A persistencia do typo tradicional da Serranilha galleziana na colonia do Brazil liga-se e explica-se pela descoberta de um grande facto desconhecido até hoje na historia da humanidade—a civilisação da raça turaniana[15]. O problema desdobra-se em duas questões, que se ligam e se explicam. Nas fórmas lyricas da Europa da edade media, apparecem cantos communs á Italia e Sicilia, á França meridional, Aquitania, Galliza e Portugal. Esta unidade do lyrismo novo-latino levou a suppôr uma origem commum para todas as litteraturas meridionaes. Por outro lado a persistencia d'esse typo lyrico no Brazil, explicar-se-ha não só pelo isolamento e espirito archaico colonial, mas pelas grandes analogias com os cantos lyricos dos tupinambás, e sobretudo pela descoberta da ethnologia moderna da origem turaniana das raças ante-historicas da America. Tratemos separadamente de cada uma d'estas questões de litteratura comparada.
Um problema importante tem sido proposto pelos philologos romanicos sobre as analogias intimas entre as fórmas lyricas da poesia moderna das litteraturas nova-latinas, a começar da Provença. Dando conta na Romania, da publicação dos Canti antichi portoghesi, diz M. Paul Meyer: «Je remarque que plusieurs des piéces editées par M. Monaci (n.ᵒˢ IV, IX) sont fort analogues, pour le fond comme par la forme, à nos anciennes ballettes (voir celles que j'ai publiés dans mes Rapports, fl. 236—9) ou aux baladas provençales. Je n'en conclue pas que les poésies portugaises qui ont cette forme soient imitées du français ou du provençal, mais qu'elles sont conçues d'après un type tradicional qui a du être commun à diverses populations romanes sans qu'on puisse determiner chez la quelle il a été crée[16].» N'estas palavras se indica o problema da unidade do lyrismo moderno: nenhum philologo conseguiu ainda explicar a origem d'esta identidade de fórmas. O meio para o resolver está no criterio ethnico e comparativo; em primeiro logar a zona d'onde irradiou o lyrismo que se propagou para a Provença, Italia, Sicilia, Galliza e Portugal, foi na Aquitania; é tambem pelo criterio ethnico que se conhece que n'esta zona existiu uma raça iberica, absorvida pelos immigrantes indo-europeus, raça cujas tendencias e até fórmas lyricas peculiares se confirmam pelos hymnos acadicos modernamente traduzidos pelos assyriologos. As recentes descobertas da civilisação turaniana, que antecedeu as grandes civilisações historicas, a persistencia das superstições accádicas dos cultos magicos na Europa da edade media, tornam este facto da unidade do lyrismo como uma simples evolução.
O estudo comparativo das litteraturas tem levado a aproximar certas formas tradicionaes muito antes de se conhecer se entre ellas existiria alguma connexão historica; as analogias intimas têm por vezes conduzido a procurar essas relações, que se vão verificando do modo mais surprehendente. No lyrismo popular da Europa, a começar desde a epoca provençal, existem formas espontaneas, taes como as Pastorellas, que se repetem em todos os povos meridionaes, sem que estas differentes nacionalidades, tão separadas pelo regimen monarchico, se imitassem mutuamente; este genero de cantos penetrou na litteratura da egreja da edade media, sob a forma de Prosas, e nos Cancioneiros aristocraticos sob a forma de Serranilhas e Dizeres. A diffusão commum d'este genero de origem popular era attribuida á situação geographica especial da Aquitania, cujas escholas trovadorescas podiam influir simultaneamente em França, na Italia e em Portugal e em Hespanha; o estudo ethnico da Aquitania leva a descobrir que esse territorio foi primitivamente occupado pela raça ainda agora representada pelo Basco actual, isto é, pela raça turaniana. N'este mesmo typo de cantos lyricos entram as pastoraes sicilianas; e a Serranilha portugueza foi encontrar nas colonias do Brazil analogias com os cantos dos tupis, modernamente filiados no mesmo tronco turaniano. Eis determinada uma origem ethnica commum para explicar as analogias de uma vasta tradição lyrica popular. Pelas modernas leituras dos documentos cuneiformes, têm-se conhecido o eminente genio lyrico da raça turaniana conservado na inspiração perpetuada nos hymnos accadicos. Sobre este ponto são de grande auctoridade as palavras de F. Lenormant, explicando alguns d'esses hymnos: «Ao mesmo tempo elles nos revelam no povo de Accad um verdadeiro impulso de inspiração poetica, que exerceu uma acção decisiva sobre os começos da poesia semitica e contribuiu para formar-lhe o seu genio. Ha ali um lyrismo que attinge por vezes uma grande elevação, e que desde já deve revindicar o seu logar na historia litteraria do Oriente antigo. Além d'isso, a critica deve tambem attender aos fragmentos de um lyrismo mais familiar, popular e gnomico, que parece ter tido entre o povo de Accad um grandissimo desenvolvimento, e do qual os hierogrammatas do Assurbanipal formaram collecções. São proverbios rythmados, provenientes de antigas canções. Já se publicou a copia de um tijolo que contém um grande numero d'elles, e M. Oppert já notou a importancia d'esta collecção traduzindo alguns dos seus proverbios... De mais, M. George Smith annunciou ter descoberto nas suas excavações recentes na Assyria uma outra collecção egual, que entregou ao Museu Britannico. Ha d'este lado uma mina a explorar, e que promette ser fecunda.
«Alguns proverbios não consistem em mais do que uma simples phrase, extraída evidentemente de um canto mais desenvolvido, e que a felicidade da expressão tornara sem duvida proverbial, como esta sobre o calcadouro da colheita:
—Diante dos bois, que caminham a passos apressados sobre as espigas, ella calcou vivamente.
«Muitas vezes cada um d'elles forma um todo completo no seu laconismo, uma pequena canção de alguns versos,—se é que se permitte esta expressão quando ainda é desconhecido o rythmo e o metro—que lembra as velhas canções populares chinezas do Chi-King. Em geral o pensamento é de uma lhaneza delicada, ás vezes maliciosa e um pouco melancholica, com uma feição de philosophia pratica. Tal é este pequeno trecho, que exprime a inutilidade dos esforços excessivos:
—Eu fiz ir bem para o alto meus joelhos,
a meus pés não deixando repouso,
e, sem nunca ter descanço,
o meu destino afastou-se sempre...