Jorge Ferreira de Vasconcellos, no Memorial dos Cavalleiros da Tavola Redonda, (p. 348) descrevendo umas festas do tempo de Dom João III, diz: «dentro vinha assentada a Deosa Diana em meio de duas ninfas, uma que tangia uma harpa, e outra um arrabilete, e a deosa cantando uma estancia da primeira ecloga de Garcilasso que diz:
Por ti el silencio de la selva umbrosa.»
O gosto da Renascença classica, em quanto entre nós não baniu o romance popular, serviu-se d'essa forma para popularisar as tradições da antiguidade grega e romana. Jorge Ferreira é o unico que nos appresenta alguns romances da historia de Troya; são elles tão parecidos com os do Cancionero de Anvers, que suppômos até serem as suas versões em parte aproveitadas da tradição oral, como foram os colligidos por Esteban de Najera. O romance ao casto Scipião sobre a morte de Sophonisba tambem foi romanceado por Juan de la Cueva no Coro Febeo; porém a lição de Jorge Ferreira é mais resumida, mais filha da tradição; o mesmo se póde dizer do romance da Batalha de Pharsalia do mesmo, comparado com os de Lobo Lasso de la Vega, no seu Romancero y Tragedias.
Como poderia um poeta classico considerar a poesia popular senão com desprezo? Soropita, no seu Prognostico do anno de 1595, descreve as festas das Janeiras e Reis de um modo grotesco: «na noute da vespera de janeiro e dos Reis, andarão cantando e tangendo pelas ruas, sem se temerem{[xxiv]} da justiça, por serem noites privilegiadas em que não correm o sino.»—Segundo elle os cantores nocturnos são «villões ruins que essas noites vos perseguem; porque, quando vos não percataes, achael-os á porta com seu pandeirinho eivado já do serão, e com mais sarro na garganta do que as cubas dos frades loios; e com tudo isso, vos põem em estado que forçosamente lhe haveis de louvar aquella musica de agua pé com chocalhada, que toda a noute vos zune nos ouvidos como bizouro, e sobre tudo isto haveis de lhe offertar os vossos quatro vintens; e quando lh'os entregues, a candeia vos descobre o feitio dos ditos musicos: um mocho com sombreiro, com mais chocas que um corredor de folha, e lança-vos baforada de dentro d'aquellas fornalhas, que parece que toda a vida estiveram de vinho e alhos, como entrecosto de marrã.» (p. 79) Este trecho lança abundante luz sobre essas festas domesticas dos nossos maiores.
A reacção catholica contra o movimento da Reforma atacou barbaramente os cantos populares. Em Portugal não só as Constituições dos Bispados o provam, senão até o popular Gil Vicente, que se queixa da grande tristeza em que caíra a alma do pobre povo:
Em Portugal vi eu já
Em cada casa pandeiro,
E gaita em cada palheiro;
E de vinte annos a cá
Não vi gaita, nem gaiteiro.
A cada porta um terreiro,
Cada aldeia dez folias.
Cada casa atabaqueiro;
E agora Jeremias
He nosso tamborileiro.
Isto descobre Gil Vicente na tragi-comedia do Triumpho do Inverno, representada em Lisboa no{[xxv]} parto da rainha Dona Catherina. Gil Vicente foi o primeiro que sentiu o tremendo cataclysmo que ameaçava este povo; elle não se cansou de clamar em todos os seus Autos, de desmascarar o inimigo. Mas os presentimentos d'aquella grande alma não tiveram mais valor do que as facecias de um jogral.
A influencia jesuitica fez-se notar pela proscripção da poesia popular no Brazil. O padre José Anchieta compoz o Auto da Pregação Universal, para expungir do templo os Autos populares.[26]
Na vida do padre Simão de Vasconcellos, diz o padre Anchieta, falando das crianças selvagens que educavam: «Espalhavam-se á noite pelas casas de seus parentes a cantar as cantigas pias de José (Anchieta) em propria lingua, contrapostas ás que elles costumavam cantar vãs e gentilicas.»[27]
Da poesia popular do Brazil nos seculos XVI e XVII, diz Varnhagem: «Das modinhas poucas conhecemos; e essas insignificantes e de epoca incerta, a não ser a bahiana: