Em outros profundidades a gotta d'agua faz-se mundo, o infusorio pulula, a fecundidade gigante sahe do animaculo, o imperceptivel ostenta a sua grandeza, o sentido inverso da immensidade manifesta-se; uma diatoméa produz em uma hora um milhar e trezentos milhões de diatoméas.

Que proposição de todos os enigmas ao mesmo tempo!

Está ahi o irreductivel.

Constrange-se-nos á fé. Crer por força, eis o resultado. Mas para estar tranquillo não basta ter fé. A fé tem uma estranha necessidade de forma. Dahi vem as religiões. Nada é tão oppressivo como uma crença sem delineamento.

Qualquer que seja o pensamento e a vontade, qualquer que seja a resistencia interior, olhar a sombra, não é olhar, é contemplar.

Que fazer desses phenomenos? Como mover-se debaixo de sua convergencia? É impossivel decompôr esta pressão. Que devaneio se deve ajuntar a todos esses confinantes mysteriosos? Quantas revelações abstrusas, simultaneas, obscurecendo-se em sua propria multidão, especie de balbuciar do verbo! A sombra é um silencio: mas esse silencio diz tudo. Surge magestosamente um resultado: Deos. Deos é a noção incomprehensivel. Essa noção está no homem. Os syllogismos, as querellas, as negações, os systemas, as religiões, passam por cima sem diminuil-a. A sombra inteira affirma aquella noção. Mas turva-se tudo o mais. Immanencia formidavel. A inexprimivel harmonia das forças manifesta-se pelo equilibrio dessa obscuridade. O universo pende; nada tomba. O deslocamento incessante e desmedido opera-se sem accidente e sem fractura. O homem participa deste movimento de translação e á quantidade de oscilação que supporta, chama elle destino. Onde começa o destino? Onde acaba a natureza? Que differença ha entre um acontecimento e uma estação, entre um pezar e uma chuva, entre uma virtude e uma estrella? Uma hora não é uma onda? Continúa o movimento da roda, sem responder ao homem, em sua revolução impassivel. O céo estrellado é uma visão de rodas, de pendulas e de contra pesos. É a contemplação suprema, forrada da suprema meditação. É toda a realidade e mais a abstracção. Nada além dahi. O homem sente-se preso. Fica á discrição da sombra. Não ha evasão possivel. Vê-se elle naquelle composto de rodas, é parte integrante de um Todo ignorado, sente o desconhecido que está fora delle. Isto é o annuncio sublime da morte. Que angustia e ao mesmo tempo que fascinação! Adherir ao infinito, e por essa adherencia attribuir-se uma immortalidade necessaria, quem sabe? uma eternidade possivel, sentir na prodigiosa vaga desse silencio universal a obstinação insubmersivel do eu! contemplar os astros, e dizer: Sou uma alma como vós! contemplar a obscuridade e dizer: sou um abysmo com tú.

Essas enormidades são a noite.

Tudo isso augmentado, pela solidão, pesava em Gilliatt.

Comprehendia-o elle? Não. Sentia-o? Sim.

Gilliatt era um grande espirito turvado e um grande coração selvagem.