Durante dez annos correu esta guerra, com vantagem ora para uma ora para outra das contendoras, até que Nicias assignou um tratado de paz, que tem o seu nome. A paz, porêm, contrariava os calculos de Alcibiades, que contava com a guerra para se elevar; por isso propoz este a expedição á Sicilia, que teria sido bem succedida, se elle, accusado de sacrilegio, não fosse privado do commando do exercito. Alcibiades retirou-se então para Esparta, d'onde dirigiu duros golpes contra a sua patria. Os Athenienses puzeram cêrco a Syracusa; mas, em resultado da pouca energia de Nicias, tal cêrco terminou pela destruição da esquadra e do exercito atheniense, cujos chefes foram mortos pelos Syracusanos e os soldados reduzidos á escravidão. Este desastre foi um enorme golpe para Athenas.

Comtudo a guerra continuou; e os Athenienses ainda por vezes obtiveram vantagens, que obrigaram Alcibiades a fugir de Esparta. Entretanto em Athenas rebentou uma revolução, na qual a democracia foi sacrificada a um conselho superior composto de 400 membros, que substituiu o senado, e a uma reunião de 5:000 cidadãos escolhidos, que substituiu a assembléa do povo; mas pouco depois um exercito que operava em Samos fez uma contra-revolução, restabelecendo o governo democratico e acclamando Alcibiades. Este foi chamado a Athenas, e com a sua vinda restabeleceu-se a auctoridade do povo. Os Athenienses ganharam duas batalhas navaes no Hellesponto, uma grande victoria, tanto em terra como no mar, em Cyzica, e por fim tomaram Byzancio. Estas victorias foram, porêm, o resultado de um grande esforço, que exhauriu o resto da vitalidade de Athenas.

Cyro o Moço, que buscava a alliança de Esparta, para arrancar a seu irmão Artaxerxes II a corôa da Persia, forneceu a Lysandro, que governava em Esparta, grandes recursos para levar a cabo a guerra. Com este auxilio, os Espartanos derrotaram os Athenienses em Egos-Potamos; e pouco depois Athenas foi tomada, as suas fortificações arrazadas, a sua marinha reduzida, desorganizado o seu exercito e abolida a constituição democratica, que principalmente concorreu para a sua grandeza e para a sua gloria.

A hegemonia grega passou para Esparta, que não soube usar d'ella com a mesma habilidade e esplendor com que o{53} fizera Athenas. Cyro o Moço levou por deante o seu plano com o auxilio dos Espartanos, avançou até ao pé de Babylonia, onde ganhou a batalha de Cunaxa; mas foi morto, e á sua morte seguiu-se a retirada chamada «dos dez mil» a que já nos referimos, operada atravez de 400 leguas de terreno, pelas montanhas impervias da Mesopotamia e da Armenia até ao Mar-Negro. O exito d'esta retirada revelou o infraquecimento do grande imperio persa; por isso, poucos annos depois o espartano Agesilau, resolveu conquistál-o. Chegou a reunir grandes forças e muitas allianças, mas o seu plano ficou frustrado, porque os Persas tiveram artes de suscitar guerra interior no seio da propria Grecia. Por sua instigação, Corintho, Thebas e Argos formaram uma liga, em que intraram tambem Athenas e a Thessalia. Agesilau, regressando da Asia, conseguiu vantagens em terra, restabelecendo o dominio de Esparta; mas o atheniense Conon, commandante de uma frota phenicia, arrancou-lhe das mãos o dominio maritimo e com o oiro dos Persas, restaurou as fortificações de Athenas.

Esparta, inquieta pelo renascimento da sua rival, inviou mandatarios á Persia, a tratar com ella dos meios de lhe intregar os gregos da Asia, acceitando todas as condições. Era o resultado do abatimento moral e da depravação que tinha ganhado a raça hellenica. Destruiu algumas cidades e perseguiu diversas populações sujeitas a Athenas, até que os seus excessos tiveram um castigo. Um dos seus generaes surprehendeu e tomou á falsa fé Cadmea, cidadella de Thebas, que era então alliada de Esparta. O thebano Pelopidas, á frente de alguns proscriptos, libertou, porêm, a sua patria, e reuniu n'uma alliança commum todas as cidades da Beocia. Tendo os Espartanos mandado contra estes povos colligados um exercito, Epaminondas desbaratou-o na batalha de Leuctras, levando a guerra até ao seio do Peloponeso. Abriu caminho até aos muros de Esparta, na qual, comtudo, não poude intrar; mas, para a conter em respeito, edificou aos seus lados Megalopolis e Messena, dois optimos pontos fortificados. Esparta procurou por toda a parte alliados contra estes novos dominadores da Grecia; mas Epaminondas em activa guerra sustentou firme a dominação de Thebas, dominação que veiu a cahir com elle, morto no meio da sua victoria de Mantinéa.

