Piloto da Nau ligeira,
Que corre por terra e mar!
A maré é de rosas,
O porto seguro,
As velas mandae tomar.
No meio do coração
Vos darêmos gasalhado,
Que por bem aventurado
Se terá com tal patrão.{[157]}
Tendes vara de codão
Pera todos cativar.
A maré é de rosas,
O porto seguro, etc.

Enchestes o Oriente
De luz e de piedade;
Visitae esta cidade
Qu'é senhora d'essa gente,
E vereis quão diligente,
Se mostr'em vos festejar.
A maré é de rosas,
O porto seguro, etc.

De drogas celestiaes
Vindes muito carregado,
Vede que sois obrigado
Repartir c'os naturaes:
Amor quero, e nada mais
Por ser pedra de bazar.
A maré é de rosas,
O porto seguro
As velas mandai tomar.

——

Oh Nau que pera a viagem,
Marinheiros não temais,
Pois tal Piloto levaes,
Poderá com segurança
Quem tal Piloto levar,
Ou pollo mar com bonança
Ou por terra navegar.
Espertae a confiança
Que dos céos vereis o caes,
Pois tal Piloto levaes.{[158]}
Desferi todas as velas,
E botae de foz em fóra,
Pera que possam enchel-as
Ventos galernos emb'ora.
Alegres todos a ellas,
Tempestades não temaes,
Pois tal Piloto levaes.
Assás covarde será
Quem receiar a viagem,
Pois Xavier governará
Que é Piloto de vantagem.
Elle franquêa a passagem,
Iça, iça, mais e mais,
Pois tal Piloto levaes.

——

Xavier ao leme,
Anjos a cantar,
Larguemos a vela
Pera navegar.
É sabio o Patrão
Que assi manda a via,
Vêm ao Galeão
Todos á porfia.
Ledos e contentes
Pera embarcar,
E tudo está lestes
Pera se navegar.
Galeão fermoso
E bem artelhado,
Em tudo lustroso,
Em partes dourado.
Quem póde temer,
Ou arreceiar?{[159]}
Já se faz á vela
Pera navegar.
Pois não teme guerra
Na terra ou no mar;
Por mar e por terra
Pode caminhar.
Vae esta Nau bella
Ao Céo demandar,
Larga, larga a vela
Pera bolinar.
Dourado pharol,
Dourada bandeira,
Francisco é o sol,
Norte de carreira.
É Nau de alto bordo,
Não póde remar,
Tende logo acordo
Pera velejar.
Xavier ao leme
Anjos a cantar,
Larguemos a vela,
Pera navegar.

Relaçam das Festas que a religiam da Companhia de Jesus fez em a Cidade de Lisboa, na beatificação do Beato S. Francisco Xavier, segundo Padroeiro da mesma Companhia, e Primeiro apostolo dos reinos de Japão, em Dezembro de 1620, recolhidas pelo Padre Diogo Marques Salgueiro, etc. Lisboa, por João Rodrigues, 1621.


Cantiga de Abel

Doloroso gado
De tanto primor,
Dôa-te o fado
Do triste pastor.{[160]}
Lembrae-vos, cordeiros,
Da minha tristura,
Ovelhas, carneiros
Que pastaes verdura.
Abel sem ventura
De vós apartado,
Meu gado amado,
De mim com amor,
Dôa-te o fado
Do triste pastor.
Doei-vos de quem
De vós se doía;
Lembrae-vos tambem
Minha companhia,
De quem ser sohia
Sou outro tornado,
Ficaes só deixado.
Sem ter guardador
Doei-vos do fado
Do triste pastor.

Auto do Dia do juizo;—Folha volante de 1659.