Dahi veio um soffrimento novo, e agudissimo, que já indicámos. Começou, cousa que ha dous mezes não fazia, a preoccupar-se com a casa, do que havia, e que reformas devia fazer. Tédio eriçado de mil pontas, quasi peior que o desespero. Odiosa cousa é supportar a desgraça por miudo, disputar passo a passo ao facto realisado o terreno que elle vem tomar. Acceita-se a massa do infortunio, a poeira não. O conjuncto acabrunha, o pormenor tortura. Ha pouco a catastrophe fulminava, agora mortifica.
Essa é a humilhação aggravante do infortunio. É uma segunda annullação que vem ajuntar-se á primeira, e feia. Desce-se um degráo no nada. Depois do sudario, o andrajo.
Nada mais triste do que pensar em decahir.
Parece simples estar arruinado. Golpe violento; brutalidade da sorte; é a catastrophe uma vez por todas. Seja. Aceita-se. Tudo está acabado. Fica-se arruinado. Está dito, morreu. Qual! vive-se. É o que no dia seguinte começa-se a sentir. Porque? Por alfinetadas. Passa um homem sem tirar o chapéo, chovem as contas das lojas, ri-se um inimigo. Ri-se talvez do ultimo trocadilho de Arnal, mas é o mesmo, o trocadilho pareceu-lhe mais engraçado, exactamente por que estás pobre. Lês a tua decadencia até nos olhares indifferentes; as pessoas que jantavam em tua casa, acham demasiado os tres pratos da tua mesa; os teus defeitos saltam aos olhos de todos; as ingratidões, não tendo que esperar mais nada, tiram a mascara; todos os imbecis predisseram o que te acontece; os máos dilaceram-te, os peiores lamentam-te. E mais cem pormenores mesquinhos. A nausea succede ás lagrimas. Bebeis vinho, beberás cidra. Duas criadas! Uma seria de mais. Devia-se despedir esta, sobrecarregar aquella. Ha flôres de mais no jardim; planta antes batatas. Davas flôres aos amigos, vende-as agora no mercado. Quanto aos pobres, já não deves pensar nelles; também não és pobre? As toilettes, questão pungente. Diminuir uma fita a uma mulher, que supplicio! Recusar o enfeite, a quem te dá a belleza! Ter ares do avarento! Talvez que ella te diga:—Pois que! tiraste as flôres do meu jardim, e agora as tiras do meu chapéo!—Ai triste! condemnal-a aos vestidos velhos! A mesa de familia é silenciosa. Parece-te que te querem mal. Os rostos amados parecem preoccupados. Eis o que é a decadencia. Cumpre-te morrer todos os dias. Cahir, não é nada, é a fornalha. Decahir, é o fogo lento.
A quéda é Waterloo; a decadencia é Santa Helena. A sorte, encarnada em Wellington, tem ainda alguma dignidade; mas quando se faz Hudson Lowe, que vilania! O destino torna-se um bigorrilhas. Vê-se o homem de Campo-Formio querelando por um par de meias de seda. Agorentou-se a Inglaterra, agorentando Napoleão.
Essas duas phases, Waterloo e Santa Helena, reduzidas ás proporções burguezas, todos as atravessam.
Na noite de que fallámos e que era uma das primeiras noites de Maio, Lethierry deixando Deruchette passear ao luar, no jardim, deitou-se mais triste que nunca.
Rolavam-lhe no espirito todas essas minucias mesquinhas e desagradaveis, complicações de fortunas ardidas, todas essas preoccupações de terceira ordem, que começam por ser insipidas e acabam lugubres. Triste accumulação de miserias. Mess Lethierry sentia a sua queda irremediavel. Que devia fazer agora? Que seria delle? Que sacrificios devia impôr a Deruchette. Quem devia despedir, Doce ou Graça? Venderia a casa? Seria obrigado a abandonar a ilha? Não ser cousa alguma onde se foi tudo, é uma decadencia insuportavel.
E pensar que estava acabado! Recordar as viagens de França ao archipelago, a partida ás terças-feiras, a chegada ás sextas, a chusma no cáes, aquelles grandes carregamentos, aquella industria, aquella prosperidade, aquella navegação directa e altiva, aquella machina sugeita á vontade do homem, aquella caldeira omnipotente aquelle fumo, aquella realidade! O vapor é a bussola completa; a bussola indica o caminho, o vapor segue por elle. Uma propõe, a outra executa. Onde estava agora a sua Durande, aquella magnifica e soberana Durande, aquella senhora do mar, aquella rainha que o fazia rei? Ter sido o homem idéa, o homem triumpho, o homem revolução! e renunciar! abdicar! Não existir! fazer rir aos outros! ser um sacco onde já houve alguma cousa! Ser o passado quem foi o futuro! merecer a compaixão altiva dos idiotas! ver triumphar a rotina, a obstinação, o rammerrão, o egoismo, a ignorancia! ver começar outra vez as viagens dos cutters gothicos sacudidos pela vaga! ver a antigualha rejuvenecer! perder a vida! perder a luz e soffrer o eclypse! Ah! como era bello vêr sobre as vagas aquelle cano orgulhoso, aquelle prodigioso cylindro, aquelle pilar de um capitel de fumo, aquella columna maior que a de Vendome, porque havendo nesta apenas um homem, ostentava-se naquella o progresso! O oceano está por baixo; era a certeza em pleno mar. Vio-se aquillo, naquella pequena ilha, naquelle pequeno porto, naquelle pequeno Saint-Sampson? Sim, vio-se! Pois que! vio-se e não se verá mais!