[29] Poésies bearnaises, p. 214.

[30] «Os sertenejos dizem: Elles estão falla fallando, para indicar que elles estão fallando muito. Numerosas formas da lingua tupi passaram para o portuguez do povo; e como é o povo quem no decurso de seculos elabora as linguas, essa se hade transformar ao influxo principalmente d'essa causa, de modo que dia virá em que a lingua do Brazil será tão diversa do portuguez, quanto este é do latim.» Dr. Couto de Magalhães, O Selvagem; I. Curso de lingua tupi, p. 79.

[31] «O cruzamento d'estas raças ao passo que misturou os sangues, cruzou tambem (se me é licito servir d'esta expressão) a lingua portugueza, sobretudo a linguagem popular. É assim que, na linguagem do povo das provincias do Pará, Goyaz e especialmente de Matto-Grosso, ha não só quantidade de vocabulos tupis e guaranis accomodados á lingua portugueza, e n'ella transformados, como ha phrases, figuras, idiotismos, e construcções peculiares ao tupi. Este facto mostra que o cruzamento physico de duas raças deixa vestigios moraes, não menos importantes do que os do sangue.» Dr. Couto de Magalhães, O Selvagem, p. 76.

[32] Temos Caipira, etc.

III

Entre os differentes dialectos romanicos da peninsula nenhum recebeu mais prematuramente a forma escripta do que o gallego, pelo qual se introduziu a poesia provençal nas côrtes de Portugal e de Hespanha[33]; por circumstancias politicas nenhum perdeu tão cedo a vida litteraria, ficando apenas fallado por um povo desde muito tempo annullado pela absorpção castelhana. Ao formarem-se as primeiras litteraturas da peninsula, o gallego foi a linguagem em que se poetava na côrte de Castella, como se vê pelas Cantigas de Affonso o Sabio, e na côrte de Portugal, como está bem patente nas mil duzentas e cinco canções do Cancioneiro da Vaticana, e nos centenares de canções da collecção da Ajuda; por esse dialecto hoje desprezado, admittido apenas para uso das relações intimas das necessidades infantis, é que se podem explicar certas formas litterarias, como as Serranilhas, e certos phenomenos linguisticos do portuguez e castelhano como o che por te e por pl. Effectivamente, a Galliza deve ser considerada como um fragmento de Portugal, que ficou fóra do progresso de nacionalidade. Apesar de todos os esforços da desmembração politica, a Galliza não deixou de influir nas formas da sociedade e da litteratura portugueza: nas luctas de D. Affonso II, refugiaram-se na Galliza bastantes trovadores portuguezes, como João Soares de Paiva, e nas luctas de D. Fernando, refugiaram-se em Portugal um grande numero de familias nobres da Galliza, como os Camões, os Mirandas, os Caminhas, d'onde provieram os grandes e os maiores escriptores da esplendida epoca dos Quinhentistas.

Nas epocas em que a litteratura portugueza fixava as formas da lingua, ainda bastantes vestigios do gallego transparecem inconscientemente na linguagem dos escriptores, quando se aproximam da dicção popular. No Cancioneiro de Resende, em um Vylancete do Conde de Vimioso, se acha o galleguismo:

querend' esquexer-vos (fl. 85, col. 6.)

Nas comedias de Jorge Ferreira, cheias de locuções populares, abundam estes factos: «pagam-se de bem che quero;» (Eufros., 259) «fallou o boi e dixo bee;» (ib. 279) na comedia Aulegraphia: «Sempre fostes d'esses dichos.» (fl. 37 v.) «o som de bem che farei e nunca lhe fazem.» (fl. 20); «minha madrinha é azougue, e joga o dou-che-lo com quantos aqui ancoram.» (fl. 59, v.) «Andaes vós a bons dichos de philosophos.» (fl. 76. v.)

Em Sá de Miranda, nas Eclogas, sobretudo quando imita a linguagem popular, pollulam os galleguismos: