Não era a onda, era um pequeno esgoto perpetuo, mais semelhante a uma distillação que a uma torrente.
A espuma, continuamente lançada pela ressaca sobre o escolho, algumas vezes a mais de cem pés no ar, acabara por encher de agua do mar uma bacia natural situada nas altas rochas que dominavam a excavação. A abundancia de agua nesse reservatorio fazia, um pouco atraz, no declive, uma pequena quéda d'agua, de cerca de uma polegada, cahindo de quatro a cinco toezas. Ajuntava-se a isso um contingente de chuva. De tempos a tempos, uma nuvem de passagem derramava algumas gotas naquelle reservatorio inexgotavel, e sempre transbordando.
A agua era salobra, não potavel, mas limpida, embora salgada. A quéda escorria graciosamente nas extremidades dos filamentos verdes como nas pontas de uma cabelleira.
Gilliatt pensou em servir-se dessa agua para disciplinar o vento. Por meio de um funil de dous ou tres tubos de taboas, arranjados á pressa, sendo um de torneira, e de uma larga tina disposta como reservatorio inferior, sem contrapeso, Gilliatt que era, como dissemos, um pouco ferreiro e um pouco mecanico, conseguio compor, para substituir o folle da forja, que não tinha, um apparelho menos perfeito do que aquelle que se chama hoje cagniardelle, porém menos rudimentario do que o que se chamava outrora nos Pyreneos uma trompa.
Tinha farinha de centeio, fez cola, tinha corda branca, fez estopa. Com essa estopa e essa cola, e alguns pedacinhos de pão, tapou elle todas as fendas do rochedo, deixando apenas um bico, feito com um pedaço de espoleta que achou na Durande e que servira á pedra de signal. O bico ficava horisontalmente dirigido contra uma larga pedra onde Gilliatt poz a lareira da forja. Gilliatt fez uma rolha para tapar o bico quando fosse preciso.
Depois disto, Gilliatt ajuntou carvão e lenha na lareira, arranjou a pedra de ferir fogo no proprio rochedo, fez cahir a faisca em um punhado de estopa, com a estopa acesa acendeu a lenha e o carvão.
Experimentou o folle. Era admiravel.
Gilliatt sentio essa altivez de cyclope, senhor do ar, da agua e do fogo.
Senhor do ar, deu ao vento uma especie de pulmão, creou no granito um apparelho respiratorio, e fez um folle; senhor da agua, da pequena cascata fez um tubo; senhor do fogo, tirou a flamma daquelle rochedo inundado.
Estando a escavação quasi toda aberta, o fumo sahia livremente, enegrecendo o rochedo. Aquelle rochedo que parecia feito para a espuma, conheceu a ferrugem.