Mas a descripção verdadeiramente magnifica, arrebatadora, é a que abrange todas as descobertas e conquistas na Africa, Asia, Oceania e America. Aquellas cincoenta estancias do canto X (91 a 141) com as que no canto V contem a derrota de Vasco da Gama desde Lisboa até Melinde, são um compendio de geographia das descobertas até ao seculo XVI. Ao lel-as parece-nos que se repete para nós a magica visão que Tethys offerecia na ilha dos Amores aos olhos surpresos do afortunado descobridor da India; parece-nos que vemos desenrolar-se a nossos olhos o mappa immenso de tantas ilhas, portos, montanhas, rios e promontorios; parece-nos que se agitam diante do nós tantos centenares de povos e nações, com os seus usos tão oppostos, com os seus trajos ora tão singelos ora tão complicados e custosos, com a riqueza de suas minas ou de suas industrias, com a sua historia tão cheia de contrastes. E um espectaculo deslumbrante, unico, que obriga o mais fervente admirador dos genios modernos a render-se á superioridade evidente de Camões; porque Camões, e só elle, poude, sem ser monotono nem faltar á mais escrupulosa verdade, fazer de uma longa enumeração de terras e mares uma formosissima galeria das mais variadas paisagens e marinhas; porque só elle soube ser successivamente Claude Lorrain e Vernet, ficando ainda superior a estes e a todos os pintores, ficando sempre o grande, o incomparavel, o divino marinheiro Luiz de Camões!
VII
No mais, musa, no mais, que a lyra tenho Destemperada e a voz enrouquecida, E não do canto, mas de ver que venho Cantar a gente surda e endurecida.
(Lus. X, 145.)
Perdoe-se ao pigmeu a ousadia de applicar a si as palavras do gigante. Mas, na verdade, para que serve continuar? Se houvessemos de citar todos os logares em que Luiz de Camões se mostrou eximio pintor da natureza, e principalmente da natureza maritima, teriamos de copiar quasi todo o seu poema. Cremos, porém, que o que fica transcripto é sufficiente para demonstrar a nossa asserção, de que o Poeta foi um marinheiro tocado da divina scentelha da inspiração, que lhe fez ver os grandiosos espectaculos da natureza taes como elles se manifestam.
E, comtudo, de que serve esta demonstração? Que póde ella fazer em prol do melhoramento do actual gosto litterario?
Nada.
Acontece com a historia das litteraturas como com a das nacionalidades. Quando o espirito de uma nação está decaído, quando faltam os nobres impulsos que a impelliram no seu progresso ascendente, quando está morto o patriotismo que centuplica as forças do individuo, quando o egoismo tórpe substituiu a abnegação e o amor da patria, é então que se recordam os tempos de gloria e se levantam monumentos aos heroes que já não é possivel imitar; são os vãos lamentos dos filhos de Israel captivos em Babylonia, suspirando pela liberdade de Sião, que tão mal souberam defender.
E assim com as litteraturas. Quando passaram, para nunca mais voltar, os seus tempos de explendorosa florescencia, vem os commentadores estudar as obras primas, mas não apparece um só que os imite. Onde estão hoje as pennas que escreveram os Lusiadas e as Decadas? E, deixando esses monumentos, que são como que as estrellas de primeira grandeza de um firmamento de eterno brilho, onde estão os successores de Diniz, de Bocage, de Garção, de Alexandre Herculano, de Rebello da Silva, de José Estevão, de Garrett, de Castilho? Transformaram-se os lagos cristalinos em charcos nauseabundos, as campinas viridentes em aridos pragaes; calaram-se os trinados dos rouxinoes, só se ouve o coaxar das rãs; e a consciencia publica, festejando o tri-centenario da morte de Luiz de Camões, manifesta em doloroso grito o arrependimento que sente por se ter deixado resvalar no plano inclinado do mau gosto, e marca na historia da litteratura portugueza o periodo da ultima decadencia.