[CAPITULO II
OS EGYPCIOS]

As populações que primitivamente habitaram o valle do Nilo foram subjugadas, ou compellidas para o sul, por um povo vindo da Asia pelo isthmo de Suez. Passou-se isto em tempo anterior aos mais antigos monumentos historicos. Aquelle povo conquistador, que alli se estabeleceu, veio a constituir o que na Historia Antiga é conhecido pela denominação de povo egypcio.

Nada ao certo é conhecido quanto ao governo primitivo dos Egypcios, que se presume ter sido nos primordios theocratico ou sacerdotal. Parece provavel que aquelle paiz tinha chegado já a um certo estado de civilização e estava bastante povoado pela epocha de 2000 annos antes da era de Christo. Segundo Herodoto, foi Menés o fundador da monarchia egypcia, a qual durou 1663 annos, desde a sua origem até á conquista do Egypto por Cambyses. O dominio d'aquella monarchia limitou-se primeiro a Thebas, cidade fundada pelo mesmo Menés, e aos seus arredores; mas este monarcha accrescentou consideravelmente o seu territorio, construindo diques para impedir que o Nilo continuasse a alagar os seus campos marginaes. Nos terrenos assim conquistados ao rio, e na extremidade do delta d'este, edificou uma cidade grande e importante, que teve o nome de Memphis.

Dos seculos que se seguiram ao reinado de Menés apenas ha vestigios muito obscuros na Historia. Reinaram durante elles differentes dynastias, a mais notavel das quaes foi a quarta, de que foi fundador Snervu, e que se denominou «a dynastia dos Pharaós». Os tres Pharaós immediatos successores de Snervu foram Cheops, Khavrá e Mycerino, que se tornaram{20} celebres por haverem mandado construir as tres grandes pyramides, que foram destinadas a servir-lhes de tumulos. Situadas na planicie de Gyzeh, na margem esquerda do Nilo, a breve distancia de Memphis, são aquellas pyramides os mais notaveis monumentos da civilização egypcia. A de Cheops tem 147 metros de altura, a de Khavrá 138, e a de Mycerino 66. A mais alta foi construida em 30 annos, por 100:000 homens, que eram substituidos de seis em seis mezes.

Os reis de outra dynastia, a duodecima, tornaram-se notaveis pelas grandes obras hydraulicas que imprehenderam no Nilo, construindo um grande numero de canaes, para distribuirem as aguas pelas differentes regiões do sólo, afim de lhes augmentar a fertilidade e de prevenir as inundações.

Mais tarde, reinando Timaos, um povo originario da Asia (os Hyksos ou Pastores) invadiu o Egypto, cuja antiga civilização destruiu. A invasão, comtudo, não se extendeu além do delta do Nilo e do baixo Egypto. A parte, de que Thebas era capital, escapou á dominação dos Hyksos que porfim foram expulsos do paiz por Amenophis Thetmosis, descendente dos antigos reis do Egypto.

Entre os reis que succederam a este, houve notavel (alêm de outros) M[oe]ris que executou differentes obras muito importantes, no numero das quaes figura o famoso lago que tomou o nome d'elle, e que foi destinado a receber as aguas do Nilo, quando a sua grande abundancia ameaçasse o Egypto de ser totalmente inundado. Este lago fornecia agua, por um grande numero de canaes, a differentes zonas que fertilizava.

