Gilliatt tomou por bigorna um seixo multicor offerecendo a forma e as dimensões que se quizesse. Era uma perigosa base para bater, e podia acontecer que rebentasse. Uma das extremidades do seixo, arredondada, e acabando em ponta, podia a rigor figurar de bigorna conoide, mas faltava a bigorna pyramidal. Era a antiga bigorna de pedra dos Troglodytas. A superficie polida pela agua, tinha a rigidez do aço.
Gilliatt lastimava não ter trazido a sua bigorna. Como ignorava que a Durande estivesse partida pelo meio, esperava achar toda a ferramenta de carpintaria, ordinariamente collocada no porão da prôa. Ora, era exactamente a prôa que faltava.
As duas escavações, conquistadas no escolho por Gilliatt, eram visinhas uma da outra. O deposito e a forja communicavam-se.
Todas as noites, acabado o trabalho, Gilliatt ceava um pedaço de biscouto molhado em agua, um ursosinho d'agua, ou algumas castanhas do mar, caça unica daquelle rochedo, e tiritando como a corda, trepava para ir dormir na grande Douvre.
A especie de abstracção em que Gilliatt vivia, augmentava-se pela materialidade das suas occupações. A realidade era em alta doze. O trabalho corporal com os seus pormenores innumeraveis não diminuia a estupefacção que sentia de achar-se alli, e de fazer o que estava fazendo. Ordinariamente o cançasso material é um fio que puxa para terra; mas a propria singularidade do trabalho emprehendido por Gilliatt, mantinha-o em um trabalho de região ideal e crepuscular. Parecia-lhe ás vezes estar dando martelladas nas nuvens. Outras vezes parecia-lhe que as suas ferramentas eram armas. Tinha o singular sentimento de um ataque latente que elle repellia ou prevenia. Tecer maçame, desfiar uma vela, escorar duas pranchas, era fabricar machinas de guerra. Os mil cuidados minuciosos deste salvamento acabavam por assemelhar-se a precauções contra as aggressões intelligentes, mui pouco dissimuladas e muito transparentes. Gilliatt não sabia as palavras que exprimem as idéas, mas percebia as idéas. Sentia-se cada vez menos operario e cada vez mais pelejador.
Entrou alli como um domador. Comprehendia isso quasi. Estranha ampliação para o seu espirito.
Além disso, tinha á roda de si, a perder de vista, o immenso sonho do trabalho perdido. Nada mais perturbador do que vêr manobrar a diffusão das forças no insondavel e no illimitado. Procuram-se os fins. O espaço sempre em movimento, a agua infatigavel, as nuvens que parecem affadigadas, o vasto esforço obscuro, toda essa convulsão é um problema. Que faz este perpetuo tremor? que construem estes ventos? que levantam estes abalos? Em que se occupam os choques, os soluços, os gritos? que faz todo esse tumulto? O flux e reflux dessas questões é eterno como a maré. Gilliatt sabia o que fazia; mas a agitação da extenção era um enigma que o aturdia confusamente. Sem querer, mecanicamente, imperiosamente, por pressão e penetração, sem outro resultado mais que uma fascinação inconsciente, e quasi feroz, Gilliatt pensativo ajuntava ao seu trabalho, o prodigioso trabalho inutil do mar. Na verdade, como não impressionar-se e sondar alli á vista, o mysterio da tremenda vaga laboriosa? Como não meditar, na proporção, da meditação que se tem, a oscilação da onda, a impetuosidade da espuma, a usura imperceptivel do rochedo, o esfalfamento insensato dos quatro ventos? Que terror para o pensamento não é o recomeçar perpetuo, o oceano poço, as nuvens Danaydes, todo esse trabalho para cousa nenhuma!
Para cousa nenhuma, não; só o Ignoto o sabe!