Desde algum tempo, a opinião publica de Guernesey occupava-se em julgar Clubin, o honrado homem que por tantos annos foi unanimemente admittido na circulação da estima. Interrogavam-se uns aos outros, duvidava-se, apostava-se pró e contra. Appareceram singulares esclarecimentos. Clubin começava a apparecer em toda a luz, isto é, tornava-se negro.

Houve em Saint-Malo uma devassa judiciaria para saber onde parava o guarda-costa 619. A perspicacia legal enganara-se, o que lhe acontece muitas vezes. Partia da supposição de que o guarda-costa fôra attrahido por Zuella e embarcado no Tamaulipas para o Chile. Esta hypothese engenhosa trouxe comsigo muitas aberrações. A myopia da justiça não chegou a vêr Rantaine. Mas no decurso da pesquiza os magistrados descobriram outros rastos; complicara-se o negocio que já era obscuro. Clubin entrava no enigma. Havia uma coincidencia, alguma relação talvez, entre a partida do Tamaulipas e a perda da Durande. Na taverna da porta Dinan, onde Clubin acreditava não ser conhecido, foi conhecido; o taverneiro fallou; Clubin tinha comprado uma garrafa de aguardente. Para quem? O armeiro da rua Saint-Vicent tambem fallou; Clubin comprára um revolver. Contra quem? O dono da hospedaria João tambem fallou; Clubin costumava a ter ausencias inexplicaveis. O capitão Gestrais Gaboreau tambem fallou; Clubin quiz partir, apezar de avisado e sabendo que devia haver nevoeiro. A tripolação da Durande tambem fallou. O carregamento era falho e mal arranjado, negligencia facil de comprehender, se o capitão quer perder o navio. Tambem fallou o passageiro guernesiano; Clubin cuidou ter naufragado nos Hanois. Tambem fallou a gente do Torteval; Clubin foi alli alguns dias antes do naufragio e dirigio-se para Plainmont, vizinho dos Hanois. Levava uma mala, e não voltou com ella. Igualmente fallaram os furta-ninhos; a historia delles parecia prender-se ao desapparecimento de Clubin, comtanto que em vez de almas de outro mundo, fossem contrabandistas. Finalmente a propria casa mal assombrada de Plaimont fallou; algumas pessoas, resolvidas a se esclarecerem, tinham-na escalado, e o que acharam dentro? Exactamente a mala de Clubin.

Os magistrados de Torteval apprehenderam a mala e abriram-na. Continha provisões de bocca, um oculo, um chronometro, roupas de homem, e roupa branca marcada com as iniciaes de Clubin. Tudo isso, nas conversas de Saint-Malo e Guernesey, ia-se accumulando, e já roçava pela fraude. Comparavara-se symptomas confusos; averiguava-se o desdem singular pelos conselhos, a affronta do nevoeiro, a negligencia na arrumação das cargas, a garrafa d'aguardente, o timoneiro ébrio, a substituição do capitão ao timoneiro, o movimento do leme, ao menos desastrado. O heroismo em ficar no navio tornava-se velhacaria. Demais, Clubin enganou-se no escolho. Addmittida a intenção de fraude, comprehendeu-se a escolha dos Hanois, a facilidade de nadar para a costa, e a residencia na casa mal assombrada até chegar a occasião de fugir. A mala acabava a demonstração. Qual o élo que prendia esta aventura á do guarda-costa, ainda não se tinha descoberto. Adivinhava-se uma correlação; nada mais. Entrevia-se, quanto a esse homem, o guarda-costa 619, um drama tragico. Clubin talvez não representasse nelle, mas descobriam-no nos bastidores.

Nem tudo se explicava pela fraude. Havia um revolver sem emprego. O revolver entrou talvez no caso do guarda.

O faro do povo é fino e acertado. O instincto publico é habil nestas restaurações da verdade feitas de pedaços soltos. Sómente, nesses factos, de que resultava uma fraude verosimil, haviam sérias incertezas.

Tudo concordava; mas não havia base.

Não se perde um navio pelo gosto de perdel-o. Não se correm os riscos do nevoeiro, do escolho, do nadar, do refugio, e da fuga, sem um interesse. Qual seria o interesse de Clubin?

Via-se o acto, não se via o motivo.

Dahi vinha a duvida a muitos espiritos. Onde não ha motivo, parece que não ha acto.

A lacuna era grave.