A utilidade d'esta medida ficou em breve demonstrada, pois que se conheceu por indicios infalliveis que os mouros meditavam alguma affronta. Vasco da Gama deliberou então sair de Moçambique antes de lhe ser preciso combater; porém, tendo mandado em dois bateis alguns homens armados buscar agua e lenha, foram estes accommettidos pelos mouros, cuja audacia castigaram a tiros de espingarda. A armada levantou ferro no dia 10 de março e fundeou n'uma ilha proxima que Vasco da Gama appellidou S. Jorge. Ahi se ergueu um altar, celebrou-se missa, e todos portuguezes se confessaram e commungaram. Em seguida partio a frota para Calecut.
Após variados episodios, em que destaca principalmente a perfidia dos musulmanos e do piloto que acompanhava a armada, depois da impreterivel necessidade de resolver por armas, o que melhor fôra se resolvesse por palavras, chegou Vasco da Gama a Mombaça no dia 7 de abril, e entrou no porto com os navios embandeirados cuidando encontrar na cidade um numero avultado de christãos. Note-se que o capitão-mór só determinou ancorar no porto em vista das informações ministradas por dois degredados que trazia, e que mandára a terra observar qual a religião, a riqueza e a indole da gente de Mombaça. Apezar disso, mais uma vez teve de punir as insidias dos musulmanos que, de combinação com o piloto, pretendiam dar com as naus em cima dos baixios. Vasco da Gama ordenou que fossem mettidos a tormento, pingados com azeite a ferver.
Na quinta feira de Endoenças largou do porto de Mombaça, perdida a esperança de achar piloto que o conduzisse para Calecut. A poucas leguas de distancia apresou um zambuco tripulado por dezoito pessoas, que disseram existir não longe uma cidade, Melinde, em que facilmente se encontraria o piloto desejado.
Não obstante o que a gente do zambuco referia sobre a natural bondade do rei de Melinde, o Gama receiava submetter-se a nova experiencia. Não lhe saíam da memoria as torpes insidias de Mombaça, mas, como era urgente a necessidade, partio para Melinde, onde chegou domingo de Paschoa.
Foi amigavelmente recebido pelo rei, e deparou-lhe a sorte um piloto guzarate, Malemo Cana, que o conduziu a Calecut, onde surgio a 20 de maio.
Uma vez surto na cidade, que então era o emporio da riqueza oriental, ardia Vasco da Gama no desejo de conhecer o paiz, e communicou a sua chegada ao rei ou Samorim. Ordenou para isso, que desembarcassem o piloto Malemo Cana e um dos degredados. Apenas saltaram em terra foram levados á casa de dois mouros, naturaes de Tunis, um dos quaes, chamado Monçaide, vendo o degredado, fallou-lhe castelhano e quiz ir á presença de Vasco da Gama. Taes foram as noticias que Monçaide deu ácerca do Samorim, que o Gama resolveu ir pessoalmente visital-o, acompanhado de doze homens esveltos e vestidos ricamente. Como a visita fosse d'antemão annunciada, era o capitão-mór esperado na praia por um official do rei de Calecut, a que se dava o nome de Catual.
Para que descrever a pompa verdadeiramente asiatica do cortejo? Basta dizer-se que tudo era digno do brioso navegador. Durante o trajecto quiz o Catual que Vasco da Gama visitasse um pagode ou templo malabar. Entraram os portuguezes no templo, e julgando que era christão, ajoelharam-se e prestaram culto ás imagens de Siva e Vishnu. Chegado ao palacio real, foi o Gama recebido pelo Samorim, que ostentava nos braços, na cabeça e nas orelhas valiosissima profusão de esmeraldas, perolas e rubis. Affirmou-lhe o portuguez que viera á India por mandado de um poderoso rei do Occidente para assentar com elle paz e amisade, e que trazia mercadorias para dar em troco das que recebesse. O Samorim prometteu auxiliar os portuguezes; mas o Catual e os mouros, roidos de inveja, conseguiram dissuadil-o do proposito. Só o animo valoroso do capitão-mór podia resistir a tanta contrariedade. Chegaram as cousas ao ponto de ficar o proprio Gama com os doze europeus prisioneiros do Catual, cuja primeira idéa foi matal-os, contentando-se depois com exigir-lhes thesouros e riquezas. Finalmente Vasco da Gama conseguio voltar com os companheiros aos navios, e mandou queixar-se ao Samorim das offensas que recebera. O soberano fingio-se descontente com o official, deu mostras de querer proteger o commercio dos portuguezes, mas pouco depois revelou que os tinha na conta de ladrões, porque prohibio que fosse alguem negociar a bordo dos navios, e prendeu em terra Diogo Dias e mais alguns que tinham ido á feitoria. Para evitar que estes infelizes morressem á ordem do Samorim, Vasco da Gama aprisionou seis naires mui qualificados que visitaram a armada com dezenove homens, e não os entregou sem receber primeiro a sua gente. E partio de Calecut promettendo voltar cedo, e mostrar quem eram os christãos do Occidente, alcunhados de corsarios pelo Samorim. Veio tambem Monçaide, que se fez christão, e mais dois mercadores mouros.
Pagode Malabar
Na viagem de Calecut a Lisboa não faltaram desgostos e tribulações áquella