Gilliatt contemplava as duas janellas. Pensava em alguem que estivesse dormindo naquelle quarto. Quizera não estar onde estava. Preferia morrer a retirar-se. Pensava numa respiração levantando um seio. Ella, aquella miragem, aquella alvura dentro de uma nuvem, aquella obsessão de seu espirito, estava alli! Gilliatt pensava no inaccessivel que dormia, e tão perto, e ao alcance do seu extase; pensava na mulher impossivel adormecida e visitada tambem pelas chimeras; na creatura desejada, remota, esvaecente, fechando os olhos com a fronte na mão; no mysterio do somno da creatura idéal; nos sonhos que póde ter um sonho. Não ousava pensar além e pensava; arriscava-se nas faltas de respeito do devaneio; perturbava-o a quantidade de forma feminina que póde haver no anjo. A hora nocturna faz com que os olhos timidos lancem furtivos olhares; censurava-se por ir tão longe, receiava profanar com a reflexão; a seu pezar, constrangido, tremulo, Gilliatt olhava para o invisivel. Sentia a commoção e quasi o soffrimento, de imaginar uma saia numa cadeira, um manto atirado ao tapete, um cinto desenlaçado, um lenço de pescoço. Imaginava um collete, um atacador arrastando no chão, meias, ligas. Tinha a alma nas estrellas.

As estrellas são feitas tanto para o coração humano de um pobre, como para o coração de um millionario. Em certo grão de paixão todos os homens são sujeitos ás fascinações profundas. Se a natureza é aspera e primitiva, razão de mais. A condição selvagem augmenta o sonho.

A fascinação é uma plenitude que transborda como todas. Ver as janellas era quasi de mais para Gilliatt.

De repente vio elle a propria moça.

Dentre os ramos de uma mouta, já espessa pela primavera, sahio com ineffavel lentidão, phantastica e celeste, uma figura, um vestido, um rosto divino, quasi um clarão no meio do luar.

Gilliatt sentio-se desfallecer. Era Deruchette.

Deruchette approximou-se. Parou. Deu alguns passos para afastar-se, parou ainda, depois voltou e assentou-se no banco de páo. A lua batia nas arvores, algumas nuvens erravam por entre as estrellas pallidas, o mar fallava ás cousas da sombra, a meia voz, a cidade dormia, do horisonte subia uma neblina, a melancolia era profunda.

Deruchette inclinava a fronte com aquelle olhar pensativo que contempla attentamente o vácuo; estava sentada de perfil, com a cabeça quasi descoberta, tendo um barretinho desatado que lhe deixava ver na nuca delicada a origem dos cabellos, enrolava machinalmente nos dedos uma fita do barrete, a penumbra modulava as suas mãos de estatua, o vestido era de uma dessas côres que de noite se fazem brancas, as arvores moviam-se como se fossem susceptiveis ao encanto que resumbrava della, via-se a pontinha de um de seus pés, havia nos seus cilios fechados aquella vaga contracção que annuncia uma lagrima represa ou um pensamento repellido, os seus braços tinham a indecisão fascinante de não achar onde encostar-se, misturava-se-lhe á postura alguma cousa fluctuante, era antes um clarão que uma luz, antes uma graça que uma deusa, as dobras da barra da saia eram delicadas, o seu admiravel rosto meditava virginalmente. Estava tão perto, que era terrivel. Gilliatt ouvia-a respirar.

Havia ao longe um rouxinol que cantava. A passagem do vento nos ramos punha em movimento o inefavel silencio nocturno. Deruchette, gentil e sagrada, apparecia naquelle crepusculo como o resultado daquelles raios e daquelles perfumes; o encanto immenso e esparso ia ter mysteriosamente a ella, nella condensava-se era a sua irradiação. Parecia a alma flôr de toda aquella sombra.

Toda aquella sombra, fluctuante em Deruchette, pesava sobre Gilliatt. Estava desvairado. O que elle sentia não cabe dize-lo em palavras; a commoção é sempre nova e as palavras já servirão muito; dahi vem a impossibilidade de exprimir a commoção. Existe o abatimento do encanto. Ver Deruchette, vêl-a ella propria, ver-lhe o vestido, ver-lhe o barrete, ver-lhe a fita que ella enrolava nos dedos, póde-se acaso imaginar semelhante cousa? Estar perto della, era acaso possivel? Ouvi-la respirar; respirava pois! então os astros respiram. Gilliatt estremecia. Era o mais miseravel e o mais inebriado dos homens. Não sabia que fazer. O delirio de ve-la esmagava-o. Pois que! Era ella quem alli estava, era elle quem estava alli! As suas idéas, deslumbradas e fixas, paravam naquella creatura como se fora um rubi. Contemplava aquella nuca e aquelles cabellos. Gilliatt nem mesmo pensava que tudo aquillo lhe pertencia, que em pouco tempo, talvez amanhã, elle teria o direito de tirar-lhe aquella coifa e deslaçar aquella fita. Sonhar até esse ponto era um excesso de audacia que elle não poderia conceber um momento. Tocar com o pensamento e quasi tocar com a mão. O amor era para Gilliatt como mel para o urso, o sonho eximio e delicado. Pensava confusarnente. Não sabia o que tinha. O rouxinol cantava. Elle sentia-se expirar.