O interior do navio era lugubre.
A Durande apresentava todos os vestigios de um arrombamento medonho. Era a violação tremenda da tempestade. A tempestade comporta-se como um pirata. Nada assemelha-se mais a um attentado que um naufragio. Nuvens, trovão, chuva, vagas, tufões, rochedos, horrivel multidão de cumplices é esta.
No meio daquelles destroços, pensava-se em alguma cousa semelhante ao tripudio furioso dos espiritos do mar. Tudo eram vestigios de raiva. As torções estranhas de certos ferros, indicavam a acção impectuosa dos ventos. O convéz assemelhava-se á célula de um louco; tudo estava despedaçado.
Nenhum animal estrangula uma pedra como o mar. A agua regorgita das garras. O vento morde, o mar devora, a vaga é um queixo. É um sacar e um esmigalhar ao mesmo tempo. O oceano tem um golpe igual á pata do leão.
O descalabro da Durande apresentava esta particularidade: era minucioso. Era uma especie de terrivel descascamento. Muitas cousas pareciam feitas de proposito. Que maldade! podia dizer-se. As fracturas das amuradas eram feitas com arte. Este genero de destruição é proprio do cyclone. Retalhar e adelgaçar tal é o capricho desse desvastador enorme. O cyclone usa das averiguações do carrasco. Os seus desastres parecem supplicios. Dissera-se que algum rancor o anima; é requintado como um selvagem. Disseca examinando. Tortura o naufragio, vinga-se, diverte-se; é mesquinhamente cruel.
Raros são os cyclones em nossos climas, e tanto mais terriveis quanto que são inesperados. Um rochedo encontrado póde fazer andar á roda a tempestade. É provavel que a borrasca tivesse feito espiral sobre as Douvres, voltando-se subitamente em tromba ao choque do escolho, o que esplicava o salto do navio a tamanha altura naquellas rochas. Quando o cyclone sopra, um navio peza tanto como a pedra de uma funda.
A Durande tinha a chaga que fica ao homem cortado pelo meio; era um tronco aberto deixando ver um molho de destroços semelhante a entranhas. O cordoame fluctuava e estremecia; as correntes balançavam e tiritavam; as fibras e os nervos do navio estavam nús e pendiam no ar. O que não estava quebrado estava desarticulado; a pregadura do casco assemelhava-se a uma almofada eriçada de pregos; em tudo havia a fórma de ruina; uma barra de pé de cabra não era menos que um simples pedaço de ferro; uma sonda era apenas um pedaço de chumbo; uma drissa era apenas uma ponta de canhamo; uma tralha era apenas um fio de debrum; por toda a parte a inutilidade lamentavel da destruição; nada havia que não estivesse despregado, desenganchado, rachado, roido, recurvado, aniquilado; nenhuma adhesão naquelle feio montão de destroços; em tudo o deslocamento e a ruptura, esse aspecto de inconsistente e liquido que caracteriza todas as confusões, desde as refregas dos homens que se chamam batalhas, até ás refregas dos elementos que se chamara cahos. Tudo esboroava, tudo cahia, e uma torrente de taboas, de lonas, de ferro, de cabos e de vigas tinha parado na grande fratura da quilha, donde o menor choque podia precipitar tudo ao mar. O que restava daquella poderosa carena tão triumphante outr'ora, toda aquella parte suspensa entre as duas Douvres e talvez prestes a cahir, tudo estava roto e dilacerado, deixando ver pelos buracos o interior sombrio do navio.
Debaixo cuspia a espuma sobre aquella cousa miseravel.