Durante muito tempo, e apezar da preponderancia que a população e os estabelecimentos do Lacio adquiriram, conservou-se a peninsula dividida em diversas nacionalidades, estabelecidas{58} nas seguintes regiões do territorio; Liguria, Etruria, Campania, Lucania, Apulia, Samnio, Umbria, etc. A unidade politica da Italia peninsular sómente veio a realizar-se depois de um grande numero de tentativas e de esforços continuos e pertinazes de Roma, para vencer as nacionalidades autonomas locaes, que eram muito ciosas dos seus direitos o da sua independencia.

Roma deve ter sido primitivamente uma colonia de Alba-Longa, cidade que pertencia á confederação do Lacio. Ignora-se, porêm, ao certo como se fundou, quaes os elementos a que deveu origem, e as circumstancias que se deram nos seus primeiros tempos. A historia verdadeira da sua primeira epocha é ainda hoje ignorada, porque como historia verdadeira não pode considerar-se a collecção de fabulas e de tradições maravilhosas e inverosimeis, que antigos historiadores colheram das lendas e das crendices populares.

A historia dos septe reis de Roma passa por ser uma lenda em que figuram: 1.º rei, Romulo, que com seu irmão Remo edificou no monte Palatino a cidade de Roma; 2.º rei, Numa, monarcha religioso inspirado pela nympha Egeria; 3.º rei, Tullo Hostilio, que destruiu Alba-Longa, depois da guerra entre Horacios e Curiacios; 4.º rei, Anco Marcio, que foi o fundador de Ostia; 5.º rei, Tarquinio o Antigo, vencedor das cidades latinas do Tibre superior; 6.º rei, Servio Tullio, o legislador, amigo do povo; 7.º rei, Tarquinio o Soberbo, tyranno abominavel que foi expulso pelos Romanos, sendo com essa expulsão abolida a realeza.

Contam os antigos historiadores nos seguintes termos a fabula da fundação de Roma. Romulo e Remo eram filhos do deus Marte e de Rhea Silvia (filha de um rei de Alba), que fôra feita vestal (para não poder casar nem ter descendencia) por seu tio Amulio que derrubou seu pae do throno. Sabendo Amulio do nascimento das duas creanças, mandou-as lançar ao Tibre; mas a pessoa incarregada de as deitar ao rio, por compaixão deixou-as na margem, d'onde um pastor as recolheu, sendo ellas, segundo uns, amamentadas por uma loba, e segundo outros pela mulher do pastor, que dizem se chamava Lupa (Loba).

Quando chegaram a homens, Romulo e Remo reuniram grande numero de aventureiros, vagabundos e descontentes; e com elles tiraram o throno a Amulio, restituindo-o a seu avô materno Numitor, que d'elle havia sido desapossado. Feito isto, foram fundar uma cidade no sitio em que haviam sido creados,{59} e essa cidade foi Roma. Passou-se isto no anno 753 antes de Christo.

Romulo mandou matar a Remo com o pretexto de que este, saltando por um vallado (que foi a primeira muralha de Roma), pretendêra zombar d'elle. Povoou a nova cidade com homens dos povos vizinhos que a si attrahiu; e, como não houvesse mulheres para com elles casarem, mandou fazer umas festas publicas, para as quaes convidou os Sabinos, e ás quaes concorreram estes em grande numero com suas familias. Em meio dos festejos os Romanos roubaram as mulheres aos Sabinos, fazendo-os fugir. Ao rapto das Sabinas seguiu-se uma guerra entre os dois povos, a qual não teve grande duração, porque as proprias raptadas, então já casadas, intervieram para fazer a paz entre os maridos e os paes e irmãos.

A fabula narrada como causa da expulsão de Tarquinio o Soberbo e da abolição da realeza em Roma é a seguinte. Contam que tendo Sexto Tarquinio (filho do rei) injuriado em seu pudor a Lucrecia (mulher do nobre Collatino), esta convocára todos os seus parentes e os outros nobres da cidade para lhes pedir vingança e em seguida se suicidára. D'ahi resultou uma revolução, capitaneada por Collatino e por Lucio Junio Bruto, sendo expulso Tarquinio, abolida a realeza e estabelecida a fórma republicana. Esta revolução foi toda feita pelos patricios, e por isso a republica ficou nas mãos d'elles e com feição aristocratica. O governo foi confiado a dois consules, sendo os primeiros os dois auctores da deposição de Tarquinio, Bruto e Collatino. Refere-se este acontecimento ao anno 509 antes de Christo.

Tiveram pouco depois os Romanos que sustentar uma guerra contra Parsenna, rei da Etruria, que os atacou para restabelecer no poder a Tarquinio. O exercito de Persenna chegou a tomar o Janiculo e a acampar junto dos muros de Roma, pretendendo reduzil-a pela fome; mas foi repellido pelos Romanos com grande denodo, e Persenna veio depois a tornar-se amigo e alliado de Roma.

Os Tarquinios continuaram ainda a fazer guerra á republica até á morte de Aruns (filho de Tarquinio) que succumbiu ás mãos de Bruto. Este fôra ferido mortalmente por Aruns e, concitando todas as suas forças e energia, matou-o, cahindo sem vida sobre o seu cadaver.

Annos depois Manlio (genro de Tarquinio) suscitou contra Roma a guerra, chamada dos Latinos. Estes chegaram a approximar-se da cidade com um exercito numeroso. O povo romano recusava-se a tomar as armas se os nobres ou patricios,{60} que os opprimiam, não o desobrigassem das suas dividas e não lhe tornassem melhor o viver. Representava que era elle que fazia a guerra, mas que as vantagens e as honras eram todas para os ricos e nobres. Estes promptificaram-se a adiar a exigencia das dividas, mas não a dál-as por findas. Em tal apuro, por consenso mutuo, creou-se um magistrado supremo, denominado dictador, com poder absoluto por seis mezes e incarregado de conciliar todos os interesses. Para esse cargo foi escolhido Largio que, fazendo-se acompanhar de 24 lictores armados de machados, apparecia em toda a parte, obrigando todos a intrar na ordem, sob ameaça de morte. O povo amedrontou-se perante esta energia, fez-se o alistamento, e o exercito marchou contra os Latinos. Estes pediram um armisticio, que lhes foi concedido; e Largio exonerou-se da dictadura. Reappareceram mais tarde os Latinos; mas Aulo Posthumio, nomeado dictador, foi ao seu incontro, vencendo-os n'uma batalha decisiva em que ficaram mortos Tito e Sexto, filhos de Tarquinio o Soberbo.