Não vivaes em tal engano,
Que tambem foram caudilhos
O gram Torcato, o Trajano,
E quizeram com gram dano
Ambos justiçar seus filhos.
Pois que menos farei eu
Tendo tão grande estado?
Quem é com rasão culpado
Em maior caso que o seu?
E por tanto eu vos rogo
Que não tomeis tal pesar,
Porque com vos enojar
Dá-se gram tristeza ao povo.

Imperatriz:

Eu cumprirei seu mandado,
Porque vejo que é rasão;
Mas sempre meu coração
Terá tristeza e cuidado
E grande tribulação.

(Aqui se vae a Imperatriz, e vem o Marquez de Mantua vestido de dó)

Marquez:

Bem parece, alto senhor,
Que vos fez Deos sem segundo,
E de todos superior,
Dos maiores o melhor,
Rei e monarcha do mundo.{[102]}
Porque vós, senhor, sois tal,
Que com rasão e verdade
Sustentaes a christandade
Em justiça universal,
A qual para salvação
Vos é muito necessaria,
Porque convem ao christão
Que use mais de rasão,
Que da affeição voluntaria:
Como faz vossa grandeza
Com seu filho successor
Assim que digo, senhor,
Que estima mais a nobreza
Que amisade, nem favor.

Imperador:

Não curemos de falar
Em cousa tão conhecida;
Porque n'esta breve vida
Havemos de procurar
Pela eterna e comprida.
Para sentir gram pesar,
Vós tendes rasão infinda,
E tambem de vos vingar,
Pois foi justa vossa vinda.
Bem vimos vossa embaixada,
E a causa d'ella proposta
Foi de nós mui bem olhada,
E não menos foi mandada
Mui convencivel reposta:
E vimos vossa tenção,
E soubemos vosso voto,
E vemos tendes rasão,
Pela grande informação
Do principe Dom Carloto.
E vimos a confissão
De Dom Carloto tambem,{[103]}
E soubemos a traição
Como na carta contém,
Que mandava a Dom Roldão.
De tudo certificado,
Eu condemno a Dom Carloto
Tudo o que hei mandado.

(Vem um Pagem da Imperatriz)

Pagem: