Antes de ter revelado a sua sabedoria em muitos livros que escreveu, mostrou-a tambem na sabia sentença que pronunciou, conhecida pelo nome de «juizo de Salomão». Teve ella a seguinte origem. Duas mulheres viviam juntas e tinham cada uma seu filho. Aconteceu morrer uma das creanças, e cada uma das mães dizia ser seu o que ficára vivo. Foram ambas ter com Salomão, para que decidisse a contenda. Decidiu o rei que se cortasse ao meio o menino disputado e que se désse metade d'elle a cada contendora. Uma das mães acceitou a sentença; mas a outra clamou que antes se désse o menino inteiro e vivo á sua rival. Assim concluiu Salomão que a verdadeira mãe era aquella que não consentia na morte da creança. Mandou por isso que esta lhe fôsse intregue.
Por espaço de muitos annos observou Salomão a lei de Deus, governando o seu povo com grande sabedoria e justiça; mas nos ultimos annos da vida prevaricou, edificando templos{17} aos falsos deuses, adorados por mulheres estrangeiras que tomou contra os preceitos de Deus. Não se sabe com certeza se chegou a arrepender-se d'este peccado, de que foi reprehendido pelo Senhor; mas julga-se que se arrependeu, compondo então o livro sagrado chamado Ecclesiastes, que figura no Novo Testamento e em que mostrou a vaidade das grandezas humanas.
A Salomão succedeu Roboão, seu filho, principe imprudente e tyrannico, que, pedindo-lhe o povo que o alliviasse dos tributos, respondeu que não só o não faria, antes os havia de augmentar e tratar os Israelitas como escravos. Vendo e ouvindo isto, dez tribus rebellaram-se contra Roboão, acclamando por seu rei a Jeroboão, homem sedicioso e impio; e só as tribus de Judá e de Benjamin ficaram na obediencia de Roboão, que se viu obrigado a fugir precipitadamente para Jerusalem.
Dividiu-se assim o reino em dois: a parte que permaneceu sujeita a Roboão chamou-se Reino de Judá, ou Judéa; a outra, que seguiu a Jeroboão, denominou-se Reino de Israel.
Jeroboão esqueceu a lei de Deus, mandou fabricar bezerros de oiro, que fez adorar como divindades, sendo assim causa da maior parte dos Israelitas cahirem em idolatria. Na mesma impiedade viveram os seus successores, os 21 reis que governaram Israel por espaço de 254 annos, findos os quaes foi o reino destruido pelos Assyrios e seu rei Salmanazar, que tomou Samaria e levou captivas as dez tribus de Israel.
No reino de Judá continuou-se a adorar o verdadeiro Deus, ainda que Roboão e muitos dos seus successores por varias vezes permittiram a idolatria; por isso foi o reino castigado pelo Senhor, que o intregou aos seus inimigos. O reino de Judá durou por 468 annos, contados do principio do reinado de David. Os peccados dos Judeus foram causa de Deus os intregar aos Chaldeus que, governados por seu rei Nabucodonosor, tomaram a cidade de Jerusalem, queimaram o templo do Senhor, e levaram os Judeus para o seu paiz. Este captiveiro chamou-se o «captiveiro de Babylonia» que durou por mais de 70 annos.
Foi dada a liberdade aos Judeus por Cyro, rei dos Médos, Persas e Chaldeus, o qual subjugou estes dois ultimos povos, ganhou varias batalhas e tomou Babylonia. Tomada esta cidade permittiu Cyro aos Judeus que regressassem á sua patria, o que se effectuou sob o mando do summo pontifice Josué e de Zobadel. Mal chegaram a Jerusalem, o seu primeiro cuidado foi a re-edificação do templo, a qual não poderam logo{18} levar a effeito por lh'o impedirem os Samaritanos, conseguindo por fim concluil-a Zorobabel, mediante o auxilio de Dario I. por pouco durou a independencia dos Hebreus. As reformas de Esdras, nas quaes se comprehendia a prohibição de casamentos com mulheres de outras nações, e a dissolução das familias até então constituidas contra esse preceito, originaram um scisma, em que parte do povo se reuniu aos Samaritanos, ficando a nação muitissimo infraquecida. Aproveitando este estado, subjugaram os Persas a Judéa, cuja historia desde então até á conquista de Alexandre se confunde com a das outras provincias humildes, sujeitas ao dominio d'aquelle imperador. Continuou a rivalidade entre os Judeus e os Samaritanos, aos quaes os primeiros não permittiam a intrada no templo de Jerusalem. Os Judeus não constituiam assim já um povo, mas uma simples communidade religiosa ou uma casta sacerdotal, isolada no meio das outras populações do grande imperio persa.
Realizada a conquista d'este imperio em tempo de Dario Codomanno, submetteu-se a Judéa ao conquistador, sem resistencia; por morte de Alexandre foi governada successivamente por Laomedonte e pelos reis do Egypto e da Syria. Com os Machabeus chegou a recobrar a sua independencia, sendo Aristobulo proclamado rei; mas repetidas guerras civis deram logar á intervenção dos Romanos na Palestina, chegando Pompeu a intrar em Jerusalem, que ficou desde essa epocha em estado de incompleta servidão.
Por fim realizou-se a annexação da Judéa aos dominios de Roma, sendo Herodes incarregado do governo d'ella pelo imperador Augusto; mais tarde augmentaram as dissensões e rixas, que desde o principio houvera entre Judeus e Romanos, o que levou Nero a mandar Vespasiano, seu general, para reduzir completamente á obediencia a Judéa. A conquista d'esta foi interrompida pelo regresso de Vespasiano a Roma, para assumir o governo imperial, e só veio a ser ultimada pelo imperador Tito, que foi em pessoa á Palestina com um exercito de 60:000 homens. Á vista do exercito romano, applacaram-se as contendas civis que havia em Jerusalem, e esta cidade defendeu-se durante muito tempo, com um denodo verdadeiramente heroico, contra o inimigo que a cercava. Por fim cahiu a ultima obra de defesa, a cidade foi invadida, e o templo incendiado. Os Judeus, perdida toda a esperança, mataram suas mulheres e filhas e suicidaram-se em seguida, preferindo isso a intregarem-se com vida aos Romanos. A tomada de Jerusalem deu-se no anno 70 da era christan. O{19} povo Hebreu perdeu, desde então e para sempre, a sua unidade politica, apezar de continuar até hoje a existir disperso pelo mundo, com os caracteres particulares da sua raça e da sua religião.
Já depois de submettida a Judéa aos Romanos, mas antes da tomada de Jerusalem, nasceu perto d'esta cidade, em Bethlem, Jesus Christo, quatro annos antes da era actual (ou era christan).