—Fique onde está, Rantaine.
—Mess Clubin, arranjemos as cousas. Offereço-lhe metade.
Clubin executou um crusar de braços, mostrando a bocca do revolver.
—Rantaine, quem pensa que eu sou? Sou um homem honrado.
E acrescentou depois de uma pausa.
—Quero tudo.
Rantaine disse entre dentes:
—É temivel este.
Entretanto acenderam-se os olhos de Clubin. A voz tornou-se cortante como o aço. Disse elle:
—Creio que se engana. O seu nome é que é Roubo, o meu é Restituição. Ouça, Rantaine. Ha dez annos, sahio o senhor de Guernesey á noite tomando da caixa de uma sociedade cincoenta mil francos que lhe pertenciam, e esquecendo de lá deixar cincoenta mil francos que pertenciam a outro. Esses cincoenta mil francos roubados ao seu socio, o excellente e digno mess Lettierry, fazem hoje com os juros accumulados de dez annos oitenta mil seiscentos e sessenta e seis francos e sessenta e seis centimos. O senhor entrou hontem na casa de um cambista. Reluchet, chama-se elle, rua de S. Vicente. Deu-lhe setenta e seis mil francos em bilhetes de banco francezes, e em troca deu-lhe elle tres bank-notes de Inglaterra de mil libras esterlinas cada uma, e mais uns trocos. O senhor poz essas bank-notes na boceta de ferro, e a boceta de ferro na algibeira direita. As tres mil libras esterlinas fazem setenta e cinco mil francos. Em nome de mess Lethierry, contento-me com isso. Parto amanhã para Guernesey, e vou levar-lh'os. Rantaine, a galera que alli está á capa é o Tamaulipas. O senhor embarcou alli esta noite as malas misturadas com os saccos e canastras da equipagem. Quer sabir de França. Tem suas razões para isso. Vai a Arequipa. A barcaça vem buscal-o. Está á espera della. Ella ahi vem. Já a estamos ouvindo. Depende de mim deixal-o partir ou obrigal-o a ficar. Basta de palavras. Atire cá a boceta de ferro.