Fonseca, Evora gl. p. 181.

[6] Até 1839 attribuia-se ao Dr. Jose Anastacio da Cunha a poesia a Voz da Razão; hoje temos a prova de que foi Bocage o seu auctor. Deixemos aqui esse processo critico, já que o não podémos incluir no nosso livro Bocage, sua vida e epocha litteraria. No processo do Santo Officio contra Jose Anastacio da Cunha não se allude nem remotamente á Voz da Razão, e Innocencio (Dicc. bibl., t. IV, p. 225) sustenta como absolutamente infundada a opinião vulgar, não se atrevendo comtudo a poder determinar quem fosse o verdadeiro auctor. A favor de Bocage apresentamos os seguintes factos: 1.º Na edição da Voz da Razão, de 1822, é que se lhe impoz este titulo, porque nos diversos manuscriptos corre quasi sempre com o titulo de Verdades singelas, e se ligava com as Verdades duras, titulo com que o Intendente Manique apprehendeu a Pavorosa de Bocage em 1797. 2.º Na carta 1.ª ao seu amigo Anelio, o auctor da Voz da Razão chama-se a si mesmo Lidio; se nos lembrarmos que só desde 1790 é que Bocage deixou de se assignar L'Hedois de Bocage, está achado o cryptonymo poetico com que se designava n'estas composições. 3.º Excluida a paternidade do Dr. José Anastacio da Cunha, cujo ideal poetico era outro, como se vê pela Oração universal, em quem, se não em Bocage se pode encontrar essa audacia e fórma popular de bom senso? Crêmos que é um problema resolvido.

[7] Uma carta de A. Herculano, dirigida a Soares de Passos em 5 de agosto de 1856, na qual lhe diz «fui poeta até aos vinte cinco annos» termina considerando-o como successor de Garrett. Herculano protestou sempre contra a bajulação insciente que dava a Castilho o primeiro logar entre os lyricos modernos portuguezes. (Vid. prologo das Lendas e Narrativas.)

[8] No vol. XIII do Instituto de Coimbra, p. 239 em um artigo sobre o futuro da Musica, do sr. A. de Quental se lê: «Não creio que o positivismo um tanto estreito de A. Comte, Littré e da ultima eschola franceza, nos dê completa a philosophia do futuro. Mas se o alargarmos, segundo o espirito do hegelianismo, a ponto de caber n'elle a Metaphysica excluida por A. Comte (tendencia que já se nota em Taine, Renan e Vacherot, e no positivismo inglez de que é chefe Stuart Mill) n'esse caso tenho para mim que a Philosophia assentará n'uma base tão solida, que não será muito aventurar dizer que está achada e definitivamente constituida a philosophia do futuro.»

[9] Ha curiosos que a muito custo conseguiram colleccionar os numerosos folhetos, que pollularam como mosquitos do nosso mephitismo litterario, por esta occasião. É o documento mais espontaneo e inconsciente do marasmo intellectual a que se havia descido. Vid. art.º Bom senso e bom gosto, no Supp. ao Dicc. bibl. de Innocencio.

II

A poesia lyrica do Brazil encerra um grande facto ethnologico; d'elle derivaremos a sua comprehensão e o porque da sua originalidade. Esse lyrismo é superior em vehemencia sentimental e em novidade de fórmas ao lyrismo portuguez; e comtudo dá-se n'essas fórmas tão caracteristicas um phenomeno de regressão, pelo qual tomam vigor typos estrophicos conservados pelos antigos colonos portuguezes, mas totalmente esquecidos na mãe patria, que só agora por um processo de erudição se vão encontrar nos seus velhos Cancioneiros palacianos. O ardor, a passividade, a morbidez que toma a linguagem das emoções, o desalento ou a acedia da vida, mesmo a facilidade com que tornam natural a imitação de Byron e de Musset, resultam de um temperamento contrahido pelo cruzamento dos primeiros colonos portuguezes com as raças ante-historicas do Brazil[10]. Quando o Brazil começou a ser povoado, e as suas feitorias se convertiam em cidades, ainda em Portugal apparecia casualmente nos versos de Christovam Falcão, Gil Vicente, Sá de Miranda e Camões algum vago fragmento de Serranilha galleziana, genero lyrico de origem popular, que pela sua belleza chegára a penetrar nos Cancioneiros aristocraticos. Foi este typo lyrico, decahido na metropole pela imitação castelhana do seculo XV, e pela imitação italiana no seculo XVI, que reappareceu nos costumes coloniaes, adquirindo importancia litteraria, a ponto de vir a apoderar-se de novo, sob a fórma brazileira da Modinha, do gosto da côrte e da sociedade portugueza do seculo XVIII. Essas estrophes cadenciadas com retornellos de enlouquecer e com tonadilhas de uma melodia sensual, que hallucinavam o proprio Beckford, eram cantadas essencialmente por mulatos[11]. Aqui está o problema ethnico, cuja importancia não escapa aos modernos antropologistas. Diz Quatrefages: «Posto que os cruzamentos modernos não remontem além de tres seculos, tem já produzido resultados que põem fóra de duvida, que, raças, notaveis sob todos os aspectos, pódem provir da mestiçagem. Os Paulistas do Brasil são um exemplo frisante. A provincia de Sam Paulo foi povoada por portuguezes e açorianos[12] vindos do velho mundo, os quaes se alliaram aos Guayanazes, tribu caçadora e poetica, aos Carijos, raça bellicosa e cultivada. D'estas uniões regularmente contrahidas, resultou uma raça, cujos homens têm-se sempre distinguido pelas suas proporções, força physica, coragem indomavel, resistencia ás mais duras fadigas. Quanto ás mulheres, a sua belleza fez nascer um proverbio brasileiro que attesta a sua superioridade. Se ella se accentuou outr'ora por expedições aventureiras para a exploração do ouro ou da escravatura, foi ella tambem quem primeiro fez a plantação da canna do assucar e a creação de gados.» Apoiando-se sobre as observações de Ferdinand Denis, Quatrefages transcreve estas palavras: «Hoje em dia o mais auspicioso desenvolvimento moral, como o renascimento intellectual notabilissimo, parecem pertencer a Sam Paulo[13].» Na poesia popular brazileira ainda se encontra a coexistencia das duas raças no mixto das canções em lingua portugueza e tupi, tal como na edade media da Europa encontramos a fórma do descort; eis uma amostra da tradição do Pará, e do Amazonas:

Te mandei um passarinho

Patuá mirá pupé,

Pintadinho de amarello