Bangué, que será de ti?

glosada por Gregorio de Matos: essa mesma sabemos ser antiga, mas não nos foi possivel alcançal-a completa. Não deixaremos de commemorar a do Vitú, que crêmos ter o sabor do primeiro seculo da colonisação, o que parece comprovar-se com ser em todas as provincias do Brazil tão conhecida. Diz assim:

«Vem cá, Vitú! Vem cá, Vitú!
—Não vou lá, não vou lá, não vou lá—:{[xxvj]}
«Que é d'elle o teu camarada?
—Agua do monte o levou.
«Não foi agua, não foi nada,
Foi cachaça que o matou.

Igualmente antiga nos parece esta modinha paulista:

Mandei fazer um balaio
Para botar algodão.[28]

Os livros populares da Allemanha foram publicados no bello trabalho de Göerres (Volksbucher.) Entre nós nunca se recolheram as formulas symbolicas das jurandas, mas é certo que existiam, como se descobre pelo regimento dos officios na procissão de Corpus. (Extrahil-o de J. P. Ribeiro.) Os livros populares portuguezes são quasi todos de origem estrangeira; o Bertholdo e Bertholdino, de origem italiana, são para o Meio Dia o mesmo que o Eulenspiegel para os camponios allemães. A Reforma restringiu a litteratura popular da Allemanha; no Meio Dia baniu a poesia, amaldiçoôu a cantiga do pobre. Basta abrirmos as Constituições dos Bispados, o Index do Santo Officio, para vêrmos como o catholicismo se debateu em tudo contra o receio da emancipação canonica. A novella de Roberto do Diabo acha-se condemnada no Index Expurgatorio de 1580, bem como a maior parte das comedias dos auctores mais populares, como Gil Vicente e Balthazar Dias, e assim os romances que andavam na tradição da Peninsula, como o do Mouro Calaynos e todos os tirados da letra da Escriptura. O odio do catholicismo ao movimento espontaneo da Reforma creou a perseguição dos Lollards, e tornou estes povos da Peninsula{[xxvij]} sombrios, melancholicos, desconfiados; matou-lhes a poesia, embruteceu-os. Os cantos populares da Peninsula, que o povo repete hoje fragmentados, são todos dos fins do seculo XV. Que seiva de genio n'esse tempo! que differença de sentimento! Comparem-se os romances de Fonte frida e Rosa fresca, de Mora Moraina com as contrafações do gosto popular das eclogas e mesmo dos romances do seculo XVII!

A arte é como a consciencia pura; uma leve falsidade a perturba, e a obriga a trahir-se. O Concilio de Trento imprimiu unidade á Egreja, mas tirou-lhe a espontaneidade do sentimento, que a tinha tornado universal. Christo ficou desthronado pelo Papa.

Os livros populares portuguezes de folha volante, que se vendiam pelas feiras, na arqueta do belfurinheiro, ou no barbante do cego, foram tambem condemnados pelos meticulosos da censura inquisitorial: «Os vendedores de Autos e Cartilhas, não vendam, nem comprem para vender, outros livros sem primeiro os mostrarem ao Revedor: porque algumas pessoas escondidamente tem alguns livros, que elles compram e vendem, sem saber o que ha nos taes livros, e se seguem d'isso inconvenientes: e ha enformação, que nas taes tendas, se acham livros suspectos e perjudiciaes. E os sollicitadores do Santo Officio visitarão algumas vezes os ditos logares e farão saber ao Revedor, os livros que ali se vendem. O mesmo se fará dos livros que se vendem nas feiras[29]

Quando Garcia de Resende, na Miscellanea, fala das varias dansas que se usaram nas cortes de D.{[xxviij]} Affonso V e D. João II, é já como de uma cousa que passára de moda, como reprovada:

Vimos grandes judarias,
Judeos, guinolas e touras,
tambem mouras, mourarias,
seus bailes, galantarias
de muitas fermozas mouras
sempre nas festas reaes
s'eram os dias principaes
festa de mouros avia;
tambem festa se fazia
que non podia ser mais.

Vimos costume bem cham
nos reys ter esta maneira
corpo de Deos, Sam Joam
aver canas, procissam,
aos domingos carreira,
cavalgar pela cidade
com muyta solennidade,
ver correr, saltar, luctar,
dançar, caçar, montear
em seus tempos e hidade.