Poucos annos depois, Filippe da Macedonia, tendo libertado o seu paiz do jugo e da influencia dos extrangeiros, quiz ingrandecêl-o, accrescentando-lhe a Grecia. Tomou e submetteu differentes povoações, com que foi augmentado o seu imperio, observando-se por toda a extensão da Grecia uma{54} grande falta de energia e um fraco espirito de resistencia. Só os Athenienses velavam pela patria commum, guiados pelo grande cidadão e grande orador Demosthenes, que nas suas eloquentes orações mostrava os planos ambiciosos de Filippe. Mas Athenas não poude sustentar por si só, durante longo tempo, uma lucta tão desegual, e por fim teve que firmar, por conselho do proprio Demosthenes, um tratado de paz com o rei da Macedonia.

Emquanto Athenas, descançando na fé d'este tratado, se abandonava ás festas e ás suas occupações ordinarias, Filippe transpoz as Thermophylas, penetrou na Phocida, e conseguiu ser adimittido no conselho amphictionico. Os Athenienses salvaram ainda Perintho e Byzancio, ás quaes Filippe seria obrigado a levantar os cêrcos. Á voz de Demosthenes, que não cessava de lhes mostrar os perigos, nas suas immortaes Filippinas, os Athenienses e os Thebanos, esquecendo a sua mutua rivalidade, reunem os seus exforços para opporem ao inimigo commum; mas o seu exercito, commandado por generaes inhabeis e talvez vendidos ao oiro de Filippe, foi desbaratado n'uma grande batalha na planicie de Cheronéa. Depois d'esta batalha, Filippe propoz-se captar a sympathia dos Gregos, que tratou com as maiores blandicias, e conseguiu ser por elles nomeado generalissimo das tropas destinadas a marchar contra a Persia. Para preparar esta grande expedição voltou a Macedonia, onde foi assassinado por Pausanias durante a celebração dos jogos olympicos.

Succedeu-lhe seu filho Alexandre com vinte e um annos de edade. Tendo os barbaros, que seu pai subjugára, tomado as armas, elle, para lhes estorvar os movimentos, levou o seu exercito até ao Danubio, passou este rio n'uma noite e derrotou os rebeldes. Julgando os Thebanos aquelle ensejo propicio para se libertarem dos Macedonios, apoderaram-se da cidadella, cuja guarnição degollaram. Alexandre reuniu logo um exercito, com que introu na Beocia, exigindo d'elles que lhe intregassem os auctores da revolta. Como lh'os recusassem, deu-lhes batalha, destroçando-os e tomando Thebas; que saqueou e destruiu.

Os Athenienses, receando então haver incorrido na colera de Alexandre, mandaram-lhe emissarios a implorar clemencia. Este usou para com elles de generosidade, da qual comtudo esperava tirar partido para os seus planos de conquista; pacificou a Grecia e reuniu em Corintho deputados de todas as republicas hellenicas, que o nomearam general em chefe de uma expedição contra os Persas. Para levar d'esse modo a effeito{55} o plano de seu pae, confiou o governo da Macedonia e da Grecia a Antipater e partiu com um exercito de 30:000 homens de infanteria e 5:000 de cavallaria, á conquista da Persia, onde então reinava Dario Codomano.

Então começou para Alexandre uma serie de victorias e de conquistas, que constituem uma verdadeira epopéa. Introu na Phrygia depois de atravessar o Hellesponto sem difficuldade; na passagem do Granico, defendida por um exercito persa de 100:000 homens de infanteria e mais de 10:000 de cavallaria, derrotou este, apoderando-se depois de Sardes, que era a chave da Alta-Asia. Epheso, Mileto, Halycarnasso e todas as cidades da costa da Asia intregaram-se-lhe.