Uma pergunta em segredo
a respeito do Castilho.
—Sabem quem é o sujeito?—
Um velhote de respeito,
sempre co'a mão no gatilho
d'algum doirado epigramma;
que a pedido faz prefacios,
onde ha perolas e lama;
que não encontra poetas
como os Virgilios e Horacios;
que foi o author infeliz
do a-b-c repentino,
e da Lilia abandonada,
que p'lo ciume ralada
se trespassou co'um pepino.{5}Já o conhecem?—Pois bem!
Um dia 'stava o bom velho
co'uma das mãos n'um joelho,
n'um joelho ou n'um artelho,
(isto diz-se; não n'o juro)
meditando no futuro,
talvez prevendo da Hespanha
o rebentar da castanha;
e batem de rijo á porta.
—Quem é?—a criada indaga.
—Manoel Pinheiro Chaga.——Manda subir a visita.—
E de si p'ra si:—Que praga!—
E quando elle entra na sala:
—Ó meu amigo, que dita!
Como se lembrou de mim
no meio dos seus triumphos
o Méry do folhetim?—
—É lisonja; agradecido;
acabei o meu poema...—
—E vem a mostrar-m'o, sim?
Então, amigo, não trema;
o tremer é de criança;
em mim não põe confiança?
Parece pouco animoso!...——Bagatella! isto é nervoso!
Padeço muito dos nervos!—
—Eia, sus, ó meu irmão,
eia, vate sonoroso!
a ti a minha attenção!—E o poeta recitou-lhe
d'um só fôl'go a Invocação:{6}
e logo apoz o poema,
que na filha d'uma beef
(p'lo modo séria menina,
que o Chaga baptisou Emma)
fui descobrir a heroina.
E por fim o poemeto,
em que o heroe papa-fina,
p'ra não dizer papa-moscas,
á chuva, mui socegado,
medita no seu passado.E vai e disse o Castilho
quando o Chaga terminou:
—Muito bem! dê-me um abraço,
aperte-me este espinhaço!
O senhor não leu, cantou!
Mil parabens!—
—Agradeço,
são favor's que não mereço.—O velho deu quatro passos,
e para encobrir o riso:
—Ouça cá, tive uma idéa;
se eu lhe escrevesse um «juizo»,
p'ra o livro fazer mais bulha,
urdido á moda de tea,
e n'ella entalado um grulha,
que espirrasse co'a pitada?
—Vossa excellencia pinhora-me
—Acceita?—
—Muito óbrigada;
isso mesmo era o que eu qu'ria
p'ra os volumes não ficarem
nos lotos da livraria...—{7}
—Então, 'stá dito?—
—'Stá dito!—
Retiro-me.—
—Adeus, amigo;
p'ra tudo conte commigo.—E o vate desceu a escada
trauteando o pirolito.
[III.]
Leram do livro o final?
Toparam com a pitada
ao Anthero do Quental?
Pois o Anthero deu patada!
Viu em tudo aquillo fel,
e sem qu'rer foi á parede!
Botou o Castilho a rede
e pescou... um bacharel!Veio o bom-senso e o bom-gosto
provar que estava no posto
o ratão, que se incumbira
de chamar os compradores
p'ra o livro que não sahira
dos armarios do livreiro
sem do Anthero os máos humores.Levou p'ra baixo o Castilho;
aquillo é que foi malhar!
e malhar em ferro frio,
segundo se ousa affirmar,{8}
que o velhote, esse, nem pio!Não se pôde em si conter
aquelle pobre Quental!
Foi uma tunda de mestre
no mestre, mas a valer!
Não lhe queiramos nós mal.E o Castilho, sempre moita,
ri d'aquelle que o espanca;
não tinha mais que fazer
do que ao Quental responder!E o Quental por cima tranca!
[IV.]
Tinha esquecido dizer
que o Quental é coimbrão,
e não gosta do Castilho
com razão ou sem razão;
d'isso não quero saber.E de Coimbra e Lisboa
os litteratos de prôa
saltaram logo p'ra o campo
a discutir a questão,
pregando fachada á toa,
a maior parte no chão,
e creio que toda em vão.Cada qual quiz ser juiz
no barulho, em que o bom-senso{9}
appar'ceu, segundo penso,
esmorrado do nariz.
E veio á arena o Roussado
com chalaças a granel
(que em chalaça é jubilado)
a entampar o bacharel,
que havia ao mestre bufado.
Sinto que fosse infeliz
n'autopsia que fez ás Odes;
mas como não é culpado
conte que está perdoado.O volume do Quental
não deve ser máo petisco
no sexto ceo do ideal.
Comparo-o (mas ao poeta)
a qualquer pardal ou pisco,
e sobre tudo ao pardal,
que pretendesse imitar...
que sei? a aguia real,
quando fende altiva o ar
para as campinas do ceo
do mais puro azul sem veu;
na phrase dos Victor Hugos,
a quem tiro o meu chapeu.Ao illustrado Quental
peço muita paciencia
a par de alguma indulgencia.
Desculpe sua excellencia;
o que eu digo nada val.Siga a bicha em continencia!{10}