Em memoria da sahida do Egypto, mandou Deus aos Hebreus que celebrassem perpetuamente a Paschoa, matando todos os annos e comendo com certas ceremonias um cordeiro.

Passado o Mar Vermelho, fôram elles caminhando por diversos logares até ao deserto,—onde começou o Milagre do maná. Era este um manjar delicioso que cahiu do céu durante quarenta annos, emquanto os Israelitas peregrinaram no deserto até intrarem na terra da promissão. Com elle se alimentavam, colhendo cada um diariamente uma certa medida, por fórma que, se queria guardar alguma porção para o dia seguinte, logo o manjar se corrompia. A peregrinação pelo deserto durou tanto tempo, porque assim o determinou Deus, em castigo das murmurações e falta de fé dos Israelitas á sahida do Egypto, fazendo-os retrogradar para o deserto, quando estavam já perto da terra da promissão.

Appareceu Deus a Moysés sobre o monte Sinai, e entre raios lhe deu as taboas da lei, em que estavam escriptos os dez preceitos do decalogo, e dictou-lhe as outras leis e ceremonias que queria que fossem usadas pelo seu povo. Emquanto Moysés estava sobre o Sinai—que foi por quarenta dias e quarenta noites—pediram os Israelitas a Arão que lhes fizesse um deus que adorassem e que os governasse. Annuiu elle ao pedido e fabricou um bezerro de oiro, que puzeram n'um altar e adoraram, e ao qual offereceram sacrificios. Quando Moysés desceu do monte e teve noticia d'este acto de idolatria, depois de orar ao Senhor—em desaggravo de tão grande peccado,—em signal de indignação, quebrou as taboas da lei, mandou aos levitas que matassem os Israelitas que incontrassem no caminho, calcou aos pés e reduziu a pó o bezerro de oiro, e supplicou a Deus que perdoasse ao seu povo, o que elle fez a final.

Perdoado o peccado do povo, mandou Deus a Moysés que voltasse ao cume do Sinai, com duas taboas de pedra, nas quaes foram de novo gravados os dez preceitos. Mandou depois se construisse um templo cuja guarda e governo foram confiados a Arão, irmão de Moysés, sendo os mais descendentes de Levi feitos ministros do mesmo templo, com o nome de levitas. Este templo, que era portatil, e se chamava tambem tabernaculo, acompanhava o exercito e era dividido em duas partes: na interior, que se chamava sancta sanctorum, estava a arca do testamento, e só intrava o summo sacerdote; na exterior havia um altar, em que se queimavam essencias e um candelabro com septe lumes.

Passados quarenta annos de peregrinação estavam os Israelitas{15} na terra da promissão, a cuja vista havia morrido Moysés, na edade de 120 annos e depois de ter abençoado o povo.

A terra da promissão era uma provincia da Asia, chamada hoje Palestina ou Terra Santa, que comprehendia varios reinos pequenos, conhecidos pela denominação de reinos dos Cananeus. Morto Moysés, ficou com o governo do povo Josué filho de Num, ao qual o Senhor appareceu dizendo-lhe que metesse os Hebreus na posse da terra da promissão, dividindo as terras pellas differentes tribus e familias. Josué teve que combater e vencer varios povos e reis, e que conquistar varias cidades da Palestina. Dividida esta pelos povos de Israel, obrigaram-se estes a dar a decima parte dos fructos da terra aos levitas.

Morrendo Josué na edade de 110 annos, seguiu-se-lhe o governo dos juizes, dos quaes os mais celebres foram Debora, Gedeão, Jephte e Sansão. D'este ultimo contam os livros santos que, sendo ainda muito moço e sahindo-lhe ao incontro um leão, o despedaçou logo; depois matou de uma vez trinta Philisteus; e de outra, depois de haver quebrado umas cordas muito fortes com que o tinham amarrado, matou mil Philisteus com a queixada de um jumento. N'outra occasião, incerrado pelos Philisteus na cidade de Gaza, sahindo de noite, arrancou as portas da cidade e levou-as a um alto monte. Depois d'aquellas façanhas e de outras, deixou-se inlear no amor de Dalila, á qual declarou que a verdadeira causa da sua força consistia em ser dedicado a Deus e em não lhe terem jámais cortado os cabellos; Dalila, senhora de tal segredo, fez com que Sansão adormecesse nos seus braços e, vindo os Philisteus, cortaram áquelle os cabellos, pelo que perdeu a força e foi aprizionado.

Os Philisteus, vencido assim Sansão, tiraram-lhe os olhos e trataram-n'o indignamente até que, passado algum tempo, tendo-lhe novamente crescido os cabellos, recuperou a força; e, sendo então levado pelos Philisteus ao templo de seu falso deus Dagão, para zombarem d'elle, abraçou Sansão duas columnas do mesmo templo e moveu-as com tal impeto, que o edificio abateu, morrendo esmagados quantos n'elle estavam, incluido o proprio Sansão.

O ultimo juiz que governou o povo hebreu foi o propheta Samuel, durante o governo do qual os Israelitas pediram a Deus que lhes désse um rei, o que Deus concedeu, mandando a Samuel que ungisse a Saul, como rei, e esse foi o primeiro dos reis de Israel. A principio regeu Saul, conforme ás leis e ao temor de Deus, mas depois faltou a uma e outra{16} coisa, pelo que mandou o Senhor a Samuel que ungisse como rei a David, mancebo muito valoroso, da tribu de Judá, e que havia morto o gigante Golias, que desafiava o exercito de Israel. Saul, sabendo da eleição de David, perseguiu-o e não quiz depor o poder; mas afinal, vencido na guerra contra os Philisteus, suicidou-se. Introu então David na posse pacifica do governo, comquanto tivesse que sustentar guerras contra os Philisteus, os Ammonitas, os Syrios, os Idumeus e os habitantes de Damasco, vencendo a todos estes inimigos. Preparou os materiaes necessarios para edificar um magnifico templo, que não chegou a construir por Deus lh'o haver prohibido; trasladou a arca do testamento para o seu palacio de Jerusalem, fez rigorosa penitencia por graves peccados que tinha commetido; compoz muitos psalmos em louvor de Deus; e practicou muitos outros actos de soberano justo e sabio.

A David succedeu no reinado seu filho Salomão, que foi muito sabio e sagaz, e cujo governo foi assignalado por grandes riquezas e prosperidades. Durante todo o tempo que governou, conservou em paz o reino de Israel; foi temido e respeitado pelos principes vizinhos, muitos dos quaes eram seus tributarios; as suas frotas levavam-lhe grande quantidade de oiro e de materias preciosas; floresceu o commercio em todo o paiz; e a sabedoria do rei era admirada nos reinos estranhos. Empregou Salomão grandes riquezas em edificar um templo grandioso, para a adoração de Deus, onde havia preciosissimos vasos e um grande numero de ministros do Senhor. Esse templo excedeu tudo quanto se pode imaginar de magnificente. Edificou tambem um sumptuoso palacio, para sua morada.