... gente ousada mais que quantas
No mundo commetteram grandes coisas.
Luctaram com as traições do Samorim, cujas embarcações lhes saíram ao encontro; tiveram de resistir ás ciladas do senhor de Goa que tambem lhes desejava causar damno; arrostaram com a furia das procellas; padeceram novamente o escorbuto, e só poderam tomar fôlego, quando aportaram a Melinde, onde Vasco da Gama, com licença do rei, mandou erigir um padrão com uma cruz e as armas de Portugal. Saindo de Melinde a 10 de fevereiro de 1499, Vasco da Gama surgio a 28 na ilha de Zanzibar, tornou a passar pela aguada de S. Braz, e a 20 de março dobrou o cabo da Boa Esperança.
Dos tres navios, tinha sido queimada a nau S. Rafael, e os dois restantes separaram-se nas alturas de Cabo Verde. Quer fossem apartados por uma tempestade, quer pelo desejo que nutria o commandante do Berrio, de trazer a el-rei D. Manuel as primeiras noticias da expedição, é fóra de duvida que Nicolau Coelho chegou a Lisboa mais de um mez antes de Vasco Gama.
Vasco da Gama erige na costa d'Africa um padrão com as armas de Portugal
O capitão-mór trazia enlutado o coração pela morte de Paulo da Gama, seu irmão estremecido, e chegando ao Tejo, antes de se apresentar a D. Manuel, quiz agradecer á virgem de Bethlem o havel-o tomado sob sua guarda. Vasco da Gama foi conduzido ao paço com grande solemnidade, e o rei, como paga de seus enormissimos serviços, conferio-lhe o titulo de dom, acrescentou no seu brazão de armas as quinas de Portugal, nomeou-o almirante da India para si e para seus successores, e doou-lhe 300$000 réis de juro e herdade.
No anno seguinte enviou D. Manuel á India Pedro Alvares Cabral, a fim de estabecer commercio e alliança com o rei de Calecut. Este, porém, houve-se com tão rematada hypocrisia, que os nossos tiveram de bombardear a cidade e matar grande numero de mahometanos. E ficando reconhecido que só á viva força se podia tirar proveito do descobrimento da India, foi Vasco da Gama despachado novamente para aquella região. Partiu de Lisboa a 10 de fevereiro de 1502, dobrou sem difficuldade o cabo da Boa Esperança, aportou a Moçambique onde foi bem recebido pelo xeque, reduziu á vassallagem o reino de Quiloa obrigando o soberano a pagar annualmente 2:000 meticaes de ouro. De Quiloa dirigiu-se á costa de Malabar, que foi theatro de uma das atrocidades mais nefandas commettidas pelo inexoravel navegador. Tendo encontrado um navio carregado de peregrinos, que regressavam de Mecca onde foram visitar o tumulo Mahomet, apoderou-se de todas as riquezas, e mandou pôr fogo ao navio sem se apiedar das mulheres, que imploravam misericordia levantando nos braços os filhinhos. Pouco depois fundeou Vasco da Gama em Cananor, e d'ahi passou-se a Calecut com o proposito firme de vingar-se do Samorim. Principiou por apresar alguns cincoenta malabares, que andavam pescando, e farto de responder ás mensagens do insidioso rei, enviou-lhe os cadaveres dos desventurados prisioneiros, e com uma furiosa artilheria arrasou-lhe completamente a cidade. Deixou em Calecut Vicente Sodré com uma frota de seis navios, e partiu para Cochim, logrando assignar com o rei um contrato vantajoso para Portugal.
O Samorim, que reunira as suas forças durante a ausencia do Gama, enviou-lhe um mensageiro convidando-o para novas negociações. Vasco da Gama—custa a crer—mais uma vez caiu no laço, e tendo ido em pessoa a Calecut com um só navio, foi rodeado por innumeros paraos, de que escapou milagrosamente porque o soccorreu a tempo a frota de Vicente Sodré. Destroçados os paraos, Vasco da Gama tornou a Cochim, passou a Cananor, e de Cananor seguiu para Lisboa, onde ancorou no dia 1.º de setembro de 1503, e entregou a el-rei D. Manuel as riquezas que trouxera de Quiloa.
Mulheres da costa de Malabar