Alêm d'aquellas expedições, o interesse historico d'este periodo da historia antiga da India concentrou-se todo na nova constituição social que n'esta despontou e se veio a firmar e radicar com o tempo. A classe dos guerreiros, que até então fôra a primeira em categoria e consideração, cedeu o logar á dos sacerdotes, que ficou sendo a aristocratica e preponderante. O regimen que desde aquella epocha dominou na India, e que ainda hoje alli tem profundas raizes, é o chamado regimen das castas. Por esse regimen a sociedade é dividida na India em quatro classes, religiosa e intransigentemente fechada cada uma d'ellas a elementos extranhos, e dispostas hierarchicamente na fórma seguinte:—1.ª a dos brahmanes ou sacerdotes;—2.ª a dos kshatrias ou guerreiros;—3.ª a dos vaishias ou commerciantes;—4.ª a dos sudràs (a infima) ou dos servidores. Esta ultima julga-se que provêm dos restos da população aborigene, que os Aryas não poderam anniquilar nem assimilar, e que so admittiram no seu corpo social com aquella{41} fórma e aquelle mister degradantes. No chamado «Código de Manu» está expressa e formulada esta fórma do regimen estabelecido na sociedade indiana.

Ao periodo brahmanico succedeu o periodo buddhico, que fecha a historia antiga da India. N'este periodo a theocracia brahmanica soffreu um grande abalo e teve que defender-se em lucta porfiada. No seculo VI antes da era de Christo appareceu na India um homem de talento extraordinario, que era ao mesmo tempo um propagandista audacioso e infatigavel. Chamava-se Çakya-muni, era filho de um rajah de um paiz vizinho do Nepaul, e teve o cognome (pelo qual ficou eternizado na Historia) de Buddha (ou sabio). Philosopho de temperamento, aos vinte e nove annos de edade abandonou o palacio paterno, as riquezas e o direito á realeza para viver no deserto, investigando a verdade. Nove annos depois, fortalecido o espirito com as meditações da solidão, voltou ao povoado; e começou a pregar nova doutrina ás multidões, reunidas ao acaso. Por toda a parte orava,—expondo os seus principios, (quer nas povoações, quer nos campos) á gente de todas as condições sociaes. Servia-se na sua predica, de parabolas (o mesmo systema que depois foi seguido por Christo). Apresentava a principio a sua doutrina como uma simples reforma; mas ella tendia á ruina completa do brahmanismo, substituindo ao regimen das castas o principio da egualdade de todos os homens perante a lei moral, e ás falsas virtudes prégadas pelos brahmanes a práctica do bem. Ás promessas de salvação (isto é, da união com a essencia divina) só concedida pela religião antiga aos brahmanes, substituia a capacidade, para todos os homens, de gozarem da bemaventurança, ganha por seus meritos e virtudes. Rompia com o privilegio da casta dos brahmanes, para chamar ao sacerdocio os pobres e os mendigos que quizessem dedicar-se á vida religiosa. A sua doutrina admittia seis elementos de perfeição, que eram: a sciencia, que devia ter por objecto distinguir os verdadeiros dos falsos bens; a energia, que devia consistir na resistencia contra os nossos maiores inimigos, os prazeres dos sentidos; a pureza, que era a victoria adquirida por aquella resistencia; a paciencia, que consistia em soffrer os males imaginarios e os transitorios; a caridade, laço de união entre os homens; a esmola, como consequencia necessaria da caridade.

Tão sympathica e tão santa doutrina, que tantos pontos de similhança tem com a de Christo, não podia deixar de fazer, como fez, um proselytismo enorme.

Assim prégou até aos oitenta annos, respeitando sempre a{42} ordem estabelecida, e proclamando (como o fez mais tarde Christo) que aos principes se devia dar o que lhes era devido. Por sua morte, os discipulos reuniram os principaes discursos d'elle e convocaram o primeiro concilio buddhico, em que tomaram parte 500 religiosos. Depois de septe mezes de discussão, esse concilio assentou na fórma do culto e no corpo das doutrinas, o que tudo ficou mais precisado em segundo e terceiro concilio, que se reuniram, um no seculo V e o outro 150 annos antes de Christo.

