Foi n'este periodo que se deu a guerra de Troya. Esta cidade era a capital de um poderoso reino estabelecido no noroeste da Asia Menor e o ultimo resto do dominio dos Pelasgos. O celebre Páris, filho de Priamo (rei de Troya), fez uma viagem ao Peloponeso e d'alli furtou e levou para a sua patria Helena, mulher de Meneláu (rei de Esparta ou Lacedemonia). Pedindo-a depois o marido e os mais Gregos aos Troyanos, estes negaram-se a intregál-a, pelo que lhes foi por aquelles declarada a guerra. Quasi toda a Grecia com seus principes foi a esta expedição, levando por general supremo o rei Agamemnon. Ás ordens d'este principe iam Achilles (capitão de grande valor), Ajax Tellamonio, Ajax Oileu, Diomedes, Menesteu, Ulysses (rei de Itaca), e Nestor (varão de edade já muito avançada). Foi posto cêrco a Troya; mas durante quasi dez annos não houve batalha decisiva. Troya, defendia-se e parecia disposta e habilitada a continuar a defender-se com vantagem, não obstante a falta de Heitor, que a commandava e que morreu ás mãos de Achilles.{47} Os Gregos usaram por fim de um estratagema; fingiram retirar-se, deixando no campo, como presente, um gigantesco cavallo de madeira, que os Troyanos recolheram dentro de suas muralhas. Mas no corpo do animal occultavam-se os mais bravos d'entre os Gregos, que assim se introduziram na cidade, cujas portas abriram ao resto do exercito. Desse modo cahiu Troya, sendo Priamo assassinado ao pé dos altares. Os principes gregos que não haviam morrido na lucta, voltaram a caminho da sua patria; mas grandes infelicidades os esperavam. Uns morreram na viagem; outros, como Ulysses, andaram muito tempo desviados do caminho por ventos adversos; outros (como Agamemnon) ao chegarem aos seus paizes, incontraram os thronos occupados por usurpadores, de que foram victimas; outros, emfim, viram-se obrigados a ir estabelecer habitação em regiões longiquas, como Diomedes e Idomeneu.

Toda a historia d'esta epocha está tão eivada de fabula, que é quasi impossivel apurar-se a verdade.

Os oitenta annos que se seguiram á guerra de Troya foram todos occupados por dissenções intestinas, que derrubaram as antigas dynastias, e transferiram a preponderancia para as mãos de novos povos. Estas revoluções, e outras que mais tarde houve, deram logar a varias correntes de emigração; e ao longo das costas da Asia Menor, da Africa, da Sicilia, e da Italia, formou-se uma nova Grecia, que cresceu e prosperou, e por muito tempo foi mais rica do que a metropole. Foi assim que os Gregos se estabeleceram em Smyrna, Phocéa, Epheso e Mileto (na Asia Menor); em Cyrena (na Africa); em Messina e Syracusa (na Sicilia); e em Taranto, Napoles e Sybaris (na Italia). Nas colonias da Asia, em contacto com as velhas sociedades do Oriente, começou a evolução civilizadora, de que Athenas veio a ser mais tarde o brilhantissimo fóco.

Mas, apezar de tão grande dispersão da população grega, apezar da divisão da Grecia em tantos estados, a grande familia hellenica conservou a sua unidade nacional, pela communidade da lingua e da religião, pela celebridade de alguns oraculos (o de Delphos principalmente, ao qual concorria gente de todos os pontos do mundo grego), e por algumas instituições geraes que conservavam estreitos os laços moraes das populações entre si.

Entre 800 e 700 annos antes de Christo, houve de notavel na Grecia o apparecimento das leis de Lycurgo. Este personagem nasceu em Esparta. A viuva do rei Polydecto, seu irmão,{48} offereceu-lhe com a sua mão de esposa o throno de Esparta, com a condição d'elle matar seu sobrinho Charilaus. Recusou-se a isso Lycurgo; e, como os grandes do reino se mostrassem contra elle irritados pela sabia administração que usára como regente, durante a menoridade do sobrinho, resolveu exilar-se e viajou por muito tempo, estudando a legislação dos outros povos e voltando a Lacedemonia, depois de uma ausencia de dezoito annos, com o intento de fazer adoptar reformas importantes nas leis do reino. A pythonisa de Delphos apoiou com a sua auctoridade religiosa as reformas propostas; e os Espartanos, fatigados das suas dissenções intestinas, que laceravam o estado, acolheram-n'as favoravelmente.

