Aguaceiro, furacão, relampagos, raios, vagas até ás nuvens, espuma, detonações, torções freneticas, gritos, roncos, assovios, tudo a um tempo. Desencadear de monstros.

O vento fulminava. A chuva não cahia, desabava.

Para um pobre homem, mettido, como Gilliatt, com um barco carregado, no intervallo de dous rochedos, em pleno mar, não ha crise mais ameaçadora. O perigo da maré, de que Gilliatt triumphára, nada era ao pé do perigo da tempestade. Eis a situação:

Gilliatt, em volta de quem tudo era precipicio, descobrio, no ultimo momento, e diante do risco supremo, uma estrategia engenhosa, Fez ponto de apoio no proprio inimigo; associou-se ao escolho; o rochedo Douvres, outrora seu adversario, era agora o seu padrinho naquelle immenso duelo. Gilliatt tinha-o debaixo de si. Fez daquelle sepulchro uma fortaleza. Assestou-se naquelle pardieiro formidavel do mar. Estava bloqueado, mas entrincheirado. Estava, por assim dizer, aggregado ao escolho, face a face com o furacão. Pôr barricadas ao estreito, essa rua das vagas. Era a unica cousa que podia fazer. Parece que o oceano, que é um despota pode ser tambem vencido pelas barricadas. A pança podia ser considerada segura por tres lados. Estreitamente apertada, entre as duas fachadas internas do escolho, triplicemente ancorada, estava abrigada ao norte pela pequena Douvre, ao sul pela grande, penedos selvagens, mais affeitos a produzir naufragios que a impedil-os. A oeste era protegida pelo tapamento de barrotes atados e pregados aos rochedos, tapamento já provado que vencera o rude flux do alto mar, verdadeira porta de cidadella tendo por hombreiras as proprias columnas do escolho, as duas Douvres. Nada havia que receiar por esse lado. O perigo estava a leste.

A leste havia apenas o quebra-mar. Um quebra-mar é um aparelho de pulverisação. Precisa ao menos duas lumieiras. Gilliatt teve apenas tempo de fazer uma. Construia a segunda mesmo com a tempestade.

Felizmente o vento chegava de nordeste. O mar tem descahidas. Aquelle vento, que era o galerno antigo, tinha pouco effeito nas Douvres. Assaltava o escolho de travez, e não impeilia a onda nem sobre uma e nem sobre outra das aberturas da garganta, de modo que em vez de entrar em uma rua, esbarrava-se n'uma muralha. A tempestade atacava mal.

Mas os attaques do vento são curvos, e devia esperar-se alguma viravolta subita. Se essa viravolta se fizesse a leste antes que a segunda claraboia do quebra-mar estivesse construida, o perigo seria grande. A invasão da viela de rochedos pela tempestade realizava-se e tudo estava perdido.

Crescia a vertigem da tempestade. A tempestade é golpe sobre golpe. Essa é a sua força, esse é o seu defeito. Á força de ser uma raiva, dá lugar á intelligencia, e o homem defende-se; mas debaixo de que destruição! Nada mais monstruoso que isso. Nenhuma dilação, nenhuma interrupção, nenhuma trégoa, nenhum descanço para tomar alento. Ha uma não sei que de covardia nessa prodigalidade do inexgotavel.

Toda a immensidade tumultuosa atirava-se sobre o escolho Douvres. Ouviam-se vozes sem numero. Quem gritava assim? Estava alli o antigo terror panico. De quando em quando, parecia que era alguem que fallava, como se fizesse um commando. Depois clamores, clarins, estranhas tremuras, e aquelle grande e magestoso urro que os marinheiros dizem ser a chamada do oceano.

As espiraes indefinidas e fugazes do vento assoviavam torcendo a onda; as vagas, tornadas discos debaixo daquelles torneamentos, eram atiradas contra os parceis como chapas gigantescas por athletas invisiveis.