O horisonte, onde a agua illuminada apenas se mechia, estava sereno. O sol sahia explendidamente daquella vasta massa azul.

De tempos a tempos uma gota de agua destacava-se do navio e cahia no mar.


[II]

AS PERFEIÇÕES DO DESASTRE

As Douvres eram differentes de fórma como de altura.

Na pequena Douvre, recurvada e aguda, via-se ramificar-se, da base ao cimo, longas veias de uma rocha côr de tijolo, relativamente tenra, que fechava com as suas laminas o interior do granito. Nessas laminas avermelhadas havia, de espaço a espaço, fendas próprias para subir. Uma dessas fendas, um pouco acima do navio, foi tão bem trabalhada pelos arremeços do mar, que tornou-se uma especie de nicho, onde podia guardar-se uma estatua. O granito da pequena Douvre era arredondado na superficie e macio como pedra de toque, o que não lhe tirava a dureza que tinha. A pequena Douvre terminava om ponta como um chifre. A grande Douvre, polida, unida, lisa, perpendicular, e feita como por desenho, era de um só jacto e parecia feita de marfim preto. Nem um buraquinho, nem um relevo. Trepar por ella era impossivel: não podia servir nem á fuga de um criminoso, nem ao ninho de um passaro. No cume havia como no rochedo Homem, uma plata-fórma; era porém inaccessivel.

Podia-se trepar pela pequena Douvre, mas não ficar lá, podia-se ficar na grande Douvre, mas não se podia subir.

Gilliatt, depois de lançar os olhos por tudo aquillo voltou á pança, descarregou-a na mais larga das cornijas á flôr d'agua, fez de todo o carregamento, aliás pequeno, uma especie de pacote, atou-o n'um panno alcatroado, depois içou-o por meio de um cabo até um ponto da rocha onde o mar não podia chegar; feito isto, abraçou-se á pequena Douvre, e com pés e mãos, de fenda em fenda, trepou por ella até a Durande que estava no ar.

Chegando a altura das caixas das rodas saltou dentro.