Excederam toda a expectativa os resultados d'esta segunda viagem. O almirante, que descobrira o caminho das Indias, fundou no extremo oriente para Portugal o monopolio do commercio das especiarias. Por isso o rei conferiu-lhe o titulo de conde da Vidigueira, o povo saudou-o com enthusiasmo, e povo e rei prepararam-lhe uma entrada em Lisboa igual á dos triumphadores romanos.

Mas.—tal é a ingratidão dos homens!—o ciume do monarcha e a inveja dos cortezãos votaram o glorioso mareante aos desgostos de um prolongado esquecimento. Vinte e um annos esteve ocioso aquelle grande espirito, até que D. João III, que succedeu na corôa a D. Manuel, o nomeou vice-rei da India. Envelhecido e quebrado, não tanto pela idade como pela rudeza dos trabalhos, ainda assim não resignou o cargo, e por entre ruidosas acclamações fez-se de véla aos 9 de abril de 1524.

Proximo das costas de Cambaya succedeu que, estando tranquillos céu e mar, e não havendo uma nuvem no horisonte, encapellaram-se as ondas e vieram quebrar-se com violencia nas embarcações. Assustaram-se os tripulantes, e Vasco da Gama percebendo que o phenomeno era devido a um tremor de terra, disse-lhes em tom sereno: «Amigos, prazer e alegria; o mar treme de nós.»

Pouco depois chegou ao porto de Chaul, onde se demorou tres dias, seguindo logo para Goa, pois desejava quanto antes acudir ás desordens que lavravam na administração dos negocios. Entristeceu-se com o que viu em Goa, porém não desmaiou. Tomou providencias energicas e severas, corrigiu abusos, castigou roubos, e dispostas as primeiras cousas, partiu para Cochim. Ainda uma vez desbaratou as forças do Samorim, e quando esquipava uma grande armada, que restituisse ao nome portuguez a antiga fama, accommetteu-o uma grave enfermidade. Sentindo que a morte se avisinhava, quiz ir para Cochim, e lá morreu a 25 de dezembro de 1524. Foi sepultado no convento de S. Francisco d'aquella cidade, e em 1538 se trasladaram os seus ossos para Portugal, e encerraram-se n'um jazigo construido no convento carmelitano de Nossa Senhora das Reliquias, junto á villa da Vidigueira. O epitaphio do seu tumulo era o seguinte:

Aqui jaz o grande argonauta D. Vasco da Gama, primeiro conde da Vidigueira, almirante das Indias orientaes e seu famoso descobridor.

No dia 8 de junho de 1880 foram os restos mortaes de Vasco da Gama levados com grande solemnidade para a egreja de Santa Maria de Belem, por occasião do centenario de Camões, e ahi repouzam ao lado das que se julgam ser as cinzas do cantor inspirado dos Lusiadas.

O maior elogio que se póde escrever do descobridor da India, cifra-se nas palavras com que o sr. Latino Coelho remata o seu estudo sobre este varão illustre.

«Acima de todos os homens eminentes, que levaram os baixeis e as armas portuguezas até os mais remotos confins do nosso globo, levanta-se Vasco da Gama, á similhança do mais alteroso cimo do Himalaya, que vê abaixo de si as mais erguidas cumiadas, que sem elle seriam assombrosas serranias collossaes. Toda a acção de Portugal na historia da civilisação está personificada no seu grande soldado navegador, o espirito da patria no Camões, tambem guerreiro e navegante, que ao nome do argonauta enlaçou no seu poema todas as glorias de Portugal.

BIOGRAPHIAS DE HOMENS CELEBRES DOS TEMPOS ANTIGOS E MODERNOS

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