A complexidade faz com que se olhe para todos os lados; parece que se devem receiar assaltos subitos. O homem rende-se, e defende-se, Fica em presença de Tudo, dahi vem a submissão, e de Muitos, dahi vem a desconfiança. A unidade da sombra contém um multiplo. Multiplo mysterioso, visivel na materia, sensivel no pensamento. Faz silencio, razão de mais para espreitar.
A noite,—já o disse algures quem escreve estas linhas,—é o estado proprio, normal da creação especial de que fazemos parte. O dia, breve na duração como no espaço, é apenas uma proximidade de estrella.
O prodigio nocturno universal não se realiza sem attritos, e os attritos de uma tal machina são as contusões da vida. Os attritos da machina, é o que chamamos o Mal. Sentimos nessa obscuridade o mal, desmentido latente da ordem divina, blasphemia implicita do facto rebelde ao ideal. O mal accrescenta uma teratologia de mil cabeças ao vasto conjunto cosmico. O mal está presente em tudo para protestar. É furacão, e atormenta a marcha de um navio, é cahos e entrava o desabrochar de um mundo. O Bem tem a unidade, o Mal tem a ubiquidade. O mal desconcerta a vida, que é uma logica. Faz devorar a mosca pelo passaro, e o planeta pelo cometa. O mal é um borrão na natureza.
A obscuridade nocturna peja-se de uma vertigem. Quem a aprofunda, submerge-se e debate-se. Não ha fadiga comparavel a esse exame de trevas. É o estudo de um apagamento.
Não ha lugar definitivo para pousar o espirito. Pontos de partida sem ponto de chegada. O cruzamento das soluções contradictorias, todos os ramos da duvida a um tempo, a ramificação dos phenomenos esfoliando-se sem limite sob uma impulsão indefinida, mistura de todas as leis, uma promiscuidade insondavel que faz com que a mineralisação vegete, com que a vegetação viva, com que o pensamento pese, com que o amor irradie, e a gravitação ame; a immensa fronte de ataque de todas as questões desenvolvendo-se na obscuridade sem limites; o entrevisto esboçando o ignorado; a simultaneidade cosmica em plena apparição, não para o olhar, mas para a intelligencia, no espaço indistincto; o invisivel tornado visão. É a Sombra. O homem está embaixo. Não conhece os pormenores, mas supporta, em qualidade proporcionada ao seu espirito, o peso monstruoso do conjunto. Esta obsessão impelia os pastores chaldeus á astronomia. Sahem dos poros da creação revelações involuntarias; faz-se por si mesma uma transudação de sciencia e invade o ignorante. Debaixo dessa impregnação mysteriosa torna-se o solitario, muitas vezes sem ter consciencia, um philosopho natural.
A obscuridade é indivisivel. É habitada. Habitada sem deslocação pelo absoluto; habitada tambem com deslocação. Move-se alli dentro alguma cousa, o que é para assustar. Uma formação sagrada desenvolve alli as suas phazes. Premeditações, potencias, destinos intencionaes, laboram ahi em commum uma obra desmedida. Vida terrivel e horrivel é o que existe alli dentro. Ha vastas evoluções de astros, a familia stellaria, a familia platenaria, o pollen Zodiacal, o Quid divinum das correntes, dos effluvios, das polarisações e das alterações; ha o amplexo e o antagonismo, um magnifico flux e reflux da antithese universal, o imponderavel em liberdade no meio dos centros; ha a seiva nos globos, a luz fora dos globos, o atomo errante, o germen esparso, curvas de fecundação, encontros de ajuntamento e de combate, profusões inauditas, distancias que parecem sonhos, circulações vertiginosas, mergulhos de mundos no incalculavel, prodigios perseguindo-se nas trevas, um machinismo definitivo, sopro de espheras em fuga, rodas que se sente andarem; existe e esconde-se; é inexpugnavel, fora de alcance. Fica-se convencido até á oppressão. Tem-se em si uma evidencia negra. Nada se póde agarrar. Esmaga-nos o impalpavel.
Por toda a parte o incomprehensivel: em parte alguma o intelligivel.
E a tudo isto accrescentai a terrivel questão: esta Immanencia é um Ser?
Está-se debaixo da sombra. Olha-se. Escuta-se.
Entretanto a terra sombria caminha e rola, as flôres tem consciencia desse movimento enorme; a silena abre-se ás onze horas da noite e a emerocala ás cinco horas da manhã. Impressivel regularidade.