espelho em que me via!
Como partiste queixosa
De uma tão penosa via,
De mim mais, que do cunhado,
Porque eu o merecia
Em vos matar tão sem culpa,
Sem olhar o que fazia.
Porque devera olhar
O que por razão seria,
Que quem tem fiel amor,
Nunca mudar se podia.
Pelejem os elementos,
E abra-se a terra fria,
Para que consumma em si{[145]}
Quem tanto a Deos offendia?
Escureça o sol, e a lua
Que todo o mundo allumia,
Porque ajudem a meu pranto,
Como a razão o pedia.Estas palavras dizendo,
Com a dôr se amortecia,
Era por morto julgado
Da gente que assim o via.
Vem logo todos os Mestres,
Cada um como podia,
Os quaes sabendo a verdade,
Com muita grande agonia,
Tantas cousas lhe fizeram
Com sua sabedoria,
Até que em si o tornaram,
Como de antes sohia.
Não quiz mais a Imperatriz
Encobrir o que sentia,
Descobriu seu lindo rosto,
E a seu marido dizia:«Oh meu bem tam desejado,
Minha doce companhia,
Eu sou a que com razão
Devo de ter alegria;
Pois Deos me deixou ver-vos
Como sempre lhe pedia:
Se agora viesse a morte
Mui leda a receberia;
Eu sou a vossa mulher
Filha do grão Rei de Hungria,
Que vós mandaste matar,
Pelo que não merecia:
Quiz-me guardar Jesus Christo{[146]}
E a Virgem santa Maria,
Por guardar fidelidade
A quem tanto me queria.Poz-se ante d'elle de joelhos
Ainda que o não merecia,
Por força lhe beija as mãos,
Mas elle o não consentia;
Antes quando a conheceu
Tão grã prazer recebia,
Que abraçando-a docemente
Todo o sentido perdia.
Não ha ninguem que escreva
O que cada um dizia,
Nem papel onde caber
O que escrever se podia.
Em extremo se assombraram
Clitaneo, e mais Sophia,
Vendo a Imperatriz
De tão grande Senhoria,
Aquella que em sua casa,
Como escrava os servia;
Que mandaram desterrar
Por culpa que não havia,
Temendo-se que agora
Algum grã mal lhes viria,
As mãos postas, de joelhos,
Mui tristes em demazia,
Chorando pedem perdão,
Que logo lh'o concedia,
Fazendo-os levantar
Com mui grande cortezia;
A ambos os dois abraçou,
Chorando com alegria,
Contando ao Imperador
O muito que lhes devia.{[147]}
Que se por elles não fôra,
Sua honra se perdia;
E do grande agasalhado,
Que cada um lhe fazia
E que a vida, e a honra
A elles ambos devia.O Imperador mui ledo,
Quando estas cousas ouvia,
A Deos dava muitas graças,
E á Virgem sancta Maria,
Promettendo a Clitaneo
Que elle lh'o pagaria,
Com fazel-o grã o Senhor
De todos quantos havia.
Tomou a Imperatriz
A sua amada Sophia,
Por sua camareira mór,
Pelo bem que lhe queria.
Tudo quanto ella mandava
No imperio se fazia;
Determinou o Imperador
Por fazer o que devia,
Queimar a seu irmão vivo
Doente como jazia,
Dizendo:—que mais merece
Quem tal traição commettia?
A Imperatriz piedosa
De joelhos lhe pedia,
Lhe quisesse dar a vida.
Ainda que não merecia,
Dizendo que bem bastava
A pena que padecia.
Outorgou o Imperador,
Porque mui chorosa a via,
Porque a sua nobreza,{[148]}
A muito mais se estendia.
Levantou-se d'onde estava
A que n'elle se veria,
E se foi deitar á cama
Em que morrendo vivia.
E untando-o com ungento
A saude recebia:
Ficou muito forte e disposto,
O qual d'antes não fazia;
Conheceu o Imperador
Sua virtude e valia,
Que era ainda muito mais
Do que elle cuidar podia.
Seu irmão, por nome Albano,
Que muito se arrependia,
Fez mui grande penitencia,
Porque bem se arrependia.
O Imperador Lodonio,
Mandou fazer cada dia
Muitas grandes procissões
A Deos e sancta Maria,
Dando-lhe infinitas graças
Pelos bens que lhe fazia.
Fizeram por toda Roma
Muitas festas de alegria,
Os pobres se alegravam,
E toda a gente dizia:
Viva a nossa Imperatriz
Que tanto bem nos fazia;
Iam-na todos a ver,
Como vem á romaria,
A todos benignamente
A Senhora recebia,
Fazendo-lhes mais esmolas,
Do que ella d'antes fazia.
O Imperador Lodonio{[149]}
Tambem com vontade pia
Fazia mui grandes bens,
A todos grã bem fazia:
Foram bemaventurados,
Segundo a historia dizia.