É a civilização da China uma das mais antigas que se conhecem; mas, apezar d'isso, é a que menos tem progredido ou, melhor diremos, a que por maior decurso de tempo tem permanecido estacionaria. Tem sido causas d'esse estacionamento o temperamento proprio da raça chineza, a sua fórma de governo, a sua religião e o isolamento em que a nação se tem conservado a respeito do resto do mundo.
A fórma de governo tem sido sempre como que patriarchal. O imperador é simultaneamente soberano e pae de todos os seus subditos, que de um extremo a outro do imperio formam uma unica familia, sem distincção de castas ou hierarchias. As doutrinas de Confucio têem contribuido principalmente para conservar ás instituições chinezas a sua estabilidade.
Confucio viveu no seculo VI antes de Christo. Os seus livros, sendo como que o evangelho do Imperio Celeste, são estudados por todos os que têem que sujeitar-se aos exames que habilitam para os titulos litterarios e para o exercicio dos cargos publicos. Confucio não foi legislador, nem teve auctoriade para promulgar leis; mas ensinou a «sabedoria». E na práctica das doutrinas por elle professadas assenta todo o edificio politico e religioso na China.
Segundo elle, a moral dos antigos sabios, que é a da verdadeira e eterna sabedoria, consiste na observancia das tres leis fundamentaes das relações entre o soberano e os subditos, entre o pae e os filhos, e entre o marido e a mulher; e tambem em practicar as cinco virtudes capitaes (que são: a humanidade, isto é, uma caridade universal para com todos os individuos da nossa especie sem distincção; a justiça, que dá a cada um o que lhe é devido, sem favorecer um em prejuizo de outro; a conformidade aos ritos prescriptos e aos usos estabelecidos, a fim de que os que formam a sociedade tenham uma maneira commum de viver, e participem todos de eguaes vantagens e de eguaes incommodos; a rectidão, ou a inteireza de espirito e de coração, que faz que cada um busque a verdade, sem se deixar offuscar pelo interesse, proprio ou{45} alheio; a sinceridade e boa fé, ou a lisura e confiança, que exclue toda a dissimulação e toda a falsidade, quer nos actos quer nas palavras).
Os seus principios religiosos fundamentaes são os seguintes. O céu é o principio universal, a origem fecunda de que todas as coisas procederam. Os nossos antepassados, d'elle oriundos, foram a origem das gerações seguintes. Dar ao céu testemunhos de agradecimento é o primeiro dever do homem; mostrar gratidão aos antepassados é o segundo. É por isso que Fou-Hi estabeleceu ceremonias em honra do céu e dos antepassados.
[CAPITULO X
OS GREGOS]
Na Antiguidade, a Grecia propriamente dita era apenas uma região constituida por uma pequena porção de territorio do continente europeu, e pela peninsula que na bacia Oriental do Mediterraneo termina o mesmo continente, entre o mar Jonio ao occidente e o mar Egeu (hoje denominado Archipelago) ao oriente. Tambem pertenciam á Grecia as numerosas ilhas que ha nas proximidades d'aquella região. As diversas populações que na Grecia vieram a ter importancia historica derivaram-se todas da raça aryana, da qual constituiam um grupo especial (o hellenico). Este grupo, pela brilhante civilização que no seu seio se elaborou, constitue um dos mais nobres da historia, e formou uma individualidade distinctissima atravez dos seculos.
Na obscuridade dos primitivos tempos, parece que os primeiros habitadores da Grecia foram os Pelasgos e os Jonios. Os primeiros povoaram com suas tribus a Asia Menor, a Grecia e a Italia, lançaram n'estes paizes os primeiros fundamentos da civilização, e por toda a parte deixaram nos seus monumentos provas eternas da sua actividade e das suas poderosas aptidões. Desappareceram, porêm, sem que sobre o seu destino ulterior haja tradição segura.
Quando a Grecia apenas sahia do estado selvagem, vieram (segundo antigas tradições) colonias dos paizes mais civilizados da Asia e da Africa trazer-lhe os conhecimentos das artes uteis e uma religião mais pura. Foi assim que Cecrops,{46} oriundo do Egypto, desimbarcou na Attica, reunindo os habitantes d'ella em diversas povoações, das quaes Athenas veio a ser a capital; ensinou-lhes algumas culturas, promulgou as leis do casamento e instituiu o tribunal do Areopago, destinado a julgar os pleitos. Do mesmo modo na Beocia, Cadmo introduziu o alphabeto phenicio e edificou Cadméa, emtorno da qual se elevou mais tarde a cidade de Thebas. Dano introduziu em Argos algumas das artes do Egypto; e Pelops, phrygio, estabeleceu-se na Elida, d'onde a sua raça se espalhou por toda a peninsula que d'elle tirou o nome. O acontecimento dominante d'aquella epocha foi a invasão dos Hellenos que do norte da Grecia, sua primeira habitação, se derramaram por todas as outras partes da peninsula, á custa dos Pelasgos que foram absorvidos pela população invasora.
Apoz esta epocha primitiva seguiram-se os tempos heroicos, em que homens de grande valor physico percorriam a Grecia, para a libertar dos salteadores, dos oppressores e dos animaes selvagens. Passando a sua vida a combater todos os flagellos, aquelles heroes recebiam dos povos agradecidos as honras de semi-deuses; mas muitas vezes abusavam da sua força e das suas vantagens pessoaes. Entre outros foram notaveis Hercules e Theseu. Tambem ficaram nas tradições poeticas: os Argonautas e a sua viagem aventurosa até á Colchida, em busca do vellocino de oiro; os septe chefes que foram cercar Thebas, infamada pelos crimes de [OE]dipo e pelas dissenções entre seus filhos; o sabio Minos; etc.