Estas fórmas explicam-nos a tendencia da lingua portugueza em converter a combinação pl em ch, como em plus, chus, plantar, chantar, planto, chanto, plano, chão, platus, chato, que na corrente erudita se conservam na sua pureza latina, como plantar, pranto, plano, prato. O Cancioneiro da Vaticana conserva entre os trovadores portuguezes muitos poetas gallegos taes como Affonso Gomes, jograr de Sarria, Fernam Gonçalves de Senabria, João Ayras, burquez de Santiago, João Romeu, de Lugo, João Soares de Paiva, que foi morrer á Galliza por amores de uma infanta, João Vasques, de Talavera, Martim de Pedrozelos, João Nunes Camanes, Vasco Fernandes de Praga e outros muitos. A Galliza, nas luctas da côrte portugueza no tempo de D. Affonso II, D. Affonso III e D. Fernando I, foi uma especie de paiz neutro para onde se acolhiam os fidalgos portuguezes; os fidalgos gallegos recebiam em Portugal o melhor acolhimento e não receiaram seguir o partido de D. Fernando, tendo por isso de se refugiarem na sua côrte depois de vencidos. Aquelles poetas quinhentistas portuguezes, Sá de Miranda e Camões, que ligaram ao nome de gallego um sentido de desprezo, eram oriundos d'esta emigração politica do fim do seculo XIV; e foram elles que acharam a feição nacional da nossa poesia e nos libertaram da subserviencia litteraria de Castella, em que estavamos, como se vê pelo Cancioneiro geral, de Resende.
Era preciso que a tradição poetica popular da Galliza fosse profunda para que, ainda depois de Affonso o Sabio, quando já a Galliza não tinha vida politica, produzisse poetas lyricos de tal forma inspirados, como Villassandino, Macias, Juan Rodrigues del Padron, Jerena e Arcediago do Toro, para que no fim do seculo XIV luctassem contra a influencia do novo lyrismo da Italia, que entrava por Sevilha. Nas litteraturas a fecundidade e originalidade individual correspondem sempre á existencia de um vigoroso elemento de tradição popular; esta grande lei da critica moderna verifica-se na Galliza. No meado do seculo XV escrevia o Marquez de Santillana ao Condestavel de Portugal: «E depois acharam esta Arte, que Maior se chama, e Arte Commum, creio, nos reinos de Galliza e Portugal, onde não ha que duvidar, que o exercicio d'estas sciencias mais do que em nenhumas outras regiões e provincias de Hespanha se costuma; em tanto gráo, que não ha muito tempo, quaesquer Dizidores ou Trovadores d'estas partes ou fossem Castelhanos, Andaluzes ou da Extremadura todas as suas obras compunham em lingua gallega ou portugueza. E ainda é certo que recebemos os nomes de arte, como: maestria mayor, e menor, encadenados, lexapren e mansobre[51].»
D'este trecho, se infere: 1.º Existencia da Arte commum, usada pelos Dizidores, que compunham em maestria menor essas obras que o Marquez no § XV chama «cantigas, Serranas e Dizeres portuguezes, e gallegos.» 2.º Que a par d'esta fonte popular coexistia a Arte Mayor, usada pelos Trovadores, que escreviam em metro limosino ou endecassyllabo, (eschola da Aquitania) sendo as suas composições mais artificiaes, como os encadenados, lexapren e mansobre. 3.º Que o dialecto gallego era usado na poesia lyrica tanto em Portugal, como em Castella, na Extremadura e Andaluzia. No seculo passado teve o erudito Sarmiento uma polemica com Don Thomaz Sanchez, tomando no sentido mais absoluto as palavras do Marquez de Santillana: «Yo como interessado en esta conclusion, por ser gallego, quisiera tener presentes los fundamentos que tuvo el Marquez de Santillana; pero en ningun Autor de los que he visto, se halla palabra que pueda servir de alguna luz[52].» No tempo de Sarmiento já eram estudadas as poesias de Affonso o Sabio escriptas em dialecto gallego, conforme o reconheciam Diego Ortiz de Zuniga e Papebroquio e hoje todos os philologos. Sarmiento depois de reconhecer tambem a lingua em que escreveram Macias e Padron, conclue: «De este modo se entiende y se confirma lo que escribió el Marquez de Santillana sobre el idioma de los antiguos Trobadores castellanos, andaluces y estremenhos.» (p. 200.) Quando o Marquez de Santillana assignalava esta influencia da Galliza, escrevia «não ha muito tempo»; este limite da influencia gallega assigna-se em Hespanha com a introducção da imitação italiana em Castella por Micer Imperial, e com relação a nós os portuguezes com a imitação de João de Mena começada pelo infante D. Pedro. O ultimo vestigio d'esta unidade poetica da Peninsula foi assignado por Sarmiento na comparação dos Adagios gallegos: «Los Adagios gallegos son los mismos que los de los Portuguezes y Castellanos mas antiguos[53]; y los