As leis politicas de Lycurgo mantiveram as relações estabelecidas entre os Espartanos, como povo dominador, e os Laconianos, como povo subjugado. Regularam os direitos da realeza distribuidos por duas casas soberanas; os do senado, composto de varões de edade superior a sessenta annos; os da assembléa geral, que podia acceitar ou regeitar as propostas feitas pelo senado ou pelos reis; enfim, os dos ephoros, magistrados annuaes, que administravam a justiça. As suas leis civis são muito mais notaveis e de muito maior alcance; e tiveram por fim estabelecer a egualdade entre todos os cidadãos. Para chegar a tal fim, dividiu elle as terras em 39:000 porções (30:000 para os Laconianos e 9:000 para os Espartanos). Para manter a egualdade entre os cidadãos, Lycurgo prohibiu o luxo e a moeda de oiro e de prata; e instituiu as refeições publicas, em que reinava a maior frugalidade. Vedou aos Espartanos o commercio e a cultura das artes e das lettras, sujeitando-os todos a eguaes exercicios physicos, com a mira de formar cidadãos robustos para a defesa da patria. Ao mesmo fim era dirigida a educação das creanças, que mais pertenciam ao estado do que á familia; a creança que nascia disforme, matavam-n'a.

Acabadas por esta legislação rigorosa as discordias interiores, e robustecida assim Esparta, concluiu esta a conquista da Laconia e imprehendeu a do Peloponeso. Combateu a tribu dorica dos Messenios, com a qual teve duas guerras, (uma que durou vinte annos e a outra dezesepte). As victorias n'estas luctas alcançadas deram grande nomeada aos Espartanos, que no seculo VI antes da era christan eram considerados como o primeiro povo da Grecia.

Pelo mesmo tempo florescia tambem Athenas, comquanto os defeitos da sua organização social déssem origem a grande mal-estar interior e a repetidas perturbações. A grande{49} desegualdade dos haveres tinha dado origem á formação de duas classes: a dos eupatridas, ou senhores das terras, e a dos thetas, ou servos que as cultivavam. Além d'estas duas havia ainda a dos escravos propriamente ditos.

A morte de Codro, ultimo rei dos Athenienses, deu logar a estabelecer-se uma nova fórma de governo. Os dois filhos d'elle, Medon e Nileu, disputaram entre si a corôa. Os Athenienses, que tinham sido sempre muito ciosos da sua liberdade, aproveitaram este ensejo para a reivindicarem completamente; declararam que depois de Codro não havia ninguem digno do titulo de rei e puzeram á testa da republica um primeiro magistrado a que deram o nome de archonte, e cuja auctoridade era muito limitada. Durante mais de tres seculos foi esta magistratura vitalicia e hereditaria; no fim d'esse tempo tornou-se electiva, e as funcções de archonte foram limitadas a dez annos. Mais tarde ainda, o poder foi distribuido por nove archontes, cujo mandato durava um anno. D'ahi provieram grandes dissenções, divisões de partidos, rivalidades e desordens.

Para obviar a tantos males viu-se que era necessario fazer leis, que fossem superiores a todas as magistraturas. Foi escolhido para as formular Dracon, homem de virtudes austeras e que gosava da estima geral. Dracon apresentou um codigo de leis de tal severidade, que revoltaram os espiritos mais exigentes e que não puderam ser executadas. Como novas dissenções puzeram em novo perigo o estado, recorreu-se a Solon, varão illustrado e de grande patriotismo, a quem foi dada a missão de fazer as necessarias leis e organizar uma constituição fundada em principios racionaes e estaveis.