Por fim os brahmanes, conhecendo o perigo eminente que já corria a religião antiga e o edificio social, que elles haviam construido, e á sombra dos quaes viviam e desfructavam commodidades, honras e distincções, começaram uma lucta feroz contra o buddhismo, chegando a desincadear contra os seus proselytos uma atroz perseguição. Entre outros anathemas, prégavam os brahmanes: «Que desde Ceylão até ao Himalaya, coberto de neve, os buddhistas sejam exterminados. Quem poupar a creança ou o velho, soffra a pena de morte». Esta perseguição deu resultado na India, que voltou toda ao brahmanismo; mas o buddhismo espalhou-se no Thibet (que é hoje o seu centro), na Mongolia, na China, na Indo-China e em Ceylão. N'estes paizes conta ainda muitos milhões de seguidores, sendo comtudo poucos os que practicam as doutrinas e os preceitos de Buddha na sua pureza.

A civilização indiana, toda com caracter religioso, não primou nem pelo progresso das sciencias nem pelo das artes. Em sciencia, só a da grammatica e da linguagem se desinvolveu consideravelmente; da arte só ficaram monumentos grandiosos nas proporções, mas de pouca belleza artistica. Prosperaram, porêm, algumas industrias entre os Indios.

[CAPITULO IX
OS CHINS]

Não se conhece a duração da sociedade chineza, á qual as suas tradições maravilhosas attribuem 80:000 a 100:000 annos de existencia. O que é certo é que o povo chinez é muitissimo antigo, havendo nas suas tradições mais ou menos certas conhecimento de factos anteriores 3:500 annos a Christo,—e,{43} desde o seculo XXVI da mesma era, historia positiva que apresenta seguidos annaes.

Ignora-se completamente quaes foram a origem e o modo de formação dos Chins, habitantes do Celeste Imperio ou Imperio do Meio. Até ao seculo XXII antes de Christo os imperadores eram electivos; d'aquella epocha em deante estabeleceu-se o principio heriditario na successão, modificado n'um ponto (e era que os grandes do imperio podiam escolher entre os filhos do soberano defuncto o que julgassem digno de succeder-lhe).

O imperador Yu foi fundador da dynastia dos Hia, que durou quatro seculos e que acabou no meio de grandes desordens e de uma atroz tyrannia. A segunda dynastia, a dos Chang, foi fundada por um principe de merecimento superior cujas virtudes foram celebradas por Confucio, e veio a acabar como a anterior, sendo o seu ultimo representante um tyranno abominavel, desthronado por Wu-Wang, principe de Tehéu, que contra elle se revoltou. Este, tomando o governo, reorganizou o antigo «tribunal da historia», cujos membros gozavam de inamobilidade, que lhes assegurava a independencia. Durante esta dynastia os reinos feudatarios da China, que já desde antiga data existiam, augmentaram até ao numero de 125, e na China constituiu-se um verdadeiro feudalismo. Este, porêm, acabou em perfeita anarchia; o imperador chegou a absoluta impotencia, e um dos seus feudatarios offereceu sacrificio ao céu (prerogativa exclusiva do soberano), e prendeu no palacio o ultimo imperador d'aquella dynastia. Começou nova dynastia, a dos Thsin que, destruindo todos os pequenos principados, reconstruiu com sua unidade e poderio o grande imperio. Um imperador d'ella, Chi-Hoang-Ti, concluiu aquella transformação, abriu grande numero de estradas, perfurou montanhas e, para impedir as correrias dos Tartaros nomadas, mandou construir a grande muralha, que mede 2:500 kilometros de comprimento. Tornou-se porêm, tristemente celebre pela perseguição dos lettrados e pelo incendio dos livros. Na sua enorme vaidade, queria que tudo datasse do seu reinado e pretendeu assim apagar os vestigios do passado. Não poude, felizmente, matar todos os sabios, nem destruir todos os livros. A monarchia chineza, que n'aquella data foi perturbada por tão violento e insensato reformador, voltou depois á sua tradicional quietação; os sabios recuperaram a sua influencia; e o paiz augmentou consideravelmente em prosperidade. Mas depois, minada por vicios de dissolução interior, não teve força para resistir ás invasões{44} dos Mongoes que, transpondo a grande muralha, foram causa da divisão da China em dois reinos, separados pelo rio Azul, e nos quaes houve differentes dynastias, que todas tiveram uma existencia obscura. Li-Ang tornou a reunil-os no anno 618 da era actual; mas não conseguiu robustecer o imperio restaurado, de modo que pudesse resistir ás repetidas Invasões mongolicas. Estas invasões continuaram durante a Edade-Média, e são já estranhas ao assumpto do presente livrinho.