Mulheres hottentotes

Quando deixaram a Aguada de S. Braz padeceram os portugueses uma furiosa tempestade, que os fez quasi desesperar de salvamento; mas, conjurado o perigo, avistaram a 26 de dezembro os ilhéus Chãos, a 27 o ilhéu da Cruz, e chegaram no dia 28 á altura do rio do Infante, ultimo ponto a que chegara Bartholomeu Dias.

Forçado Vasco da Gama a entrar em algum porto onde se abastecesse de agua, aproximou-se da costa, e no dia 10 de janeiro de 1498 descobrio um pequeno rio. Como visse em terra muitos negros de elevada estatura e grande corpulencia, mandou desembarcar o lingua Martim Affonso com alguns brindes para o senhor d'aquelles negros, a fim de colher informações a respeito da India. Estavam os nossos no paiz da Cafraria, cujo chefe, deslumbrado pela formosura dos presentes e pelo incarnado da carapuça com que Vasco da Gama o brindara, recebeu amavelmente a Martim Affonso e ao companheiro, deu-lhes papas de milho e uma gallinha, e enviou ao commandante alguns refrescos.

A tribo da Cafraria que Vasco da Gama visitou, foi a dos zulus. São homens bravos, energicos, intelligentes, de pelle não preta, mas bronzeada. Pertencem á raça designada pelo nome de negroide. O nauta portuguez chamou á paragem, em que viviam estes cafres, Aguada ou Terra da Boa Paz, e ao rio em que se proveu de agua, Rio do Cobre.

Proseguindo na derrota, descobrio a 26 de janeiro um outro rio de larga embocadura, no qual vogavam alguns bateis tripulados por homens que pareciam mestiços de ethiopes e arabes. Eram em extremo communicativos, subiam ás naus, recebiam presentes, davam em troca os productos da sua terra, e um d'elles dizia ser de muito longe, e affirmava ter já visto navios do tamanho dos nossos. Contente com taes auspicios, Vasco da Gama baptisou o rio com o nome dos Bons Signaes, e erigio n'elle um padrão que vinha a bordo do S. Rafael, e que d'este nome tambem foi appellidado. A alegria porém foi pouco duradoura, porque tendo o commandante resolvido permanecer algum tempo n'aquelle rio, eis que a tripulação adoece ao cabo de poucos dias atacada de escorbuto. O rio era o Zambeze, cujas margens insalubres iam servindo de sepultura áquelle punhado de heroes.

Dança dos cafres zulus

Só a 24 de fevereiro continuou a armada o seu caminho. Avistadas algumas ilhotas, e não occorrendo cousa digna de menção, perceberam os portuguezes no dia 2 de março que de uma ilha navegavam sete ou oito barcos, e attentando nos tripulantes, viram que era gente mais culta do que os cafres. Conversaram com os nossos, disseram-lhes que a terra em que se achavam tinha o nome de Moçambique, e que os habitantes negociavam em ouro, prata, pimenta e especiarias com os mercadores arabes que íam da India áquelle porto. E mais disseram que o Preste João não era d'ali muito distante, com o que encheram de jubilo o coração dos portuguezes.

Vasco da Gama determinou logo dirigir-se a Moçambique para ver se eram fidedignas as informações, que acabava de obter, e com o fim de tomar piloto para a India, se as visse confirmadas. Nicolau Coelho entrou primeiro a sondar a barra no navio S. Miguel, e reconhecendo que havia bom fundeadouro, entrou o resto da armada e lançou ferro.

O xeque, apenas soube que a armada fundeara, mandou visitar Vasco da Gama, que por seu turno lhe enviou alguns presentes. O mouro, mais ambicioso que os cafres, pedia brindes de mais alto preço; porém não recusou os que lhe foram offertados, e veio visitar o capitão-mór. Vasco da Gama dispoz tudo para esconder a fraqueza da sua frota, e ordenou á sua gente que estivesse preparada para o caso de alguma traição urdida pelo xeque. Chegou este trajando as suas mais luzidas vestiduras, foi recebido com todas as mostras de amisade, e com um opiparo banquete. O xeque deu a Vasco da Gama dois pilotos, os quaes, por ordem do capitão, nunca íam juntos a terra, para que não lograssem pôr em execução algum trama combinado com o soberano.