Neste começo do anno, em tão bom dia
Tão claro, porque não faleça nada,
Me foi da vossa parte appresentada
Vossa composição boa á porfia.

N'este mesmo soneto refere-se Sá de Miranda ás difficuldades que teve a eschola italiana ao introduzir-se em Portugal:

De espanto me enche quanto ali via,
E mais em parte cá tão desviada
Sempre até agora da direita estrada
De Clio, de Caliope e Thalia.

Sá de Miranda tambem louva Jorge de Monte-Mayor, introductor da novella pastoril italiana na Peninsula. A lucta entre os poetas velhos, como chamavam aos partidarios da redondilha antiga, e{[xxii]} os da eschola italiana, conhece-se que foi renhida pelas frequentes allusões dos quinhentistas; não ha porém documentos que esclareçam a historia d'essas luctas tão vulgares no dominio da litteratura. A maledicencia não era poupada de parte a parte:

Em tal sasão, tempo tão avaro
De louvores alheios, em tal dano
Dos engenhos, que se acham sem amparo.[23]

Antonio Ferreira dá a entender estas mesmas guerras, em uma Carta a Sá de Miranda:

Já contra «a tyrannia do costume»
Que té qui, como escravos em cadeias
Os tinha, subir tentam ao alto cume
Do teu sagrado monte, d'onde as veias
Desse licor riquissimas assiste
De que já correm mil ribeiras cheias.
...................................
Mas oh tempos crueis! (sôe meu grito
Por todo o mundo) mas, ah tempos duros,
Em que não sôa bem o bom escripto.[24]

N'esta outra Carta de Ferreira a Antonio de Sá de Menezes, descobre a malevolencia que havia contra a eschola italiana:

Já esta nossa terra engenhos tem
Das musas bem criados, «mas mal criados»
Que sempre o mal anda abatendo o bem.[25]

A final triumphou a eschola italiana, e com ella começou a decadencia da poesia nacional dos dois povos da Peninsula. Os romances populares caíram em um immenso desprezo; nos escriptores de quinhentos encontrámos bastantes allusoes a{[xxiij]} romances tradicionaes, mas citam-nos de passagem, como quem se envergonha de uma cousa baixa.