Na moderna nacionalidade brazileira, a lingua tambem se vae alterando, constituindo um verdadeiro dialecto do portuguez; cada um dos elementos da mestiçagem contribue com as suas alterações especiaes[30]. O elemento colonial modifica a accentuação phonetica, de um modo mais exagerado do que nas ilhas dos Açores; o som do s, como o ch gallego, torna-se sibilante e mavioso sobretudo nos pluraes; as construcções grammaticaes distinguem o se condicional do reflexivo si, e os pronomes precedem os verbos, como: Me disse, em vez de disse-me. No vocabulario, o portuguez conserva os seus provincianismos actuaes, e os archaismos do tempo da colonisação. Da parte do elemento ante-historico, uma certa indolencia na pronuncia exerce a grande lei da queda das consoantes mediaes e vogaes mudas; assim senhor é siô; senhora, sinhá; os finaes das palavras vão se contrahindo, perdendo os seus suffixos caracteristicos, como pió em vez de peor, casá, em vez de casar. Na parte do vocabulario é que se nota mais profundamente a acção do elemento ante-historico, pela profusão innumera de palavras de lingua tupi introduzidas na linguagem familiar de todo o imperio[31]. Algumas d'essas palavras já vão penetrando na lingua portugueza continental pelo regresso dos colonos ricos[32], assim como nas guerras de Flandres os soldados portuguezes trouxeram esses vocabulos que se chamaram frandunagem. A lucta instinctiva para manter a pureza da lingua portugueza está ligada ao facto politico da preponderancia do sangue portuguez na constituição da nova nacionalidade; assim na provincia onde o portuguez é mais archaico, em Minas Geraes, o elemento portuguez é puro e continúa a ser catholico como no seculo XVI, e conservador timorato. Nas provincias onde prevalece o cruzamento das raças selvagens, existe o espirito revolucionario, como em Sam Paulo, e o odio ao portuguez puro como em Pernambuco. Aqui estão as condições necessarias para um permanente estimulo contra a acção enervante do meio climatologico, um movel de energia scientifica e industrial; a capital do Rio de Janeiro pelo seu inextricavel cosmopolitismo está destinada a realisar o accordo de todos estes elementos para a obra da autonomia nacional, cujo sentimento, transparecendo já na litteratura, revela que o destino d'ella é identificar todas as divergencias n'este mesmo sentimento.

O moderno lyrismo brazileiro representa nas suas fórmas materiaes ou estrophicas a velha tradição das Serranilhas portuguezas tão bem assimiladas pelo turaniano da America; a ardencia explosiva da paixão amorosa, a lubricidade das imagens, a seducção voluptuosa do pensamento, accusam o sangue do mestiço, devorado pelo seu desejo, como em Alvares de Azevedo ou Casimiro de Abreu. A creação definitiva da litteratura brazileira consiste em tornar estes factos conscientes.

NOTAS DE RODAPÉ:

[10] «Como na America do norte o Anglo-saxonio, fundindo-se com o pelle vermelha, produziu o Yank, representante de uma nova civilisação, assim o latino, fundindo-se com o tupi, produziu essa raça energica que constitue a quasi totalidade da população de S. Paulo e Rio Grande, e a maioria do novo imperio.» Dr. Couto de Magalhães, O Selvagem, p. XX.

[11] Na visita pastoral de 1761, o bispo do Grão Pará, Frei João de S. José Queiroz allude á paixão das Modinhas, que achou confundidas com os cantos religiosos: «ouvimos missa, a qual foi cantada pelas suas indias e mamelucas a quatro vozes bem ajustadas, e no fim varias cantatas devotas e de edificação sobre o que lhe fizemos uma pequena pratica em louvor do canto honesto e ao mesmo tempo invectiva contra o lascivo das Sarabandas e Modas do tempo.» Mem., p. 210.

No fim do livro dos Lyricos brazilleiros apresentamos uma pequena collecção de cantos populares; os cantos epicos ou romances conservaram o nome de Xácaras, não com sentido de dialogo, como as Xacarandinas hespanholas e portuguezas do seculo XVII, mas por se conservarem nas relações domesticas nas Chacaras ou fazendas do interior.

Os cantos lyricos conservam ainda o nome de Lunduns, designação que se encontra em Sá de Miranda, e em Nicolau Tolentino:

Em bandolim marchetado

Os ligeiros dedos promptos,

Louro peralta adamado