Catalanes, que son semejantes á los Francezes...» (Ibid., 178.) No seculo XV ainda em Portugal Camões escreveu dois sonetos em lingua gallega, cuja intenção se não pode conhecer; no seculo XVII o Marquez de Montebello caracterisa o gosto das mulheres de Braga pelo canto em córos, tal como no seculo XVIII observa Sarmiento na Galliza; diz o Marquez: «Com grande destreza se exercita a musica, que é tão natural em seus moradores esta arte, que succede muitas vezes aos forasteiros que passam pelas ruas, especialmente nas tardes do verão, parar e suspenderem-se ouvindo as trovas que cantam em córos com fugas e repetições as raparigas, que, para excitar o trabalho de que vivem lhes é permitido...» (Vida de Manoel Machado de Azevedo.) Sarmiento escrevendo em 1741, observa tambem a influencia da mulher na poesia popular da Galliza: «Ademas d'esto he observado que en Galicia las mujeres no solo son poetisas, sino tambien musicas naturales.» (P. 237.) Esta caracteristica explica-se ethnicamente: «los paizes que estan entre los dos rios Duero y Miño, pertenecian á Galicia y no á Lusitania. Ptolomeo expresamente pone dos classes de gallegos: unos Bracharenses cuya capital era Braga; y otros Lucenses, cuya cabeza era Lugo. Pero despues que Portugal se erigió en reyno á parte, agregó muchos paizes de Galicia. De esto ha resultado que muchas cosas, que en realidad son gallegas han passado por portuguezas; etc.» (Ib. p. 201.) Isto se pode applicar á antiga tradição do Peito Burdelo ou do tributo das donzellas, versificada na Galliza, e hoje só conhecida em Portugal[54].
Caracterisando a poesia popular da Galliza, continúa Sarmiento: «Generalmente hablando, assi en Castilla como en Portugal y en otras provincias los hombres son los que componem las coplas e inventam los tonos ó ayres; y ahi se vé que en este genero de coplas populares, hablan los hombres con las mujeres ó para amarlas ó para satyrisarlas. En Galicia es el contrario. En la mayor parte de las coplas gallegas hablan las mujeres con los hombres; y es porque ellas son las que componen las coplas sin artificio alguno; y elas mismas inventan los tonos ó ayres a que las han de cantar, sin tener ideia del arte musico.» (Ib. p. 237.) Este caracteristico é mui bem observado, com a differença porém, no que diz respeito a Portugal, se deve exceptuar o Minho, o qual, não só pelo que vimos do trecho do Marquez de Montebello, como pelo estado actual da tradição alli, são as mulheres que exclusivamente cantam e improvisam, e os homens em geral conservam-se mudos, pelo seu estado de estupidez. Um moderno escriptor que viveu no Minho, dá-nos a seguinte noticia do estado da poesia popular: «Passei á orla das cortinhas onde mourejavam as moças da aldeia, e ouvi-as cantar ladainhas e versos de Sam Gregorio. Quedaram de cantar e romperam n'um murmurio monotono: resavam a corôa.» O phenomeno da Galliza e do Minho em que as mulheres são as que conservam a poesia, é o resultado da sua ultima decadencia; os padres prohibem as cantigas amorosas e impõem a Ladainha ou o Bemdito. As Romarias, são um meio em que o fanatismo das classes populares se concilia com as suas tradições lyricas; a Galliza e o Minho tem as Romarias como as suas festas mais queridas, como o pretexto dos seus cantos e dansas. Muitas das antigas Serranilhas do Cancioneiro da Vaticana alludem aos logares das romarias:
Ir a San Salvador...
A la egreja de Vigo...
Ir a Santa Cecilia...
Ora vou a San Servando...
Ide a San Mamede, ver-me-hedas... etc.
Estes versos formavam um genero ainda conhecido em Portugal no principio do seculo XVI pela designação de Cantos de ledino. A descripção que Sarmiento faz d'este costume da Galliza corresponde tambem ainda hoje ao nosso Minho: «Aun hoy executan lo mismo aquelles nacionales quando van á algun santuario ó Romeria. Siempre van en tropa hombres y mujeres. Estas cantando coplas al asunto y tocando un pandero; uno de los hombres tañendo flauta; y otro ó otros dançando continuamente delante hasta cansarse, y entran otros despues. Es verdad que non lleban armas para batirlas al compas, pelo lleban en su logar un genero de instrumento crustico que en el pais llaman ferreños (em portug. ferrinhos) y en Castella sonajas[55].» Pela poesia popular da Galliza se explicam as formas dos Cantares de Amigo dos nossos Cancioneiros aristocraticos, as Serranilhas, cujos refrens ainda prevalecem hoje no lyrismo brazileiro, os cantos guayados e de ledino, ainda lembrados em Portugal no seculo XVI, os caracteristicos dos cantos do Minho entoados por mulheres e ao mesmo tempo a falta de tradições epicas.