Vayamos, irmana, vayamos dormir

nas ribas do lago, hu eu andar vi

a las aves meu amigo.

Vayamos, irmana, vayamos folgar

nas ribas do lago, hu eu vi andar

a las aves meu amigo! etc.[18]

O mesmo se repete nos cantos populares liturgicos da edade media, derivados de uma corrente desconhecida da tradição popular. Lenormant achou grandes analogias entre a forma d'essas Pastorellas accadicas e as cantigas chinezas da collecção Chi-King; de facto o turaniano é uma raça mixta da branca e amarella, e a concepção chineza naturalista do Thian é a mesma dos espiritos elementares da Chaldêa, o espirito do céo Zi-Anna, dos turanianos. Por ultimo o typo dos Proverbios de Salomão é tambem fixado por Lenormant nos velhos hymnos accadicos. Todos estes factos estão em harmonia com as recentes descobertas da historia, que tanto as civilisações semiticas como aryanas se fundaram sobre os progressos já realisados pela mais poderosa das raças ante-historicas, a turaniana.

Sob este criterio novo, as raças da America apparecem como um grande ramo turaniano, cujas linguas são agglutinativas, cujas crenças são um fetichismo atrazado: «São mui dados a feitiços, e o feiticeiro que ha em cada aldeia é o seu oraculo[19].» D'Assier recorda um facto importante: «lembram o typo mongolico, a ponto de um d'elles... criado de Augusto Saint Hilaire, vendo um dia uns chinezes n'uma rua do Rio de Janeiro, correu para elles chamando-lhes tios[20].» Em Cuyabá e no Paraguay existem aterros artificiaes em que se levantam edificações, como costumavam fazer os turanianos de Babylonia e da Assyria; a sua chronologia baseava-se sobre o anno lunar[21] como no primitivo systema chronologico dos turanianos do Egypto; e entravam nas batalhas, ululando, tal como descreve Silio Italico, das tribus ibericas[22]. Finalmente, as analogias das linguas americanas com o sansckrito, explicam-se por um grande fundo de vocabulos turanianos das raças vencidas (sudras, kadraveas) sobre que se constituiu a civilisação aryana. Assim os factos são trazidos ás suas causas naturaes.

No livro recente l'Origine turanienne des Américains Tupis-Caribes, já se procura verificar esta grande these ethnographica, que liga as raças das duas Americas á raça mestiça que prestou os primeiros elementos ás civilisações do Egypto e da Chaldêa. Alguns dos caracteres do tupi coincídem com o genio turaniano, como o gosto da poesia e da musica; no manuscripto do Roteiro do Brazil, da Bibliotheca de Paris, o tamoyo é descripto como grande musico e bailador; e os tupinambás eram os rhapsodos, improvisando Areytos segundo esse genio epico que na Chaldêa inventou o poema de Isdubar, no Mexico o Popol-Vuh, e na Finlandia o Kalevala. Os seus cantos lyricos, entoados ao som da maraca e do tamboril constavam de refrens rimando com o ultimo verso da estrophe, e podendo ser considerados como voltas sobre motes improvisados; esta caracteristica, ajudando a facilidade da improvisação, os dialogos ajudando a monotonia da melopêa, tudo leva a presentir em germen o mesmo typo poetico que na Europa deu a Ballada, a Pastorella e a Serranilha; d'aqui a espontaneidade da confusão da poesia dos dois povos, e o motivo da persistencia da Serranilha portugueza na Modinha brazileira e no seu lyrismo moderno.

Os cantos funebres conservam a mesma designação tanto entre os Tupis como no Béarn; lá são os Areytos, e aqui os Aurusta. Os cantos funebres são communs a todos os povos meridionaes em que existe elemento turaniano; taes são os Lamenti ou Triboli em Napoles, os Attitidos na Sardenha, os Voceri, na Corsega, na Bretanha, os Aurost no Béarn, e as Endexas e Clamores em Portugal e Hespanha. Gonzalo Fernandes de Oviedo, na General y Natural Historia de Indias, emprega a designação de Areyto, como o romance narrativo hespanhol:[23] «ni los niños é viejos dejarán de cantar semejantes areytos...»