Aquellos muntaynos
Que tam hautos sun,
M'empachon de beyre
Mas amus un sun;
Baycha-bus, muntaynos,
Planos, hausabús,
Perque posqui beyre
Un sun mas amús[45].
A persistencia da tradição lyrica na Galliza, é que a tornou o centro de irradiação litteraria nas côrtes peninsulares onde o seu dialecto era empregado na linguagem poetica, como o provençal no norte da França. A conquista romana veiu muito cedo influir na constituição do dialecto gallego, sem alterar a tradição poetica; influiu bastante na forma da industria agricola. Diz Sarmiento: «Galicia, mi patria, es la Provincia que mas voces latinas conserva, y en especial en quanto toca á agricultura. Digolo, porque lei por curiosidad de verbo ad verbum, á Caton, Varron, Columella y Palladio[46].» A Galliza foi o primeiro territorio da Peninsula que sofreu e ficou submettido á invasão dos barbaros do norte; os Suevos, que se apoderaram d'ella eram um dos ramos mais civilisados das raças germanicas, e chegaram a estender o seu dominio até ao Tejo. A sua derrota, por Theodorico, na batalha de Urbius, restringiu-os ao territorio gallaico, e a sua adopção do catholicismo, fez com que o Suevo perdesse os seus mythos odinicos, e por tanto não pode elaborar os cantos epicos, que teriam sido um estimulo de resistencia e de cohesão nacional. Por causa do catholicismo entraram em conflicto com os Vandalos, que seguiam as doutrinas de Ario, e pelo catholicismo veiu a prevalecer a erudição morta das escholas latinas, dando ao novo dialecto uma forma bastante artificial. Uma vez privado das antigas ambições de conquista e da actividade das armas, o Suevo ficou sedentario, e pelas condições do territorio em que estava limitado, entregou-se ao trabalho da agricultura; o lyrismo desenvolveu-se sob as emoções da vida rural, mas a emphyteuse romana, e os direitos de mão-morta tornaram a lavoura um trabalho de servos e a Galliza um paiz de desgraçados. A influencia da lingua dos suevos sobre o gallego actual fazendo com que tivesse uma poesia muito mais cedo do que as outras linguas da Peninsula, é assim caracterisada por Helfrich e Declermont: «Comparando a vocalisação do dialecto suabio actual á do portuguez, julga-se ter achado a solução do problema. Foram os Suevos, que, primeiro do que todas as outras tribus germanicas se estabeleceram na Galliza, e admittindo que a lingua allemã recebesse na bocca dos Suevos, desde a sua primeira apparição historica, uma vocalisação distincta da do gothico, não custará a attribuir a intonação nasal, particular ao dialecto suabio, e que se encontra de uma maneira surprehendente no portuguez, á influencia da lingua dos Suevos sobre o novo-latino que acabava de se formar unicamente na Galliza[47].» E Sarmiento, tão investigador das antiguidades da Galiza, affirma: «Quando Portugal estaba em posesion de los Moros, se hablava ya en Galicia el idioma vulgar, aunque dudo que se escribiesse; como ni aun hoy se escribe. Pero esto no impide que se cantasse, e que en el se hiciesen varias coplas, que despues se pasaran al papel...» (op. cit., p. 200). D'estes cantos populares existem preciosos especimens no Cancioneiro da Vaticana, mas sobretudo existe a canção épica com que o genio do Suevo reagiu contra a invasão arabe da peninsula; tal é a tradição de Peito Burdello, gallega na forma, conservada em Portugal:
No figueiral figueiredo