Dividiu Solon o povo em quatro classes, segundo o rendimento de cada um. Os cidadãos das tres primeiras classes eram os unicos que podiam exercer cargos publicos; os da quarta, composta da infima plebe, eram admittidos a votar nas assembléas publicas, das quaes se excluiam os estrangeiros. Decretou a pena de morte contra todo o archonte que se embriagasse, e declarou excluido da tribuna e indigno de falar ao povo todo o homem de vida depravada. Estabeleceu que os archontes se informassem da occupação de todos os cidadãos e que declarassem infames os que persistissem na ociosidade, depois de por ella terem soffrido tres condemnações. Decretou que o estado sustentasse até á edade de vinte annos todos os filhos dos cidadãos que morressem no serviço da patria. Das leis draconianas apenas conservou as que eram{50} dirigidas contra os assassinos. Não fez lei penal contra o parricidio, porque não julgou possivel que tal crime se commettesse em Athenas. Para tornar duravel a sua legislação, fêl-a gravar toda em pranchas de madeira, e depois sahiu de Athenas por algum tempo para ir estudar a sabedoria das antigas nações do Oriente.
Quando regressou, notaveis acontecimentos o esperavam. Os partidos tinham re-apparecido e das luctas entre elles tinha surgido a tyrannia de Pisistrato, o qual, sem abolir a constituição, exercia tal influencia, que dominava todos os magistrados. Pisistrato duas vezes foi expulso do poder e de Athenas; mas duas vezes conseguiu recuperar o governo, que por fim conservou até á morte. Depois d'esta succederam-lhe seus dois filhos Hipparco e Hippias, que governaram conjunctamente; mas em seguida houve novas e continuadas dissensões, até ao tempo de Themistocles, no qual a Grecia, ingrandecida com as conquistas de Milciades e arvorada já em verdadeira potencia maritima, viu ainda o seu poder naval accrescentado com 200 navios, mandados construir com o producto das minas de prata de Laurion.
Foram esta armada poderosissima, e o valor e pericia dos seus generaes, que salvaram a Grecia das expedições contra ella organizadas por Dario e Xerxes, de que já falámos no capitulo VII d'este livrinho.
Foi sobre todos notavel na Grecia o periodo d'estas guerras e o tempo que se lhes seguiu. Appareceram então distinctissimos generaes, e excellentes estadistas; e o povo grego, não obstante o seu animo irrequieto e o seu espirito sedicioso, parece que reprimiu todos os ardores que podiam ser prejudiciaes á causa publica, para só dar livre curso a todas as tendencias conducentes ao ingrandecimento da patria e á sua victoria contra os ataques dos inimigos.
Por esta epocha appareceu Pericles—homem de tal merito, que deu o seu nome ao seculo em que viveu e em que a Grecia foi o grande fóco da civilização do mundo.
Era filho de Xanthippo, o vencedor de Mycale. Educado pelos sabios mais notaveis do seu tempo, mostrou-se desde a adolescencia muito instruido em todos os ramos do saber humano. Apesar de estar pelo seu alto nascimento destinado a ser chefe do partido aristocratico, que no começo da vida d'elle tinha a maior influencia em Athenas, esposou a causa do povo, fazendo-se chefe do partido democratico. Fez reformas profundas, em que cerceou as attribuições dos altos poderes do estado em beneficio do povo. Em virtude d'essas reformas,{51} todas as funcções publicas, ainda as mais elevadas, ficaram sendo accessiveis aos cidadãos mais humildes, contanto que a sorte ou a eleição a ellas os chamassem.
Como o imperio sujeito á pequena cidade de Athenas fosse demasiado vasto, para que ella pudésse mantêl-o sujeito, Pericles expediu numerosas colonias que não formaram, como as anteriores, cidades independentes da metropole, mas sim fortalezas e estabelecimentos militares que mantinham na sujeição a Athenas os paizes onde existiam.
Não teve Pericles sómente em vista a grandeza e o poderio de Athenas; cuidou tambem da gloria d'ella. Chamou para alli todos os homens eminentes que então havia na raça hellenica, os quaes todos para lá concorreram, como para a capital da intelligencia. Celebravam-se alli festas esplendidas, que attrahiam enorme concurso de todas as povoações gregas.
Athenas chegou assim a ser um dos mais intensos fócos de civilização que o mundo tem visto. Ao lado do eminente vulto de Pericles, viram-se então alli brilhar: Sophocles e Euripedes, dois dos maiores poetas tragicos conhecidos; Lysias, orador eloquentissimo; Herodoto, narrador admiravel; Aristophanes, o maior poeta comico da Antiguidade; Phidias, o mais illustre dos seus artistas; Apollodoro, Zeuxis, Polygnoto e Parrhasios, pintores bastante celebres; Anaxagoras e Socrates, philosophos notabilissimos. Ainda depois d'estes vultos de primeira ordem vieram Eschylo, Thucydides, Xenophonte, Platão e Aristoteles. Athenas teve por aquella epocha, a honra de ser não só a «mestra da Grecia», como lhe chamaram, mas tambem a mestra do mundo.
Depois de vencida a batalha de Salamina, tinha-se Athenas collocado á frente de uma confederação dos gregos insulares e asiaticos, afim de proseguir na guerra contra os Persas; mas tendo-se os sitiados cançado de combater, havia ella acceitado os seus tributos em vez de contingentes militares e continuára por si só a sustentar a lucta, no interesse commum. Depois da guerra, continuou a cobrar os mesmos tributos, pretextando que precisava estar prompta para impedir uma nova invasão. Os alliados, com o tempo, intenderam que era duro estar a pagar para as festas e para os monumentos de Athenas; e queixaram-se. As suas queixas, porêm, foram duramente repellidas, pelo que elles dirigiram as suas supplicas a Esparta. Esta, ciosa sempre da grandeza e das glorias de Athenas, procurou formar uma liga continental, cujas forças oppuzesse ás das cidades maritimas e insulanas sujeitas aos Athenienses. A principio houve só hostilidades{52} parciaes; mas mais tarde tornou-se geral a guerra, depois do ataque de Platéa (alliada dos Athenienses) pelos Thebanos (alliados de Esparta). Essa lucta é conhecida pela designação de «guerra do Peloponeso».