A civilização dos Assyrios e Babylonios foi uma das mais notaveis, não só da Antiguidade Oriental, mas tambem de toda a Historia Antiga. Ao passo que vão progredindo os estudos historicos e que se vão descobrindo novos monumentos, vai-se pondo cada vez mais em relevo a influencia que aquelles povos exerceram no Oriente e na cultura intellectual das populações da Grecia. A civilização dos Assyrios e a dos Babylonios apresentam-se-nos como uma só, quer isso fosse devido á commum origem dos dois povos, quer á mutua transmissão de conhecimentos e de usos nos tempos historicos, podendo dizer-se que havia então homogeneidade de meio. Apenas differem em pontos, a que os differentes caracteres dos dois povos imprimiam feições especiaes. Os Assyrios, por exemplo, eram sobretudo guerreiros, corajosos e intrepidos, incançaveis nos exercicios mais violentos e conquistadores insaciaveis; os Babylonios, comquanto tambem fossem bons soldados, tinham menos tendencia para a guerra de conquista, o que em parte dá a razão de ter sido tão pouco duradoiro o seu dominio. Os Babylonios representaram um papel muito importante no commercio da Asia. Na industria, elles e os Assyrios adeantaram-se consideravelmente, chegando a notavel perfeição, sobretudo no que tocava a tecidos preciosos, a ourivesaria, a loiça, a esmaltes, etc. De esculptura deixaram os Assyrios obras de alto valor e merecimento artistico, sempre admiradas e tidas como objectos de grande estimação.
[CAPITULO IV
OS PHENICIOS]
Os Phenicios foram um dos povos mais notaveis da Antiguidade Oriental; mas, apezar d'isso, escasseiam bastante os documentos historicos directos da sua civilização. A Phenica comprehendia apenas uma estreita faixa de terreno, entre as faldas do monte Libano e o mar Mediterraneo. N'aquella apertada{27} zona teve a sua evolução um dos movimentos civilizadores da Antiguidade, cuja influencia se sente de modo consideravel na Historia Antiga e chega ainda até nós, por meio do alphabeto, pelos Phenicios inventado e propagado.
Os Phenicios são geralmente considerados como um povo pertencente á raça chamitica, tendo grandes affinidades com as tribus cananéas que, uns vinte e quatro seculos antes de Christo, se estabeleceram, disseminando-se, nos valles do Jordão e do Oronte, e nas margens do Mediterraneo. Comtudo elles falavam uma lingua da familia dos semitas, muito similhante á dos Hebreus,—e as suas relações com os povos semiticos da Palestina foram sempre muito estreitas.
Em nenhuma epocha da sua historia apparecem os Phenicios com uma unidade nacional caracterizada, como os povos de que anteriormente tratámos. Viveram sempre em cidades separadas, com chefes independentes, de jurisdicção limitada a certa porção de territorio. Era o ultimo limite da descentralização governativa. Comtudo sempre uma cidade exerceu hegemonia entre todas as outras povoações phenicias. As duas cidades que, como grandes centros politicos e commerciaes, exerceram successivamente essa hegemonia foram Sidon e Tyro. D'ahi provêm a divisão da historia da Phenicia em dois periodos: o sidonio e o tyrio.
No primeiro periodo, Sidon (que foi a mais antiga das cidades phenicias de que ha memoria nos livros dos historiadores) exerceu a supremacia da influencia sobre as demais populações, organizou grandes expedições maritimas e teve um grande movimento de expansão colonizadora. Thutmés I, rei do Egypto, fez acceitar pelos Phenicios a sua suzerania; mas esse facto foi-lhes antes util do que prejudicial, porque lhes proporcionou a faculdade de commerciarem no Egypto, passando a estabelecer feitorias nas cidades do delta, e chegando até a terem uma colonia sua estabelecida n'um bairro especial de Memphis, por elles exclusivamente habitado. N'essa epocha navegaram por todo o oriente do Mediterraneo, e chegaram até Chypre, sendo com o auxilio d'elles que esta ilha ficou submettida ao dominio dos Egypcios. As suas tendencias e habitos commerciaes levaram-n'os á ilha de Creta, á Cilicia e até ao Mar-Negro, estabelecendo por toda a parte colonias e feitorias. No Occidente alargaram-se pelo littoral do norte da Africa e estabeleceram colonias nos territorios em que hoje existem as regencias de Tripoli e de Tunis. Cruzando-se alli com a população indigena, deram origem ao povo dos liby-phenicos, que chegaram a adquirir importancia{28} na Antiguidade. Pelo interior da Asia extenderam as suas relações commerciaes até ao rio Tigre e á Arabia.
Pelo seculo XIII antes da era christan os Phenicios de Sidon tinham chegado ao maximo estado de adeantamento e de influencia. Foram então victimas dos Philisteus, que se haviam estabelecido entre a Phenicia e o Egypto. Sidon foi tomada e destruida por estes; e a hegemonia phenicia passou depois para Tyro, começando então o segundo periodo da historia d'este povo.
N'esse novo periodo, Tyro, succedendo a Sidon como centro do dominio colonial dos Phenicios, elevou-o bem depressa ao auge da prosperidade. A direcção, porêm, que imprimiu ao movimento de expansão colonizadora teve que ser diversa. As populações gregas tinham-se ido desinvolvendo pelas duas margens do mar Egeu, e não só obstaram a que os Phenicios fossem por alli estabelecendo novas colonias, mas chegaram a desalojál-os de algumas posições adquiridas. Por isso os Tyrios tiveram que abandonar aquelle caminho e trataram de espalhar-se para os lados do occidente do Mediterraneo, que ainda estava desimbaraçado. Foi assim que se occuparam em estabelecer colonias e feitorias na Sicilia, na Sardenha, na Corsega, em Malta, nas ilhas Baleares, nas costas da Gallia, e nas da peninsula iberica, ao mesmo tempo que na margem meridional do mesmo mar alargaram tambem os seus dominios, fundando as cidades de Utica e de Hippona. Por fim, transpuseram o estreito hoje chamado de Gibraltar, indo fundar estabelecimentos pela costa occidental da Europa, onde se suppõe que chegaram ás costas da Gran-Bretanha, e indo tambem para o sul, onde talvez chegassem a aportar ás ilhas Canarias e ás de Cabo-Verde.
Então o poderio phenicio chegou ao maximo esplendor e teve a sua edade de oiro. Reinava Hirão I, que foi contemporaneo dos reinados de David e de Salomão nos Hebreus. Com estes reis teve elle alliança e por tal modo promoveu a grandeza phenicia, que a influencia d'esta chegou a sentir-se consideravelmente em Jerusalem, onde Astarte (uma divindade dos Phenicios) teve culto, sendo esse um dos actos de idolatria, com que por vezes os Israelitas offenderam a Deus.
Logo depois se começou, porêm, a manifestar a decadencia da Phenicia. Duas causas poderosas concorreram para ella: as luctas civis dentro de Tyro, com successivas revoluções, e os progressos das navegações e da colonização dos Gregos que vieram a deslocar as dos Phenicios. N'uma d'aquellas resoluções, que occorreu durante a menoridade do rei Pygmalião,{29} foi assassinado o regente do estado e teve que expatriar-se sua viuva Elisa, que com os seus partidarios foi para a Africa, onde fundou a cidade de Carthago. Esta Elisa é a rainha que figura com o nome de Dido na Eneida de Virgilio.