A enorme escuma eriçava todas as rochas. Torrentes em cima, saliva em baixo. Depois redobravam os mugidos. Nenhum rumor humano ou bestial poderia dar idéa dos fracassos misturados áquellas deslocações do mar. A nuvem canhoneava, a saraiva metralhava, o marulho escalava. Certos pontos pareciam immoveis, em outros o vento fazia vinte toesas por segundo. O mar ao longe estava todo branco; dez léguas de agua de sabão enchiam o horisonte. Abriam-se portas de fogo. Algumas nuvens pareciam queimadas por outras, e sobre montões de nuvens vermelhas semelhantes ás brasas, assemelhavam-se essas ao fumo.
Configurações flutuantes esbarravam-se e amalgamavam-se, desfazendo-se umas por outras. Escorria uma agua incommensuravel, ouviam-se fogos de pelotão no firmamento. Havia no meio do tecto de sombra uma especie de vasta alcofa virada, donde cahiam em confusão, a tromba, a chuva, as nuvens, as côres rubras, os relampagos, a noite, a luz, os raios, tão formidaveis são essas inclinações do golphão!
Gilliatt parecia não attender a nada. Tinha a cabeça inclinada no trabalho. A segunda claraboia começava a levantar-se. A cada trovão respondia elle com uma martellada. Ouvia-se essa cadencia naquelle cahos. Estava com a cabeça descoberta. Uma lufada levou-lhe o chapéo.
Tinha uma sêde ardente. Provavelmente estava com febre. Lagoinhas de chuva tinham-se formado á roda delle nas covas do rochedo. De quando em quando tirava agua com a palma da mão e bebia. Depois, sem examinar em que ia a tempestade, continuava a obra.
Tudo podia depender de um instante. Sabia o que o esperava se não terminasse a tempo o quebra-mar. Porque motivo perder um minuto para ver approvimar-se a face da morte?
A desordem em torno delle era como uma caldeira fervendo. Havia fracasso e motim. Ás vezes o raio parecia descer uma escada. As percursões electricas voltavam constantemente aos mesmos pontos do rochedo. Haviam pedras de chuva da grossura de uma mão fechada. Gilliatt era obrigado a sacudir as dobras da japona. Até as algibeiras tinham pedras.
O temporal estava já no oeste, e batia o tapamento das duas Douvres; mas Gilliatt tinha confiança nesse tapamento, e com rasão. Esse tapamento, feito do grande pedaço da prôa da Durande, recebia sem dureza o choque da onda; a elasticidade é uma resistencia; os calculos de Stevenson estabelecem que, contra a vaga, por si propria elastica, uma reunião de pãos, com a dimensão desejada, ligada e amarrada de certo modo, faz melhor obstaculo que um breack-water de madeira. O tapamento das Douvres preenchia essas condições; era além disso tão engenhosamente atado que a onda, batendo em cima, fazia como um martello que mette o prego apoiava-o ao rochedo e consolidava-o; para demolil-o, era preciso derrubar as Douvres. A lufada apenas conseguio atirar á pança, por cima do obstaculo, alguns jorros de espuma. Por esse lado, graças ao tapamento a tempestade tornava-se cuspo. Gilliatt voltava as costas a esse esforço. Sentia tranquillamente atraz de si essa raiva inutil.
Os frocos de espuma, sahindo de todos os lados, assemelhavam-se a lã. A agua vasta e irritada afogava os rochedos, trepava por elles, entrava dentro, penetrava na rede de fendas internas, e sahia das massas graniticas por fendas estreitas, especies de bocas inexgotaveis que faziam naquelle diluvio pequenas fontes placidas. Filetes de agua cahiam graciosamente daquelles buracos no mar.
A claraboia de reforço do tapamento de leste estava quasi concluida. Mais umas voltas de cordas e correntes, e approximava-se o momento de tambem lutar esse tapamento.
De subito, fez-se um grande clarão, a chuva e as nuvens separaram-se, era o vento que mudava, uma especie de janella grande crepuscular abrio-se no zenith, e apagaram-se os relampagos; pareceu que estava acabado. Era o começo.