A no figueiral entrei;
Seis nenas encontrara
Seis nenas encontrei...[48]
D'outras formas epicas conserva-se apenas a designação de Chacone, tambem commum a Portugal, Hespanha, França e Italia, como vestigio do elemento germanico (wisigothico, franko e lombardo). O mais antigo romance hespanhol hoje conhecido, tem a fórma gallega, e foi por nós restituido sobre o apographo da Vaticana[49].
Uma das causas porque a lingua gallega se tornou o dialecto particular da poesia lyrica tanto de Portugal como de Castella alem da communicação primeira com os trovadores da Aquitania, está no estado de desenvolvimento politico d'estes dois paizes. Castella, não tinha ainda dominado as differentes provincias de Hespanha, nem garantido contra ellas a sua propria independencia; a unidade soberana das Hespanhas era disputada pelo Aragão e por Leão. Só no meiado do seculo XV, sob Fernando e Izabel é que essa unidade politica se fez; e é a datar d'esse tempo que a lingua castelhana toma desenvolvimento, reduzindo as outras linguas a dialectos restrictos e particulares; era no principio do seculo XV que o marquez de Santillana fallava do uso gallego na poesia castelhana não só referindo-se ás poesias de Affonso o Sabio, educado na Galliza, mas a essa especie de renascença do genio poetico da Galliza em Villasandino, em Macias e Juan Rodrigues del Padron, seus contemporaneos. A influencia da lingua gallega cessa no momento em que o castelhano, por effeito da unidade politica, se constitue em disciplina grammatical e em lingua official. N'este mesmo periodo do seculo XV já a lingua portugueza estava mais contraída do que a castelhana, já distinguia a sua epoca archaica, porque desde a constituição da nacionalidade portugueza ou melhor, desde que recebeu forma escripta, não teve nunca a lutar com as aberrações dialectaes, e por isso o seu desenvolvimento em vez de dispender-se em unificação deu-se no sentido do neologismo e da disciplina.
Mas o uso da lingua gallega em Portugal, sobretudo na poesia, proveiu, em parte, do elemento aristocratico, e em parte pela immobilidade d'esse dialecto, que era uma como especie de apoio no meio das perturbações que as colonias francezas e inglezas, e as povoações mosarabes e mudgares conquistadas podiam produzir na nova sociedade. A separação do portuguez do gallego consistiu na immobilidade do mesmo dialecto em um ponto, e do seu progresso successivo e litterario em outro.
Os limites da Galliza, na epoca da constituição da nacionalidade portugueza, demonstram materialmente a relação em que estavamos para recebermos e imitarmos essa poesia popular e esse novo dialecto. Diz Herculano: «No seculo XI a extrema fronteira da Galliza ao occidente, parece ter-se dilatado ao sul do Douro, nas proximidades da sua foz, pela orla do mar até alem do Vouga; mas seguindo ao nascente o curso d'aquelle rio, os sarracenos estavam de posse dos castellos de Lamego, Tarouca, S. Martinho de Mouros, etc.[50]» No antigo Cancioneiro da Ajuda, encontra-se a cada verso o xe, por te:
Fazer eu quanto x'el quer fazer. (Canc. n.º 55.)
Mais pois vejo que x'el quer assi
Poil-o el faz xe me mal fazer. (N.º 158.)