Ó pee d'huna torre
bayla corpo e giolo,
vedel o cós, ay cavalleiro.»
(Canc., n.º 1043.)
Estes vestigios accentuam a corrente popular que entrou nos Cancioneiros, e nos dão a origem das mais bellas composições ou fórmas tradicionaes que ahi se conservam.
Portugal, Galliza e Brazil tão separados pelas vicissitudes politicas, conservam ainda inteira a sua unidade ethnica na tradição litteraria. É o que pretendemos fazer sentir n'este livro.
Pelo estudo da sua tradição é que as nacionalidades revivem; é pelo conhecimento do seu desgraçado passado que Portugal saberá traçar o seu novo destino. Na moderna nacionalidade brazileira o elemento portuguez da provincia de Minas, está destinado a manter a integridade de um povo facil a ser desnaturado por um excessivo cosmopolitismo. No seculo passado começou na Galliza um movimento nacional da tradição, pelos eruditos Feijó, auctor do Theatro critico, Sarmiento, o que até então melhor estudou as origens litterarias de Hespanha, e Sobreyra, que deixou os manuscriptos Ideia de un Diccionario de la lengua gallega. No emtanto as agitações napoleonicas embaraçaram esse progresso local, e a Galliza annullada pela centralisação castelhana, perdeu a sua lingua. Esta queda reflecte-se no annexim popular:
Sei que porque estás na Coruña
Xa non queres falar en galego[56].
O afastamento da Galliza de Portugal provém do esquecimento da tradição nacional e da falta de plano politico em todos os que nos tem governado. Em Portugal o espirito moderno penetra, mas ainda, é considerado como revolucionario. Na Galliza o estudo da tradição recomeçou já; a lingua tem já uma grammatica composta por D. Xam Anton Saco Arce[57], e um diccionario por D. Juan Cuveiro Pinhol; tem já uma historia, por D. Manoel Murguia, e a poesia é cultivada por vultos sympathicos como Elvira Luna d'o Castillo, D. Rosalia Castro de Murguia, D. Ramon Rua Figuénsa, Valentin L. Carvajal, Alberto Camiño, D. José Benito Amado, e Turnes, que fazem reviver esse dialecto outr'ora peculiar das côrtes peninsulares. E por isso que cada paiz tem o seu lyrismo bem caracterisado, em Portugal a poesia é o unico agente da ideia avançada que trabalha para a transformação futura; no Brasil predomina ainda a feição colonial, conservando as fórmas perdidas desde o seculo XVI na poesia portugueza; na Galliza, a poesia tem a ingenuidade e o fervor de uma renascença.