Gilliatt teve logo de contar com o obstaculo.

Para salvar a machina da Durande, para tentar com alguma probabilidade um tal salvamento naquelle lugar e naquella estação, parecia que seria necessario uma grande porção de homens. Gilliatt era só; precisava ter uma ferramenta completa de carpinteiro e machinista, e Gilliatt apenas tinha uma serra, um machado, uma faca e um martello; precisava ter uma boa officina e um bom telheiro, Gilliatt não tinha nada disso; precisava ter provisões e viveres, Gilliatt não tinha pão.

Alguem que, durante essa primeira semana, visse Gilliatt trabalhando no escolho, não saberia o que pretendia elle. Parecia não pensar nem na Durande nem nas Douvres. Estava occupado com o que havia nos bancos; parecia absorto no salvamento dos pequenos destroços do naufragio. Aproveitava as marés baixas, para limpar os recifes de tudo o que o naufragio lhes tinha dado. Andou de rocha em rocha apanhando o que o mar ahi depuzera, pedaços de velame, pedaços do corda, pedaços de ferro, taboas rasgadas, vergas destruidas, aqui um barrete, alli uma corrente, além uma roldana.

Ao mesmo tempo estudava todas as anfractuosidades do escolho. Nenhum delles era habitavel, com grande decepção de Gilliatt que sentia frio de noite no buraco arranjado na grande Douvre, e desejaria achar melhor pousada.

Duas dessas anfractuosidades eram assaz espaçosas posto que o chão de rocha natural fosse quasi geralmente obliquo e desigual, podia-se andar alli de pé. A chuva e o vento entravam alli a gosto, as altas marés não lhes chegavam. Eram visinhas da pequena Douvre, e faceis de trepar á qualquer hora. Gilliatt decidio que uma seria um deposito e a outra uma forja.

Com todos os cabos que pôde recolher, fez pacotes dos restos do naufragio, ligando os destroços em molhos e as lonas em embrulhos. Apertou tudo cuidadosamente. Á proporção que a maré enchente batia nesses pacotes, Gilliat arrastava-os atravez dos recifes até o deposito. Achou na cava de uma rocha um cabo de guindar, por meio do qual podia levantar mesmo os grossos pedaços de madeira. Do mesmo modo arrancou ao mar os numerosos pedaços de corrente esparsos nos escolhos.

Gilliatt era tenaz e admiravel nesse trabalho. Fazia quanto queria. Nada resiste a um encarniçamento de formiga.

No fim da semana, Gilliatt tinha nesse deposito de granito todo o arsenal de objectos destruidos pela tempestade. Havia o lugar dos cabos e o das escotas; as bolinas não estavam misturadas com as adrissas; as bigotas estavam arranjadas conforme a quantidade de buracos que tinham; as roldanas estavam classificadas separadamente; as cavilhas do papafigos, as machadinhas, os cabos, e mil outros objectos, occupavam, urna vez que não estivessem completamente desfigurados pela avaria, compartimentos differentes; tudo quanto era de carpintaria estava á parte; de cada vez que era possivel, as taboas dos fragmentos do casco eram ajustadas umas ás outras; não havia confusão de rises com viradores, nem pateraces, com enxarcias, nem amuradas com precintas; um dos recantos era reservado á tabuiga da Durande, que apoiava os ovens do cesto de gavea e as gabundonas. Cada destroço tinha o seu lugar. Todo o naufragio estava alli classificado e com o rotulo competente. Era uma cousa semelhante ao cahos armazenado.

Uma vela de estaes, presa por pedras, cobria, aliás rota, o que a chuva podia estragar.

Por mais quebrada que estivesse a prôa da Durande, Gilliatt conseguio salvar os dous cêpos da ancora, com as tres rodas de polé.