Ó refugio poderoso dos miseraveis, Mãe benigna de misericordia, promptissima libertadora dos degradados filhos de Eva, ouvi os meus rogos, e vêde as lagrimas da minha afflicção e da minha dôr. Eu me vejo opprimido de infelicidades e miserias, por causa das minhas culpas; e não tenho a quem recorrer, senão a vós, minha amada Senhora, piissima Virgem Maria, Mãe do meu Senhor Jesu Christo, e sollicita Advogada do genero humano.
Rogo-vos pois pelas misericordiosas entranhas do vosso Santissimo Filho, e pela gloria que elle teve no tempo da sua alliança com a natureza humana, ao deliberar com o Padre e Espirito Santo de tomar a nossa carne mortal para nossa salvação; pelo vosso inefavel gozo, ó bemaventurada Virgem, quando, depois da Annunciação do Anjo e do vosso adoravel consentimento, o divino Verbo se cubrio da nossa mortalidade no vosso purissimo ventre; donde, passados nove mezes, sahio a visitar, instruir e remediar o mundo.
Pela agonia, que o vosso mesmo Filho teve em seu coração, quando orou a seu eterno Pae no monte Olivete; pela fiel companhia, que vós lhe fizestes em todo o decurso da sua paixão e morte; pelas traições, pelos opprobrios, pelas injurias, testemunhos falsos e barbara sentença contra elle proferida; pelas duras cordas, com que o prendêrão, crueis flagellos, com que o açoutarão, e rigorosos espinhos com que o coroarão; pelas lagrimas e suor de sangue que elle derramou; pelo seu silencio e soffrimento; pelo temor, pela tristeza e agonia de seu coração; pelo summo pejo que padeceo, vendo-se despido no Calvario aos olhos de todo o povo; pelo incomprehensivel tormento da sua sêde sem allivio; pela ferida da lança, que lhe penetrou o seu lado amorosissimo; pelos grossos cravos que traspassárão as suas mãos e pés sacrosantos; pela recommendação, que elle fez da sua santissima alma a seu eterno Pae; pela benigna misericordia, que elle usou com o bom ladrão.
Pela honra e gloria da sua triumphante Resurreição; pelas apparições, que elle vos fez, e aos Apostolos e Discipulos no espaço de quarenta dias; pela sua gloriosa Ascensão, em que á vossa vista, e dos mais fiéis foi elevado ao Céo; pela graça do Espirito Santo, que elle derramou nos corações dos Discipulos em fórma de linguas de fogo; pelo terrivel dia do juizo, em que elle precedido d'um universal incendio, ha de vir a julgar os vivos e os mortos.
Pela amorosa compaixão, e fidelissima sociedade, que neste mundo lhe fizestes; pelo gozo ineffavel de vossa maravilhosa Assumpção, quando na presença e companhia de vosso mesmo Filho, e de toda a côrte celeste fostes sublimada ao Empyreo, e nelle coroada de gloria e delicias sempiternas; por tudo isto, Senhora, e por tudo o mais que representar-vos posso, vos peço, minha Mãe amabilissima, que ouçais os meus rogos, me concedais e felicitais a supplica, que agora vos faço, com toda a humildade e devoção que me é possivel. (
Aqui fará menção da especial rogativa
.) E como eu creio, conheço e confesso que o vosso Filho sacrosanto vos attende e vos honra de tal modo, que nada vos nega, nem deixa frustradas as vossas supplicas: espero e confio, minha adorada Senhora, que experimentarei fiel e promptamente, plena e efficazmente, o desejado soccorro de vossa maternal consolação, segundo a doçura de vosso coração misericordioso, todo conforme á benigna clemencia do vosso Santissimo Filho.
E não só para o feliz despacho d'aquella especial rogativa, com que agora invoco o vosso santo nome, e a poderosa virtude do vosso augusto patrocinio; mas tambem para que vos digneis de impetrar-me uma viva fé, uma esperança firme; uma ardente caridade, uma contricção verdadeira; uma digna e sufficiente satisfação; uma diligente cautella para o futuro, um total desprezo do mundo, um intenço amor de Deus e do meu proximo, uma imitação das dores do vosso amabilissimo Filho; e ainda a mesma morte, quando deva padecêla por seu respeito; um fiel cumprimento nos meus votos, uma constante perseverança nas boas obras, uma continua mortificação do meu amor proprio, um verdadeiro arrependimento de todos os meus peccados no fim da minha vida; e por coroa de tudo, a perpétua gloriosa bemaventurança na deliciosa companhia, que lá tambem quizera ter com as almas de meus paes, de meus irmãos e de meus parentes, bemfeitores e amigos, assim vivos como defuntos, por todos os seculos dos seculos. Amen.