FRANCISCO LOPES

Romance de Santo Antonio e a Princeza

Estava el-rei de Leão
Casado com uma princeza
De portugueza nação,
Devota, por portugueza,
De Antonio, santo varão.
Tinha morta esta rainha
Uma filha já mulher;{[161]}
A qual não pode soffrer
Que enterrem, como convinha,
Pelo muito que lhe quer.
El-rei e toda a mais corte
Para a sepultura se ajunta,
Mas era o amor tão forte,
Que, tendo a filha defunta,
Não crê a rainha a morte.
Trez dias chegou a estar
A mãe em continuo pranto
E a filha sem sepultar,
Com grande fé no seu santo,
Que lh'a hade ressuscitar.
Erguendo o rosto choroso
Ao céo com fé verdadeira
Ao seu Santo glorioso,
Tão santo e tão poderoso,
Orava d'esta maneira:

«Já que sois universal
Nos milagres que fazeis
Por todo o mundo em geral,
O remedio não negueis
A esta vossa natural.
E se é justo que sintaes
Esta ausencia tão esquiva,
Porque a vida lhe negaes,
Dae-me minha filha viva,
Pois tantos ressuscitaes.»

Inda a rainha não tinha
Dita a sua oração santa,
Quando Deos ouve a rainha,
E Antonio põe a mésinha,
Com que a moça se levanta.
Porém a infanta amada,{[162]}
Que tornou cá a esta vida
Lá da angelica morada,
Anojada e offendida
Contra a mãe responde irada:

—Perdôe-vos Deos, senhora,
Que me tirastes dos céos,
Aonde eu estava agora,
Porque santo Antonio fôra
O que isto pedira a Deos.
E Deos como o ama tanto,
Porque tanto a Deos amou,
Por aplacar vosso pranto,
D'entre as virgens me tirou
Do côro celeste e santo.
Porém a bondade immensa
Que tudo move e governa,
Quinze dias só dispensa
Que esteja em vossa presença
E que torne á vida eterna.—

Como o divino recado
Deu a ditosa menina
Do que Deos tinha ordenado,
Sendo este tempo acabado
Subiu á patria divina.

Santo Antonio, Milagre XXXVI.—Vide Rom. Ger. n.º 44; Rom. de Aravias, n.º 72. Legitima assimilação popular, de 1620.{[163]}


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