Tornou-se tambem muito notavel o rei Sesostris (Ramsés-Meiamun), que foi o primeiro que armou uma esquadrilha; bateu-se com os Arabes, que subjugou, e outrotanto fez aos Lydios e Ethiopicos. Imprehendeu a conquista da Asia; e, tendo deixado seu irmão Danao no governo do reino, bateu e derrotou os Assyrios, os Medos, os Scythas e os Phenicios; submetteu a Thracia, a Colchida, e chegou até ás margens do Ganges. Deixou por toda a parte inscripções, commemorando as suas victorias. Regressando aos seus estados, dedicou-se a promover o progresso das artes, felicitou o povo com uma paz duradoura, e accrescentou ás suas glorias militares a de ter fundado instituições politicas e promulgado leis de geral utilidade. Tendo cegado na velhice, não poude resistir a essa infelicidade e suicidou-se. Os Egypcios, gratos á sua memoria, ergueram-lhe templos, nos quaes lhe prestavam as mesmas honras que aos seus deuses. Por esse tempo tinha chegado o Egypto á phase do seu{21} maior esplendor. Tempos depois começou a pronunciar-se a sua decadencia, que as perturbações intestinas contribuiram bastante para precipitar. A Ethiopia proclamou a sua independencia; e os povos da Syria, sempre insubordinados e irrequietos, negaram-se a pagar os tributos. A unidade nacional veio a quebrar-se, e o paiz dividiu-se em vinte pequenos estados independentes. As rivalidades entre estes differentes estados levou-os a admittirem no seu seio os estrangeiros, cuja intrada até alli fôra sempre vedada no Egypto. Foi então que os Ethiopes e os Assyrios disputaram o paiz e fizeram conquistas que, comquanto não fossem duradouras, comtudo apressaram bastante a ruina da nação. Depois de expulsos aquelles dois povos, o Egypto ficou sendo governado outra vez por principes independentes. No delta do Nilo havia doze d'estes principes, os quaes constituiram uma confederação, formada dos seus estados, a que se chamou dodecarchia. Um d'aquelles principes, porêm, chamado Psammeticho I, derrubou á mão armada os outros principes e restabeleceu a unidade nacional. Durante o reinado d'este monarcha, ainda o Egypto se ergueu um pouco da sua decadencia e pareceu querer voltar ao seu antigo esplendor e grandeza; floresceram de novo as lettras, as bellas-artes e a industria; e continuaram outra vez um pouco as grandes obras de irrigação que estavam—havia muito—suspensas. Sustentou-se no throno durante 47 annos a dynastia de Psammeticho; no reinado de um dos seus descendentes, Amasis, teve o Egypto uns annos de certa prosperidade, a que logo poz termo a conquista persa, realizada por Cambyses. Desde esta até á conquista por Alexandre Magno medeiam dois seculos, durante os quaes os Egypcios tiveram politicamente uma existencia miseravel. Com a conquista pelos Romanos, depois da morte de Cleopatra, incerra-se a Historia Antiga do Egypto, que durou uns cincoenta seculos, e na qual se contam 34 dynastias.

Gosou sempre de grande fama a civilização dos Egypcios durante o periodo da Historia Antiga. Os proprios Gregos chegaram a gabar-se de que muitos dos seus philosophos e legisladores tinham ido á terra do Nilo instruir-se nas sciencias ou na arte de governar. Comtudo, fez-se em tempo uma idéa muito exaggerada do estado a que a sciencia havia chegado no Egypto. Attribuem-se a este povo conhecimentos mathematicos, e especialmente astronomicos, muito adeantados; mas não é averiguado que os possuisse em tal desinvolmento,—e bem poucos vestigios existiam d'elles, quando{22} alli foram da Grecia, Eudoxio e Platão. A religião, as artes e a philosophia, é que floresceram muito notavelmente n'aquelle paiz. As ruinas innumeraveis de que todo o seu sólo está coberto, bastariam para attestar o grande estado de esplendor a que elle chegou. A historia das artes apresenta alli muito mais caracteres de certeza do que a das sciencias. Os monumentos, as ruinas, os templos, os palacios, os colossos, que nem a acção do tempo nem a do homem puderam ainda destruir, dão conhecimento do elevado grau de perfeição até onde os Egypcios levaram a cultura das artes; mas, de todos os monumentos do Egypto, os mais assombrosos são sem duvida as pyramides (construcções colossaes que se vêem ainda em differentes pontos, e das quaes as tres mais notaveis são as de que atraz falámos).

O antigo governo do Egypto era theocratico; reinavam alli os sacerdotes em nome dos deuses. Os proprios reis estiveram quasi sempre sujeitos ao poder sacerdotal, que se mantinha principalmente por effeito da severa distincção das castas. Os sacerdotes constituiam a primeira d'estas, á qual se seguia a dos guerreiros, depois a dos interpretes, e a dos trabalhadores (divididos ainda estes em diversas classes, que nunca se confundiam). A todo o egypcio era prohibido sahir da condição em que nascêra e abraçar profissão que não fosse a de seu pae.